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Livro empoeirado

Velhice desobriga fazer o que não é desejável

Publicado

Autor/Imagem:
Heliodoro Quaresma - Foto de Arquivo

Ainda bem jovem, aprendi com os sábios e poetas populares que um dia seria como um velho livro empoeirado e encostado em um canto qualquer. Antes disso, não medi esforços para que todos pudessem ler ao menos uma página de qualquer livro que não fosse um livro qualquer. Os que assimilaram a lição, aprenderam que envelhecer é a arte de colecionar histórias. Com um mínimo de inteligência e um máximo de sites, blogs e mecanismos tecnológicos, esses têm consciência de que, graças aos mais velhos, são poupados de cometer erros já superados no passado.

Traduzindo, sabíamos pouco, mas ensinamos muito. Faz alguns anos tive a certeza de que os mais velhos são mais felizes porque sempre souberam tudo. Nem faz tantos anos assim, talvez uns 50 anos, mas, das tragédias de outrora, é que surgiu a assustadora modernidade. Se hoje colocam meu corpo e minha cara no corpo de outra pessoa, é bom lembrar que já tivemos Atari. É bem verdade que a fita não funcionava nem assoprando a ponto de estourar os pulmões. Que bom que o Whatsapp substituiu a contento as terríveis fichas de orelhão. Não eram tão ruins. O mais chato é que normalmente elas acabavam no meio da ligação.

Não uso, mas me divirto quando, nos mercados, consultórios médicos e odontológicos, igrejas, velórios, casamentos e até em motéis, vejo homens, mulheres e crianças trocando seus objetivos primários por conversas e projetos secundários no Facebook, Instagram ou no X. Nada de anormal, principalmente para os que, como eu, passavam o dia ouvindo a programação musical das emissoras de rádio, esperando para gravar aquela canção dos sonhos na fita K7. Valia a pena. Triste era o maldito locutor anunciar as horas, soltar uma vinheta bem no meio da música.

Pior só quando o amaldiçoado locutor esquecia de nominar a canção. Fiquei anos sem saber quem cantava ou como chamava aquela música que eu amava. Algumas não sei até hoje. Apesar do sonho vivido com as K7, CDs e DVDs, sofro pesadelos diários tentando baixar uma playlist musical. Tudo a favor daquele tempo e nada contra os dias atuais. Como ainda não havia o Google para mim, minhas horas de folga eram usadas para “traduzir” as letras das músicas em inglês, as quais datilografava em máquinas manuais com xxxxxxx sobre eventuais erros.

Para quem sabia mal e porcamente o português, somente meses ou anos depois, lendo os folhetos da Fisk, é que descobri que estava tudo errado. Tarde demais, pois já tinha decorado errado. Se querem saber, até anteontem cantei errado. Esqueci de lembrar que a televisão de tela larga, modelo 29 polegadas e antena sobre o telhado, resolvia sair do ar exatamente no dia do último capítulo da novela das 8. Mesmo sem chuva, os chuviscos no canal preferido surgiam sob encomenda. O bom disso tudo é que ninguém morreu.

O ruim é que, esquecendo que os velhos de hoje já foram jovens e que os jovens um dia serão velhos, a sociedade moderna associa produtividade e valor quase que exclusivamente aos mais novos. Qual a razão para essa gente querer nos obrigar a ser o que não queremos e a fazer o que não nos ensinaram? Eu me abstenho. Quem nunca molhou bisnaguinhas na latinha de patê, jamais sonhou em participar do programa Porta da Esperança e vive sem correr o risco de perceber que todas as 36 fotos do aniversário ou casamento ficaram desfocadas não têm o direito de nos obrigar a ler cardápios em QR Codes, pagar no PIX a saliência nas casas de facilidades, muito menos fazer ginástica sem olhar para a ergométrica moça da bicicleta.

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Heliodoro Quaresma, jornalista aposentado, mantém uma velha Remington como relíquia em sua estante e escreve textos pontuais para Notibras

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