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Voltando como deputado

Vela de Cristovam ainda pode iluminar Brasília

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José Seabra - Foto Rebeca Andrade

Em meus cinquenta e seis anos de jornalismo, constam registros que não cabem nos arquivos oficiais. E outras histórias, porém, preferem morar na memória. O que diz respeito a Cristovam Buarque talvez caiba nos dois lugares. Mas há uma pequena vela, dessas que mal conseguem vencer a escuridão de um quarto, que ajuda a contar melhor sua passagem pela vida pública do que muitos discursos, currículos e biografias.

Houve um tempo em que a Fercal parecia muito mais distante de Brasília do que os quilômetros indicavam. Encravada ao norte da capital, a região convivia com uma contradição quase cruel. Lá do alto, era possível enxergar ao longe o clarão da cidade planejada. O Lago Norte, a Esplanada dos Ministérios, o Congresso Nacional, o Palácio do Planalto, o Alvorada. Justamente onde Brasília brilhava, mas a Fercal, não.

Quando o Sol desaparecia atrás dos morros, havia casas onde a noite chegava acompanhada da chama frágil de uma lamparina ou de uma vela. Era quase uma fotografia do sertão pobre transportada para poucos quilômetros do centro do poder da República. E foi justamente ali que Cristovam Buarque encontrou uma vela.

A narrativa talvez não tenha guardada toda a pontuação. Pode faltar um ponto e vírgula, sobrar uma exclamação ou existir alguma interrogação perdida pelo caminho. Mesmo porque, a memória tem dessas coisas. Mas o essencial permanece. E ponto. Ou pronto.

Governador do Distrito Federal entre 1995 e 1998, Cristovam tomou conhecimento daquela realidade e determinou que a então Companhia Energética de Brasília levasse iluminação à região. Tempos depois, ao voltar à Fercal já iluminada, recebeu um presente. Não era uma placa. uma medalha, um diploma. Era apenas uma vela, já gasta. A mesma vela que uma criança utilizava para conseguir ler seus livros e fazer os deveres escolares quando a noite chegava.

Talvez tenha sido um dos presentes mais simbólicos que um governante poderia receber. Porque Cristovam sempre pareceu compreender que governar não significa apenas construir viadutos, inaugurar prédios ou cortar fitas. Às vezes, governar é permitir que uma criança consiga enxergar as letras de um caderno.

Foi assim também com o Bolsa Escola, implantado em seu governo no Distrito Federal, uma experiência que associava transferência de renda à permanência das crianças pobres na escola e que se tornaria referência para políticas posteriores. Havia ali uma obsessão com a educação que atravessaria praticamente toda a vida pública desse pernambucano que Brasília adotou.

Professor da Universidade de Brasília, primeiro reitor eleito da UnB, governador, ministro e senador, Cristovam poderia ter escolhido muitas bandeiras, mas fez a opção por uma que raramente oferece resultados eleitorais imediatos, porque uma escola não fica pronta politicamente em quatro anos. Já uma criança educada é uma obra para décadas.

Quando chegou ao Ministério da Educação, colocou entre suas prioridades o combate ao analfabetismo, a melhoria da educação básica e a transformação da universidade. Naquele período, nasceu o Brasil Alfabetizado, programa voltado à alfabetização de jovens e adultos. Depois vieram 16 anos no Senado. Foram dois mandatos. E novamente a educação estava lá.

Cristovam defendeu a federalização da educação básica, a escola em tempo integral e políticas nacionais capazes de diminuir a distância entre a escola do filho do rico e a escola do filho do pobre. Nesta segunda, 24, ao fazer, em conversa com Notibras, o balanço de sua passagem pelo Senado, destacou entre suas realizações a aprovação do primeiro piso salarial nacional dos professores e a transformação de 21 proposições de sua autoria em leis.

Hoje pode-se concordar ou discordar de Cristovam. Aliás, deve-se, porque democracia não foi inventada para produzir unanimidades, muito menos para fabricar santos que cometem erros políticos, tomam decisões discutíveis, mudam de partido, rompem alianças, teve outras rompido e, algumas vezes, desagradou justamente aqueles que esperavam dele determinado comportamento.

Mas política é assim. Quem convive no meio, sabe. Há, contudo, uma diferença entre cometer erros na política e fazer da política um erro permanente. Cristovam nunca precisou explicar apartamentos abarrotados de dinheiro, malas misteriosas, joias clandestinas ou fortunas incompatíveis com a vida pública. Seu patrimônio político sempre esteve muito mais próximo dos livros do que dos cofres. E isso, no Brasil de hoje, talvez seja uma credencial que mereça ser considerada.

Agora, aos 83 anos, Cristovam disputará novamente uma cadeira no Congresso Nacional. Alguém poderá perguntar:

— Não está velho demais?

Talvez. Mas, velho para quê? Para jogar futebol, provavelmente; para correr uma maratona, certamente seria prudente consultar os joelhos. Entretanto, jamais velho para pensar, para formular, para escrever leis, para defender ideias. Muito menos idoso suficiente para lembrar ao Parlamento que um país não será grande enquanto suas crianças continuarem condenadas a escolas pequenas. Porque, no caso de Cristovam, não existe aposentadoria compulsória para a lucidez.

Em 2018, quando deixou o Senado, o ex-governador de Brasília disse que não estava abandonando sua luta, enfatizando na ocasião que continuaria defendendo educação de qualidade, democracia e um Brasil menos desigual. Oito anos depois, a história parece querer conduzi-lo novamente ao lugar onde tantas vezes tentou convencer o país de uma ideia aparentemente óbvia, segundo a qual a verdadeira revolução começa dentro de uma sala de aula.

Por isso, após a conversa com Cristovam, me vejo voltando à Fercal. àquela criança, àquela vela. Imagino o menino ou a menina aproximando o caderno daquela chama pequena, protegendo-a do vento com a mão para conseguir terminar a lição. E imagino também o governador recebendo aquela mesma vela depois que a eletricidade chegou.

Em mais de cinco décadas de profissão li, escrevi e aprendi que governantes costumam ganhar presentes caros. Mas Cristovam ganhou luz. Talvez seja exatamente essa a metáfora de sua trajetória. Porque Brasília pode até discordar de algumas de suas escolhas, pode questionar partidos pelos quais passou, posições que assumiu e caminhos que percorreu, mas dificilmente poderá dizer que Cristovam Buarque passou pela política sem deixar rastros.

Deixou escolas, programas, leis, livros, ideias e levou, para sua escrivaninha, aquela vela. É por essas razões que, agora filiado ao PSB e disposto a regressar ao Congresso, Cristovam merece, na minha avaliação, mais um voto de confiança. Claro que não se trata de um cheque em branco, porque democratas não entregam cheques em branco a políticos. Entregam votos e depois cobram.

Quando chegar a hora, portanto, meu voto de confiança em Cristovam será regiamente teclado na urna eletrônica. Sem lamparina, sem vela, mas com memória. Tudo porque, quando se quer escolher quem deve ajudar a construir o futuro, basta lembrar quem acendeu a luz quando tudo ainda estava escuro.

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José Seabra é CEO fundador de Notibras

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