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Judas

Mídia parcial afaga um filho e apedreja outro

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Autor/Imagem:
Mathuzalém Júnior - Foto de Arquivo

Mesmo sabendo antecipadamente que perderia meu precioso tempo e que, provavelmente, teria de tomar uma dose dupla de Rivotril para dormir, noite dessas resolvi assistir a um desses ziguezagueantes debates entre presidenciáveis. Com a ajuda da atenta espiritualidade, peguei no sono e não vi as vias de fato. Melhor assim. Depois da ausência do principal candidato, o que mais me chamou atenção foi o nível (na verdade a falta dele) dos postulantes à cadeira mais pesada e importante da política brasileira.

Com a graça de Deus isso não ocorrerá, mas caso um desses que vi fosse eleito não tenho dúvida de que o Brasil se transformaria em um grande picadeiro a céu aberto. Talvez uma ZBM sem gerenciamento. Para continuar com a narrativa, é necessário que, antes, eu me posicione no tempo. Que saudade de 1989, ano da primeira eleição após duas décadas e meia de doutrina militar. Além de nome, prestígio, peso político, ideias e propostas, os candidatos tinham respeito um pelo outro. O mais importante é que não se tratavam como inimigos.

Quem não viu jamais verá debates como aqueles com a participação do então neófito Luiz Inácio Lula da Silva contra Fernando Henrique Cardoso, Ulysses Guimarães, Mário Covas, Leonel Brizola, Paulo Maluf e Aureliano Chaves, todos do Sul-Sudeste. Apesar do calor da direita e do fogo da esquerda, as divergências político-partidárias eram “engolidas” pela inteligência dos debatedores. Curiosamente, o menos preparado ganhou a eleição presidencial de 89. Elevado pela mídia à condição nacional de “Caçador de Marajás”, Fernando Collor virou o primeiro presidente do Brasil pós-redemocratização.

Como governar Alagoas é diferente de comandar uma nação, o resultado foi aquele que se viu. O mandato não durou dois anos. Apenas como memória, foi a chamada grande imprensa, comandada por aquela emissora familiar, a principal responsável pela eleição de Collor. O povo não era e não é bobo, embora parte dessa imprensa continue apostando que sim. É aceitável que, por questões meramente políticas ou ratazanamente comerciais, determinados jornais, revistas e emissoras de rádio e televisão não gostem de um candidato. Acho que não gostar é forte demais. É mais ameno dizer que eles, os conglomerados jornalísticos, preferem o outro. E preferem porque, publicitariamente, é mais fácil negociar o jogo a ser jogado.

Se não preferissem, então que cobrassem a quebra de sigilo fiscal, telefônico e bancário de ambos e não somente de um. Aproveitando frases de um desabafo produzido e divulgado por “cidadãos brasileiros atentos e indignados”, não custa lembrar ao povo desse Brasil varonil que, às vésperas da eleição de 2026, a mídia que se autointitula isenta tem agido com dois pesos e duas medidas. Na carta aberta publicada por esses cidadãos há uma interessante crítica à “fúria investigativa da imprensa” contra um cidadão sem cargo público e que é caçado por conta de suspeitas inconclusivas. A mesma mídia vem sistematicamente esquecendo de um senador presidenciável, cujo histórico de malfeitos e de envolvimento com pessoas de conduta duvidosa daria um best seller.

Desnecessário nominá-los, mas interessante é que um é filho do outro e o outro é filho do um. O que, em tese, nada deve, gera manchetes diárias como se fosse o chefe de uma facção criminosa. Como contrapartida, o outro sequer é investigado. Também entendo que a diferença não está na lei, mas no sobrenome e na orientação editorial. Enquanto há tempo, o que o eleitor sério exige é que o dever de investigar para informar seja aplicado aos dois filhos com a mesma energia, o mesmo rigor e a mesma coragem. Resumo da ópera é que a mídia que afaga é a mesma que apedreja. Tudo depende de quem e como se negocia. É bom lembrar que até hoje a história acusa aquela emissora de ter editado o debate do dia 14 de dezembro de 1989, de modo a favorecer Fernando Collor. Favoreceu, mas o povo jamais esqueceu. Tomara que não haja um novo Show da Xuxa

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Mathuzalém Júnior é jornalista profissional desde 1978

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