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A culpa

O tempero do remorso

Publicado

Autor/Imagem:
Eduardo Cesario-Martínez - Foto Irene Araújo

Salete não era adepta da mudez, mesmo quando a vontade de sumir a consumia. Também não era de escândalos, preferia a fúria contida. Melhor seria que Guilherme, o traste do marido, juntasse as coisas e pegasse o beco.

— Oi, amor, como foi o seu dia?

— Bom.

— Vi que saiu um filme novo daquela atriz… Como é mesmo o nome dela?

— Sei não.

— Salete, minha querida, aquela atriz de olhos enormes.

— Hum…

— Pois é, meu amor, a gente poderia ir ver. O que você acha?

— Pode ser.

Respostas curtas, como de quem não quisesse muita conversa. Guilherme, desconfiado, imaginou que talvez a Salete soubesse do seu caso com a Rosana. Observou de soslaio o rosto da esposa. Nada mais do que o enigmático sorriso de Monalisa.

— Salete, minha vida, o que tem pro jantar?

— Sopa.

— Adoro a sopa que você faz. Já te falei que você é a melhor cozinheira do mundo? Melhor até do que a minha mãe.

— Vou fazer o seu prato já, já.

Sabia. Ela sabia. A certeza se instalou sem ressalvas na mente do Guilherme. Mas como? Quem teria contado para Salete? Ou teria ela percebido pelo perfume da Rosana? Bem que o Armando já o havia alertado sobre o perigo. 

— Cuidado, Guilherme! Esse perfume da Rosana é muito marcante. 

Guilherme observou a esposa. Ela lhe pareceu impassível. Aí é que mora o perigo.

— Não precisa, meu amor. Acho que não vou jantar hoje. Daqui a pouco vou ficar barrigudo que nem o Antunes. 

Salete esboçou um sorriso, o que deixou o marido perplexo. Ela teria colocado veneno na sopa? Não era possível. Não. Salete não faria aquilo. Ou faria? Amanhã mesmo terminaria o romance com a Rosana. Se ela insistisse, ele diria que não podia mais, que era casado, homem de família. 

Deitado, observou a mulher, que parecia se divertir com a leitura de um livro de um tal J. Emiliano Cruz: A felicidade e os risíveis amores de todos nós. Guilherme esticou os olhos e lá estava o título de um conto: Crime e castigo do tio Anacleto (ou a infidelidade na era pré-celular). Além da barriga roncando, o homem passou a noite em claro.

……………………

Eduardo Cesario-Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).

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