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DKW

Meu avô

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Autor/Imagem:
Cadu Matos - Foto Francisco Filipino

Escrevi sobre meu avô no conto Balões, e o descrevi como “o adulto de mãos mais habilidosas que conheci”, projetista de um balão do tamanho de uma casa de dois andares, que até hoje transporta o contista pelos voos da imaginação. Além disso, utilizei traços dele em diversos textos. Ele era o colecionador de LPs – de ópera, não de tango, como consta do texto Coisinha pouca, e que ouvia cada vez mais alto, à medida que ensurdecia; foi ele quem me infernizou a vida com suas referências a seu netinho perfeito, Eduardo Carlos, antítese do Carlos Eduardo destas maltraçadas, que se materializou em Priminhos e até hoje me traumatiza. Cabe admitir, porém, que, se mereceu nota zero em psicologia infantil, mostrou-se um analista arguto ao chamar-me, na adolescência, de “lobo solitário”, definição que se ajusta a mim como uma luva.

Hoje, porém, quero falar de seus últimos dias, e de como ignorei os sinais mais que evidentes de sua inevitável partida.

Em 1963, aos 16 anos, iniciei o terceiro colegial. Com os neurônios a mil e os hormônios explodindo, só pensava em sexo e revolução, forças motrizes que continuamente intercambiavam suas posições em minha mente. Venerava todas as mulheres que viessem e dessem e, ao mesmo tempo, era tiete de Fidel, Guevara, Brizola, Arraes e Celso Furtado, estava decidido a cursar economia e trabalhar na Sudene.

Meus pais viam nisso, com uma pitada de razão, não a escolha de uma carreira, e sim uma adesão sem reservas à revolução brasileira. Tentaram endireitar-me (em todos os sentidos do termo) e, claro, fracassaram redondamente. Desenvolveram, então, uma estratégia vencedora, no tabuleiro de xadrez da vida.

O primeiro lance pode ser chamado de “gambito do carro”: antes mesmo de completar 17 anos, ganhei um DKW de presente. De um dia para outro, eu dispunha de um local para minhas trepadas: a política recuou convenientemente para segundo plano, enquanto um valor mais alto, o da sacanagem, se alevantava, saudava o público e pedia passagem.

Segundo movimento, a mudança do terceiro científico para o terceiro clássico noturno. Até que gostei de matérias como Literatura e Latim, mas estava desenraizado, todos os meus amigos cursavam o científico e estudavam de dia. A alegação familiar: eu iria prestar vestibular para Economia, porque o desejava, e Direito, como meu pai e avô, precisava de Latim, Português e outras matérias dessa lavra.

Deixei-me docemente convencer, enquanto rodava pelos campos de caça de Niterói, atrás de fêmeas que topassem o vucovuco. E quase toda noite garantia uma rapidinha, estar motorizado ajuda pra dedéu.

Resumo da ópera, em 1964 só fiz vestibular pra Direito, entrei em economia apenas em 1965 (e não terminei o curso). Mas o ponto a destacar foi que meu avô teve um câncer fulminante no final de 1963 e, juro, nem percebi os sintomas, só pensava em sexo e política.

Recuperei um mínimo de sanidade na última noite de meu avô. Fiquei junto a seu corpo corroído pela doença, segurando suas mãos antes habilidosas, agora um peso quase morto. Jamais esquecerei o olhar carinhoso, de um amor sem reservas, com que ele se despediu de mim. Foi como se pedisse desculpas por partir, por não poder mais atenuar, ainda que brevemente, a solidão de um lobo solitário.

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