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Clínica do horror

Conselho cassa registro de dentista acusado de estuprar oito pacientes

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Autor/Imagem:
Maria Amália Alcoforado - Foto Divulgação

O Conselho Regional de Odontologia do Distrito Federal (CRO-DF) tomou uma medida firme no início deste mês ao decidir, por unanimidade, pela cassação do registro profissional do cirurgião-dentista Gustavo Chiovatto Najjar, de 38 anos. O especialista em harmonização facial é alvo de graves denúncias e já acumula uma condenação criminal por violência sexual. Apesar do parecer contundente do órgão regional, a punição definitiva ainda depende de uma validação formal por parte do Conselho Federal de Odontologia (CFO).

Em documento oficial emitido pela autarquia, os conselheiros justificaram a severidade da punição apontando que as atitudes do profissional violaram frontalmente preceitos básicos da ética médica. De acordo com a decisão, a conduta de Najjar feriu os deveres de “respeito, dignidade, boa-fé, lealdade, probidade e proteção da pessoa atendida”. Diante do cenário exposto nos autos, o colegiado considerou o banimento da profissão como a única medida “adequada e proporcional” para salvaguardar a integridade e a confiança da relação entre dentistas e pacientes.

O histórico de abusos cometidos pelo cirurgião começou a vir à tona de maneira robusta em 2024, quando ele foi condenado pela 3ª Vara Criminal de Brasília. Naquela ocasião, o Judiciário estipulou uma pena de seis anos de prisão em regime inicial semiaberto para um dos casos denunciados. Embora a equipe de defesa do réu tenha anunciado que recorreria da sentença, o desdobramento da investigação da Polícia Civil revelou uma série de evidências técnicas incontestáveis coletadas à época do crime.

A apuração do caso que levou à primeira condenação demonstrou que a vítima, uma mulher de 33 anos, conheceu Gustavo Najjar por meio das redes sociais antes de agendar uma consulta estética. Segundo os registros policiais, o cirurgião utilizou o ambiente de avaliação técnica de harmonização facial para desviar o foco da consulta, fazendo questionamentos de cunho íntimo sobre o corpo da paciente. O atendimento culminou em uma grave agressão e violência sexual praticadas no interior do próprio consultório.

A materialidade da violência foi comprovada de forma pericial por meio de exames conduzidos por médicos legistas do Instituto Médico Legal (IML). Os laudos técnicos apontaram lesões físicas evidentes e totalmente compatíveis com a denúncia de abuso sexual apresentada pela paciente. Além disso, a análise laboratorial detectou a presença de espermatozoides no material biológico coletado da vítima, e um teste comparativo de DNA confirmou a compatibilidade do perfil genético com as amostras de Najjar.

Estimuladas pela coragem do primeiro relato público e pela prisão temporária do investigado em setembro, outras sete mulheres procuraram a Polícia Civil para relatar situações de abuso. De acordo com os investigadores da 5ª Delegacia de Polícia (Asa Norte), as novas denúncias englobam crimes de importunação sexual e estupro ocorridos entre os anos de 2020 e 2026. Duas das novas vítimas detalharam abusos ocorridos em 2020 e no ano passado, enquanto outra relatou ter sido importunada na véspera da captura do dentista.

Os depoimentos permitiram que o delegado-chefe João de Ataliba traçasse com exatidão o modus operandi utilizado sistematicamente pelo suspeito na maioria de suas ações. O roteiro criminoso iniciava-se sempre com um contato virtual nas redes sociais, onde Najjar oferecia avaliações cosméticas. Com o interesse manifestado pela vítima, o dentista manipulava a agenda da clínica para marcar o atendimento no último horário do dia, por volta das 18h, garantindo que o local estivesse vazio e os funcionários já tivessem ido embora.

Uma vez sozinho com as pacientes, o cirurgião-dentista iniciava um suposto protocolo técnico de medições faciais e corporais para transmitir falsa sensação de segurança. Sob o pretexto de analisar o tônus muscular, a flacidez ou as marcas de cicatrização de procedimentos anteriores, Najjar solicitava que as mulheres retirassem a roupa. Aproveitando-se da vulnerabilidade técnica inerente ao momento da consulta, o agressor partia para os abusos físicos e o ato sexual forçado.

A primeira vítima relatou o trauma em detalhes, relembrando que o profissional demonstrou comportamento manipulador e cínico após consumar o crime de estupro. Ela percebeu o abuso em andamento quando, sob o falso pretexto de analisar uma cicatriz na perna, o dentista desferiu tapas em suas nádegas e a imobilizou contra a mesa de atendimento. Ao sair da sala em estado de choque, a mulher confrontou o profissional sobre sua calça rasgada, recebendo em troca uma resposta debochada e uma risada irônica do agressor.

Após a fuga do consultório, a paciente dirigiu-se imediatamente a uma unidade policial para registrar a queixa e dar início aos procedimentos de perícia médica e preservação de provas. Ela ressaltou em depoimento que tinha a convicção de que sua denúncia revelaria uma conduta habitual e que outras mulheres haviam passado pelo mesmo sofrimento. “Eu tinha tanta certeza que eu não era a única. Como ele se acha no direito de fazer alguma coisa assim e achar que tá bom?”, declarou publicamente.

A advogada que representa os interesses da vítima de estupro, Flávia Souza Dantas, manifestou-se de forma contundente e incentivou o surgimento de novos relatos e denúncias na Justiça. A defensora declarou que a mobilização jurídica visa amparar todas as mulheres atingidas para que elas não se sintam isoladas em uma luta que é coletiva. O objetivo principal da acusação é garantir a manutenção da prisão preventiva e assegurar que o cirurgião responda criminalmente por todos os atos ilícitos apontados.

“Eu espero de todo o meu eu, que a justiça seja feita. E, de verdade, que se alguém usa de uma profissão para conseguir isso, que sejam realmente tomadas as medidas cabíveis para isso”, desabafou a vítima. Atualmente, o cirurgião-dentista foi formalmente indiciado pela Polícia Civil do Distrito Federal pelo crime de estupro e, caso receba novas condenações no Judiciário, poderá enfrentar penas individuais que variam de 6 a 10 anos de reclusão por infração cometida.

Por outro lado, a equipe de defesa técnica que representa Gustavo Najjar divulgou uma nota pública na qual manifesta repúdio veemente contra a condução do caso. Os advogados criticaram o vazamento de trechos e dados do inquérito policial, argumentando que os procedimentos deveriam correr sob total segredo de justiça. A nota sustenta que a divulgação de informações selecionadas por parte das autoridades busca antecipar um julgamento e gerar um sentimento de “sensacionalismo irracional” perante a opinião pública.

O comunicado dos defensores do dentista enfatizou ainda que não houve a prática de nenhum dos atos ilícitos cogitados de maneira prematura pelos investigadores policiais. A defesa optou por não comentar detalhes específicos constantes nos autos em respeito ao sigilo jurídico determinado pela legislação penal brasileira. Contudo, os advogados adiantaram que já foram reunidas provas robustas que atestam a inocência de Najjar em relação às acusações formalizadas.

Até o encerramento das apurações administrativas que resultaram na cassação pelo CRO-DF, o investigado de 38 anos permanecia detido na Divisão de Controle e Custódia de Presos da Polícia Civil, localizada em Brasília. O andamento do processo criminal seguirá nas varas especializadas do Distrito Federal, enquanto o Conselho Federal de Odontologia avalia o pedido de exclusão em definitivo do profissional de seus quadros regulamentares. As investigações sobre os novos casos continuam em andamento para verificar a existência de outras possíveis vítimas na capital federal.

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