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Ǫue fim levou meu amigo Liverpool? (Parte 1)

Uma cena insólita

Publicado

Autor/Imagem:
Plínio Pavão - Foto Francisco Filipino

Certo dia, início da década de 1990, dirigia meu carro pelo bairro da Capital paulista onde morava quando, passando por uma rua esquecida pelo poder público, observei as pessoas em situação de rua que se misturavam ao lixo acumulado, despejado por moradores e empresas da região.

Restos de madeira e outros materiais queimados para aquecer os precários personagens daquela tragédia urbana, era inverno, vasilhas de isopor espalhadas com resíduos de comida doada por alguma alma caridosa ou uma ONG beneficente, farrapos e móveis velhos amontoados, cachorros e gatos vira-latas adotados coletivamente pela pequena comunidade de não mais de uns quinze integrantes, alguns deles consumindo em cachimbos artesanais uma droga recém-chegada ao Brasil e rapidamente disseminada entre populações vulneráveis em razão de seu baixo custo: o crack.

Costumava usar aquela passagem, embora não fosse obrigatória, com certa frequência, para evitar o congestionamento da avenida principal quando ia fazer compras em um supermercado nas proximidades. O que me chamou a atenção, no entanto, não foi a condição miserável ou o consumo do entorpecente altamente nocivo por homens e mulheres, alguns muito jovens, pois a condição subumana daquelas pessoas já estava totalmente banalizada.

Na verdade, o que despertou meu interesse foi algo bastante incomum; próximo a um muro, um senhor aparentando uns sessenta anos, mas certamente mais novo, pois parte de seu envelhecimento provavelmente se desse como consequência da aspereza da vida, com tesoura e pente nas mãos, cortava com habilidade os cabelos de um outro homem bem mais jovem sentado em uma cadeira velha descartada por alguém naquele monturo.

Imediatamente parei meu veículo e saltei para observar mais de perto e registrar o momento com minha Canon recém adquirida para melhor praticar meu hobby, o de fotografar paisagens urbanas e cenas raras pela cidade, revelá-las eu mesmo em meu laboratório improvisado no banheiro de empregada de meu apartamento, e colecioná-las; e, ao captar a imagem com o zoom do meu equipamento, notei familiaridade nas feições do cabelereiro e surpreso pensei:

— Conheço esse sujeito!

Não demorou muito para me vir à cabeça de quem se tratava. E, ao constatar, meu espanto foi ainda maior:

— Meu velho amigo!

Sim, era ele. Fiquei observando atônito enquanto o cabelereiro concluía o trabalho. Ao terminar, o rapaz lhe entregou algumas moedas em pagamento. Me aproximei e o chamei pelo apelido como era conhecido pelo pessoal nos velhos tempos:

— Liverpool?

Ele, bem confuso, olhou sem me reconhecer e respondeu:

— Sim! Mas quem é você? Há muito não me chamavam assim!

— O Roger, — como o grupo também me apelidou, pela semelhança de meus cabelos cacheados e louros, antes de os ter cortado, — exigência do banco, ao me empregar —, com os de Roger Daltrey, frontman da banda The Who. — Não se lembra? Fui seu cliente no salão “Corte Chique” há uns vinte anos atrás.

Michel, seu nome verdadeiro, parecia se esforçar para lembrar, mas talvez por seu estado bastante debilitado, inclusive aparentando estar embriagado, não conseguia. É possivel até, imaginei, com dificuldade de se recordar nitidamente de seu próprio passado.

De todo modo, não desisti de conversar com ele, tentando ajudá-lo a rememorar. Perguntei se havia algo que pudesse fazer por ele e lhe ofereci uns trocados. Aceitou o dinheiro, mas afirmou não precisar de mais nada, agradeceu e me confessou com uma sinceridade quase infantil:

— Fome e muito frio, a gente não passa aqui. Tem muita gente boa trazendo comida e agasalho. Se chove, a gente se abriga sob aquela marquise. E assim, segue a vida. Mas esse dinheirinho vai me garantir a cachaça e umas “pedras” pelo resto da semana.

Continuamos conversando e aos poucos foi se sentindo mais à vontade e com o raciocínio mais claro, não sei se me reconheceu, mas se recordava de quando trabalhou no salão e de me atender àquela época. Me falou que “morava” no local há alguns meses, sem se lembrar direito quantos. Mas antes já havia perambulado bastante pela cidade.

— O pessoal aqui é bem legal! Todo mundo se ajuda! Diferente de outros lugares onde já estive, alguns até convivendo com gente da pesada.

Ele cortava cabelos e barbas, a troco de pouco dinheiro, para ajudar a manter a autoestima dos amigos, mas também para defender algum e conseguir sustentar seus vícios, sua única despesa e, ao mesmo tempo, sua única alegria.

— Sabe como é, a gente pede esmola nas esquinas, mas algumas vezes não consegue o suficiente, nessas horas é preciso ter algum guardado para não passar aperto.

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Leia a segunda parte do conto Ǫue fim levou meu amigo Liverpool? nesta terça (01/09).

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