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Desculpas esfarrapadas

Jornalista, como político, também é gente; e trai nem que seja a esposa

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Autor/Imagem:
Wenceslau Araújo - Foto de Arquivo

Profissional que rodou por numerosas redações e órgãos públicos, acabei hibernando por 16 anos e meio em três dos cinco tribunais superiores do país. Honrosamente, meu recorde foi a Corte Eleitoral, da qual fui secretário de Comunicação Social por oito anos, duas eleições presidenciais, uma municipal e um plebiscito. Apenas detalhes curriculares. Interessantes foram as amizades e, principalmente, as histórias dos outros. Uma das mais hilárias foi protagonizada por um dileto e queridíssimo amigo, cujo nome, por razões óbvias, devo preservar, embora possa, pelo menos, denominá-lo de um brilhante crustáceo mineiro.

Já rodado nesse mundão de Deus, craque nos mecanismos informáticos, pouco assanhado, mas adorador voraz do escocês Johnnie Walker, nem sempre conseguia chegar em casa mais cedo do que exigia sua adorada e ciumentíssima mulher. Via de regra, todos os dias a desculpa era a mesma: avarias nos computadores, reuniões prolongadas, sessões intermináveis e chamamentos de última hora de colegas de algum regional. Técnico dos técnicos, diariamente era assediado por servidores, advogados, parlamentares, jornalistas e magistrados ávidos por novas informações sobre as urnas eletrônicas.

Acima de qualquer suspeita, a secretária da seção trabalhava como se fosse seus braços direito e esquerdo. Era uma das poucas mulheres com crédito ilimitado com a esposa do chefe. Num dia de sessão comandada por Nelson Jobim, o amigo esqueceu de avisar a patroa que iria madrugar. Chegou por volta das quatro horas, encontrando-a de prontidão no meio da sala. Certamente não percebera a tempo uma enorme mancha de batom na perna esquerda de sua calça. “Fulano, você pode me dizer o que significa isso?”

A desculpa foi a melhor que já ouvi: “Meu bem, foi a secretária”. “Como? “Você acha que sou idiota a esse ponto?”. “Juro que foi a secretária”. “Como?”. As duas indagações lhe deram tempo para pensar. “Simples. Fui ao banheiro e, quando voltei para minha sala, percebi que o zíper da calça estava emperrado. Chamei a secretária, arriei a pantalona até o joelho e, claro, cobri as partes pudendas com uma toalha enquanto ela costurava”. “E essa mancha de batom?”

“Mancha de batom? Caramba!!! Com certeza foi quando ela abaixou para cortar a linha com os dentes”. O cheiro do perfume no pescoço derrubou sua engenhosa defesa. Entretanto, foi salvo pela presença de espírito, pela cara de pau, pelo tempo de casamento e, naturalmente, pelo volume do escocês. Aparentemente, ficou o dito pelo não dito. O que posso garantir é que a auxiliar jamais soube que havia se transformado em costureira relapsa. Nosso querido informático continua por aí. A pedido do crustáceo, resgatei a secretária para outros tribunais.

Jornalista dos bons, Jorge Tadeu (nome fictício) também fez escola com suas esfarrapadas desculpas domésticas. Baixinho e magro, usava ternos bem maiores do que seu número original. Por isso, as calças tinham de ser apertadas com o cinto, formando obrigatoriamente dobras horrorosas nas costas. Numa madrugada de orgia etílica – não necessariamente com esticadas febris -, Tadeu adentrou o honroso lar e deu de cara com a mulher. “Onde você estava?” Calado, afrodisíacamente melado e sério, conseguiu afrouxar a gravata, tirar o paletó e a camisa. Quando desafivelou o cinto, a calça larga desabou até os pés. Desgraçadamente o amigo estava sem a cueca.

Irada, a patroa quis saber onde a peça havia ficado. Altivo e com dignidade, balbuciou: “Roooouuubaram!”. Claro que a mulher se fez de besta para manter o casamento de décadas, mas Jorge Tadeu nunca mais foi o mesmo. Não se sabe se foi proibido de sair de casa sozinho ou se enveredou pelos caminhos do Evangelho dos bispos Edir Macedo e Marcelo Crivella. A verdade é que sumiu das noites tenebrosas do jornalismo. Infelizmente, anos depois soube que ele havia morrido atropelado na via principal do bairro Sudoeste. Certamente eu seria um homem morto ou castrado fosse o protagonista de uma dessas duas histórias. Aff! Nenhuma dessas histórias virou manchete nos jornais da cidade, mas todas estão ou estarão nos anais e nas lápides de seus protagonistas.

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Wenceslau Araújo é Editor-chefe de Notibras

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