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Ǫue fim levou meu amigo Liverpool? (Parte 2)

As atividades suspeitas do patrão

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Autor/Imagem:
Plínio Pavão - Foto Francisco Filipino

O salão a que me referi era propriedade de um cara bem estranho, conhecido como Rubão. Corria à boca pequena que em outros círculos de relacionamento era conhecido por “Rubão da Banca”. Mas no ambiente do salão, que visitava uma ou no máximo duas vezes por semana, pois quem gerenciava o estabelecimento era o Gerson, funcionário da sua mais alta confiança, ninguém ousava mencionar essas e outras conexões.

Rubão era pardo, alto e forte, com seu 1,90 m, ou mais, de altura e “bombado”. Vi-o poucas vezes. Dirigia uma Ferrari 365 GTC4, estacionava em frente à loja, local proibido, sempre trajando jeans e camisa florida tipo havaiana, desabotoada com o peitoral à mostra, ornado por grossas correntes de ouro e prata; brincos de argola, anéis e pulseiras, cabeça raspada, óculos de sol, mesmo com tempo nublado ou à noite, tatuagens nos braços e chinelos de couro.

Apesar desse visual rude, tinha hábitos gentis, especialmente com os clientes, entrava rapidamente, mas sempre cumprimentando a todos e se dirigia ao escritório, onde se encontrava com Gerson; e logo ia embora. Carregava uma mochila que vinha repleta, não se sabe do que, e voltava vazia.

Liverpool tinha esse apelido não só pela aparência, com cabelos longos e barba crescida. Também usava brincos e se vestia com calça jeans, quase branca de tão desbotada e camiseta de qualquer grupo musical americano ou inglês, sobre ela uma jaqueta decorada com broches de bandas, bandeiras do USA e UK, como dizia, símbolo da paz, Che Guevara, imagens alusivas ao Rock ’n’ Roll, contra a guerra do Vietnã e outros temas alternativos.

Sabia tudo sobre os grupos e músicos do rock, principalmente britânicos e estadunidenses. Falava inglês, aprendera sozinho lendo revistas estrangeiras e traduzindo as letras dos encartes de seus LPs com o auxílio de um dicionário e prestando atenção ao sotaque dos vocalistas das músicas ouvidas centenas de vezes.

Era um excelente profissional e, pelo que vi, mesmo na lastimável condição em que o reencontrei, aparentemente mantinha seus dons. Com o tempo, fomos nos tornando mais próximos, pois eu também era, e continuo sendo, fã do mesmo estilo musical.

Ele, mais velho e mais experiente, me apresentou vários novos nomes pouco difundidos pelas rádios. Tinha uma grande coleção de vinis, por volta de uns 2 mil e quinhentos itens, a qual pude conhecer e cuja compra era o destino de quase toda sua boa renda mensal. A sobra era suficiente para pagar o aluguel, as despesas com água, luz, alimentação e raramente uma nova peça de roupa. Não tinha gasto com condução, pois sua residência era na mesma rua do trabalho, para onde ia e retornava a pé.

The Stooges, Alman Brothers, Humble Pie, Velvet Underground, UFO, ZZ Top, Mountain, MC-5, Mothers of Invention, Canned Heat, King Crimson, Uriah Heep, foram alguns dos nomes que conheci ouvindo suas “joias” e pude me aprofundar na obra de outros mais conhecidos.

Assim como eu, outros jovens frequentadores do salão também desenvolveram a mesma proximidade com ele, passamos a formar um pequeno grupo e nos encontrávamos em sua casa para ouvir os sons e os ensinamentos do nosso guia. Tivemos, também, a oportunidade de curtir juntos alguns poucos shows de artistas internacionais cujas turnês começavam a incluir, timidamente, passagens pelo Brasil, como foi o caso de Alice Cooper, no Anhembi, em 1974 e Rick Wakeman, no ginásio da Portuguesa, no ano seguinte.

No grupo todos tinham “codinomes” de roqueiros. Lembro-me de Ian Gilan, vocalista de uma banda e dono de uma linda voz. Imitava quase perfeitamente os agudos de seu xará famoso do Deep Purple em Child in Time. John Bonhan, não por tocar bateria, mas porque adorava arrumar uma confusão, Jim Morrison, um que só fazia loucuras era chamado de Ozzi e tinha até um Mick Jagger.

Bem, mas de volta à saga do meu amigo, desde aqueles tempos românticos até o dia do nosso reencontro, suas revelações estarrecedoras confirmaram as suspeitas, não somente minhas, como as de muitos dos clientes assíduos do salão, Rubão, de fato possuía ligações sociais e profissionais, digamos, bem heterodoxas.

Para além do envolvimento com o jogo do bicho, como denunciava sua alcunha, era membro, possivelmente chefe, de uma quadrilha de tráfico de drogas. E as visitas furtivas ao salão, testemunhadas por alguns de nós, tinham como objetivo a entrega de “encomendas” para outro tipo de clientela da loja, se me entendem (?). Ou seja, o local, servia, não só para cuidar da aparência e da vaidade dos frequentadores, como de ponto de distribuição das mercadorias clandestinas e, ao mesmo tempo, de lavanderia para parte das rendas ilegais obtidas com as atividades “paralelas”.

É certo que o negócio tinha um grande movimento e devia ter uma excelente receita para o tipo de atividade a qual oficialmente se destinava, cortar cabelos e barbas, mas estava muito longe de justificar toda a ostentação praticada por seu proprietário. Comentava-se, inclusive, que Rubão morava em um condomínio luxuosíssimo no bairro do Morumbi, fora as viagens internacionais que, segundo consta, costumava fazer mais de uma vez por ano; possuía muitas joias, relógios de marcas famosas e toda espécie de roupas de grife, entre outras extravagâncias.

Bem, evidentemente os funcionários acabavam tendo contato com o tipo de produto que circulava pelo ambiente e se tornavam, ou talvez já o fossem antes de trabalhar no local, usuários das ditas substâncias. Liverpool não era exceção.

As circunstâncias propiciavam a intensificação do uso e, embora a remuneração dos empregados fosse bem razoável, o vício crescente acabou por comprometer seriamente a vida financeira de vários deles. Assim como alguns de seus colegas, Michel logo passou a dever muito dinheiro ao patrão. Depois de algum tempo os débitos se tornaram impagáveis.

A situação foi ficando a tal ponto insustentável que não conseguia mais se manter. Às vezes não tinha dinheiro nem para se alimentar, confessou. Porém, isso ainda não era o pior, pois a partir de certo momento, com as dívidas crescentes, conheceu a faceta mais fria e cruel de Rubão que passou a cobrar aos devedores de forma implacável e com juros de agiota, embora essa não fosse uma das atividades “profissionais” do sujeito, chegando até a ameaçá-los de morte.

A única saída, seria desaparecer, pois a tendência era as coisas apenas piorarem. Mas como? Se seus recursos haviam se extinguido? Gastara seu último centavo para adquirir um pouco mais da substância da qual se sentia escravo, e além de dever ao patrão quase dois salários, precisava se humilhar implorando por mais alguns gramas fiado.

Havia uma alternativa, vender seu único bem valioso: a coleção de vinis. Mas relutava. Para ele o valor afetivo daqueles objetos era infinitamente maior do que qualquer quantia a obter com a venda deles. Mas chegou à conclusão de que precisava mesmo se desfazer de seu “tesouro”, era literalmente questão de sobrevivência. Por outro lado, para qualquer lugar aonde fosse, não teria condições de levá-lo consigo. Foi uma difícil, mas acertada decisão.

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Leia a terceira parte do conto Ǫue fim levou meu amigo Liverpool? nesta quarta (02/09).

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