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Sem juiz nomeado

O tribunal permanente das redes sociais

Publicado

Autor/Imagem:
Emanuelle Nascimento - Foto Francisco Filipino

Vivemos diante de um tribunal que não fecha.

Não tem expediente.

Não tem feriado.

Não tem recesso.

E, curiosamente, quase ninguém foi oficialmente nomeado juiz.

As redes sociais transformaram cada cidadão em comentarista, fiscal, perito, terapeuta e especialista em comportamento humano.

Uma pessoa publica uma fotografia.

Começa o julgamento.

“Está feliz demais.”

“Está querendo aparecer.”

“Está triste.”

“Está fingindo.”

“Está rica.”

“Está endividada.”

“Está apaixonada.”

“Está tentando superar.”

É impressionante o alcance da hermenêutica digital.

Uma fotografia de três segundos pode produzir uma análise psicológica de quinze parágrafos.

Goffman talvez chamasse atenção para a dimensão performática dessa existência pública. Afinal, toda apresentação de si envolve escolhas: o que mostrar, o que esconder, qual cenário utilizar, qual impressão produzir.

Mas existe um detalhe que esquecemos: observar a fachada de alguém não significa conhecer os bastidores.

O problema é que a sociedade digital aboliu parcialmente essa distinção.

A imagem virou prova.

E a interpretação virou verdade.

Foucault teria material suficiente para alguns volumes ao observar a quantidade de pessoas que vigiam umas às outras sem que ninguém precise pedir.

Quem curtiu.

Quem deixou de curtir.

Quem visualizou.

Quem não respondeu.

Quem publicou.

Quem apagou.

Quem apareceu com quem.

O panóptico ganhou conexão de fibra óptica.

E nós participamos voluntariamente.

O mais curioso é que muitas vezes denunciamos a vigilância enquanto praticamos vigilância.

Queremos privacidade para nós e informações sobre os outros.

Queremos liberdade para publicar e liberdade para interpretar.

Queremos não ser julgados, mas temos opiniões muito precisas sobre a vida alheia.

A contradição é quase uma especialidade humana.

Talvez o exercício mais sofisticado de liberdade hoje seja não transformar toda informação em julgamento.

Nem tudo que vemos precisa ser interpretado.

Nem toda publicação precisa de diagnóstico.

Nem toda vida precisa de parecer.

Às vezes uma foto é só uma foto.

Uma viagem é só uma viagem.

Um café é só um café.

E uma pessoa sorrindo pode simplesmente estar sorrindo.

A vida real, felizmente, continua muito mais complexa do que o algoritmo consegue imaginar.

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