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Arte e Alegria

Os parceiros da viagem

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Autor/Imagem:
Gilberto Motta - Texto e Fotos

Vaga-lumes de uma rua qualquer. A rua era conhecida como Coroados. A cidade, Tupã, pequena cidade – não mais que 26 mil habitantes nos anos 60 -, na rota velha dos bandeirantes que cravaram a bandeira paulista no sertão de São Paulo.

Aldeias kaingang foram arrasadas. Matas derrubadas em nome de um progresso positivista que a tudo justificava. Era preciso expandir o Brasil. E assim se fez. No rastro da ferrovia noroeste, a expansão paulista não deixou pedra sobre pedra, mata sobre mata, gente sobre gente. Mas as histórias ficaram. E permanecem.

E foi ali, naquela cidade, que um dia a minha história teria de começar.

Depois de anos perambulando, entre os anos 1950 e 60, pelo interior paulista com um circo mambembe, meus pais decidiram parar de vez em uma cidade: Tupã.

Aqui começa a narrativa de minhas histórias lúdicas às quais denominei “Céu de Vaga-lumes”. Na verdade, as histórias de Mário (Motinha) e Nair (Nhá Fia, começam muito antes, no final dos anos 1920: ela em Paraguaçu Paulista, na região oeste, e ele em Cruzeiro, Vale do Paraíba, interiorzão paulista, êta sô!

*Capítulo 1 (livro de Gilberto Motta: “Céu de Vaga-lumes e o Circo Imaginário: andanças e lembranças de Motinha e Nhá Fia” (e-book Amazon).

CÉU DE VAGA-LUMES

Talvez tenha sido aquela a última vez que o pai nos falou da plataforma e do trem. Em todo caso, a história nos acompanharia pela vida toda.

Teimou em contá-la na reta final quando, em cadeira de rodas, seguiu para a sessão de quimioterapia que lhe daria forças para a viagem decisiva.

Tempos depois, encontramos entre os guardados dele umas anotações do tipo: breves notas para aqueles que ainda esperam na plataforma o seu definitivo trem. Estava lá.

O caderno era de 1945. A foto do pai, ainda novo, sentado sobre a caixa do violão trajado com boina, colete, paletó e gravata. O local não deixa dúvidas: coreto central do Parque do Jardim da Luz, ao lado da estação de trens que é o portão de entrada da capital de São Paulo para quem chega do interior.

Em uma das notas de final de página, a referência sobre aquela história de chegadas e partidas:

“Deixei minha terra, querida serra da Mantiqueira, onde a rola canta quando o sol levanta naquela fronteira, deixei o regato que desce do mato lavando as pedreiras, lá ficou meu berço, meu pobre ranchinho, à beira do caminho, perto das mangueiras…e hoje aqui distante, lembro a todo instante, meu querido lar; vejo que a saudade veio pra cidade, lá não quis ficar…eu vivo penando mas eu vou cantando só pra disfarçar; e eu tenho fé que, se Deus quiser, eu hei de voltar.”

“Motinha e Nhá Fia, Circo Teatro, anos 1960 – SP”

Noutros dias, o pai nos falaria da importância e da força da metáfora que transformaria as nossas vidas:

“Eu era jovem, muito jovem e queria sair da fazenda aos pés da serra da Mantiqueira, ganhar a cidade de São Paulo, ser artista de rádio e construir minha família; sabe filhos, é como se eu soubesse tudo o que viria a acontecer… como se uma força estranha e iluminada me possibilitasse a honra e o dom de poder assinar os versinhos pés-quebrados que faria sempre em homenagem à parceira e aos filhos que um dia teria, entre a primeira plataforma, o primeiro trem e a plataforma da viagem decisiva.”

Nos papéis de circunstâncias do pai, para nós está eternizada a assinatura que lhe garantiria o sentido de pertencimento, de identidade:

Nome: Mário/Motinha.

Profissão: Artista de Rádio e Circense

Década de 1940, o mundo em guerra. A mulher, ainda adolescente, teria de passar à limpo a sua vida de professorinha de cidade do interior. Falada e mal vista, devido ao fim do casamento -que não durou uma semana- com o João da Farmácia, o melhor partido da cidade de Paraguaçú Paulista, interior do Estado de São Paulo.

Levando ao lado a pequena mala de papelão e no peito a esperança digna dos jovens atrevidos que se jogam na vida, repassou a sua história até ali à espera do trem. Ela pode sentir todo o peso de uma época de rancores, machismos, intrigas paroquianas e preconceitos contra a mulher. Finalmente, o trem passou para salvá-la. O desafio estava lançado: ser cantora de rádio na cidade de São Paulo, fazendo dupla com o primo Nhô Pai.

Décadas depois, encontramos entre seus documentos, envoltos por um plástico e amarrados com um elástico amarelo, sua Carteira de Trabalho. Nela, o seu primeiro contrato de trabalho já assinado com o pseudônimo que a acompanharia -ao lado de nosso pai- até o adeus sem rancor:

Nome: Nair/Nhá Fia.

Profissão: Artista de Rádio e Circense.

O ESPELHO DA MEMÓRIA

Entre a primeira plataforma, o primeiro trem e os episódios finais da viagem decisiva de Motinha e Nhá Fia, há encontros e desencontros, chegadas e partidas. A fazenda aos pés da serra da Mantiqueira, no Vale do Paraíba, em São Paulo; a professorinha do interior, a rádio Bandeirantes, o circo, o hotel, a boléia da ambulância no Hospital Beneficiência Portuguesa, em Santo André, a vidraçaria na Baixada Santista e o eterno retorno com as apresentações da dupla no Programa O Homem e o Campo, na TV Planalto de Lages, já em Santa Catarina, no início da década de 1980; a partida prematura do pai em 1983 e, dez anos após, o adeus de nossa mãe.

Escrever sobre essas e tantas outras histórias tornou-se para mim quase que um encontro marcado, um desafio de novos olhares e percepções que vai do mais profundo sentimento de estranheza e deslocamento no atual contexto-mundo – como se eu vivesse em um não-lugar -, até ao estado de infinita sublevação, carinho, prazer e gratidão. Afinal, eles nos aceitaram como parceiros de uma existência.

Hoje, entendo que todo começo é involuntário mas a trajetória, o percurso, a terceira margem do rio, como tão bem pensou Guimarães Rosa, é o território onde a vida realmente faz sentido; uma incrível viagem que para sempre será decisiva, sob um céu de vaga-lumes.

“Respeitável público, com vocês, os parceiros da alegria:

Motinha e Nhá Fia!!!”.

………………………….

Gilberto Motta é escritor, jornalista, professor/pesquisador. Essa crônica abre o livro “Céu de Vaga-lumes e o Circo Imaginário: andanças e lembranças de Motinha e Nhá Fia” (e-book Amazon). Vive na Guarda do Embaú-SC.

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