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Elixir musical

‘Nossa MPB anda pobre… e acho que os Beatles um dia ainda virão por aqui’

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Autor/Imagem:
Armando Cardoso - Foto Editoria de Artes/IA

Não tenho vocação para crítico musical, mas é uma seara com a qual estou envolvido desde a infância, quando, ciceroneado por meia dúzia de amigos da idade e escoltado pelos colegas mais experientes, já tentava imitar alguns dos integrantes dos Beatles, dos Monkees e dos Rolling Stones. No meu mundo juvenil quase fictício, eu era cover das bandas, embora ainda não tivesse receituário algum da lógica da palavra. Na verdade, ninguém sabia por que o termo não fazia parte do nosso dicionário.

Fora a vontade de chegar ao pódio mais alto de uma carreira que parecia muito distante, o que eu tinha de mais apurado era a cara de pau. Para os meninos de minha rua, carreira tinha apenas dois significados: a corrida do dono da chácara onde afanávamos manga ou a trajetória percorrida durante a vida profissional. A que gera dependência nunca fez parte do meu dia a dia. Com a ajuda dos deuses, despertei cedo para a música, mesmo sem nenhum conhecimento de notas, arranjos, estribilhos, partituras ou coisas do gênero.

Meu interesse era limitado à sonoridade e ao conteúdo da mensagem das letras. Na época, a música era um elixir dos mais baratos. Rádios de pilha à mão e sentados em uma enorme manilha deliberadamente esquecida na esquina da rua em que vivia, discutíamos sobre o significado das composições da MPB. Participar dessas “reuniões” era sinônimo de intelectualidade. Para nossa sorte, ninguém rimava ô-ô-ô com amor, muito menos caruru e micareta com vou comer seu bolo.

Na minha infância e adolescência, o que mais eu esperava era pelas inesquecíveis e jovens tardes de domingo, todas regadas a boleros caribenhos e a rocks californianos e ingleses. O tempo passou tão de repente que, quando a juventude chegou, os longos dias deram lugar às noites em que os bailinhos americanos dominavam o efervescente subúrbio carioca. Era o fim dos anos 60 e o início dos 70. Com a mesma animação das turmas do Bronx e do Brooklin, o frenesi regado a Cuba Libre não aparecia em redes sociais, tampouco sobrava para os tais Instagram, Facebook e X.

Assim, desse modo quase artesanal, começou meu apreço pela boa música e pelas melosas, belas e nostálgicas discotecas dominicais. Responsáveis pela transformação da vida dos jovens brasileiros em uma grande festa de arromba, Tony e Celly Campello, The Clevers, Ronnie Cord, Leno e Lilian, Wanderley Cardoso, Eduardo Araújo, Carlos Imperial, Roberto e Erasmo Carlos, Wanderléa, Tim Maia, Renato e Seus Blue Caps e Golden Boys, entre muitos outros, foram meteóricos, mas até hoje orbitam no imaginário dos grisalhos senhores que um dia alimentaram longas e vaselinadas madeixas.

Fã dos conjuntos de baile e dos suburbanos grupos de rock, muito cedo fui apresentado a Elvis Presley, Chuck Berry, Chubby Checker e Little Richards. A partir deles, cheguei ao Temptations, Manhattans, Four Tops e Comodores, todos contratados da gravadora Motown Records, a mesma de Diana Ross, Marvin Gaye, Stevie Wonder, Jackson Five e, mais tarde, Michael Jackson. Ao longo de bem-sucedidas carreiras de décadas, o repertório da maioria incluía R&B, doo-wop, funk, disco, soul e rock and rool. Quem não se lembra de My Girl nas vozes de Otis Williams, Melvin Franklin, Eddie Kendrick, Paul Williams e David Ruffin?

E de Kiss and Say Goodbye, Forever by Your Side e Shining Star, do Manhattans? Satisfaction, Paint It Black, Angie e Miss You, dos Stones, são músicas imorríveis. Capítulo à parte, os Beatles Paul McCartney, John Lennon, George Harrison e Ringo Star são donos das eternas Here Comes the Sun, Let It Be, Hey Jude, Don’t Let Me Down, Twist and Shout, Something, Hels e Come Together. Diante da pobreza e dos piseiros da música brasileira, só me resta rogar a Deus para manter entre nós Caetano, Gil, Ney, Bethânia, Djavan, Marisa Monte, Milton Nascimento e até Zeca Pagodinho. Que eles continuem ativos, enquanto eu, do alto de meus enta anos, continuo circulando pela Rua Ramalhete e sonhando com o dia em que os Beatles virão por aqui, cantar as canções que a gente nunca deixou de ouvir.

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Armando Cardoso é presidente do Conselho Editorial de Notibras

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