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Panorama Político, por João Zisman

Segundos perdidos por Paula Belmonte podem provocar dor de cabeça

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Autor/Imagem:
João Zisman - Foto de Arquivo

Paula Belmonte tinha 27 segundos para se apresentar ao eleitor no primeiro programa da campanha para o Governo do Distrito Federal. Não precisava administrar o orçamento de Brasília, enfrentar uma crise na saúde ou organizar o transporte público. Naquela noite, a missão era consideravelmente mais modesta: colocar 27 segundos de propaganda no ar. Mas nem isso aconteceu.

A versão publicada pela Record aponta que o material não foi entregue a tempo. A campanha fala em “intercorrência técnica” e procurou as emissoras para descobrir o que impediu a exibição. É prudente esperar que essa diferença seja esclarecida antes de distribuir responsabilidades, mas a discussão política não precisa esperar tanto.

Independentemente de onde tenha ocorrido a pane, uma campanha majoritária não deveria descobrir que seu programa não foi ao ar depois que o espaço reservado à candidata já passou pela televisão. Existe uma cadeia elementar de produção, envio, protocolo, conferência e acompanhamento que precisa funcionar justamente para impedir que uma intercorrência técnica se transforme em ausência política.

E existe uma ironia adicional. Paula não perdeu cinco minutos de televisão. Perdeu 27 segundos.
Quanto menor o espaço disponível, maior deveria ser o cuidado com ele. Celina Leão pode administrar mais de cinco minutos por bloco; Leandro Grass dispõe de quase dois. Paula precisa construir sua candidatura eleitoralmente televisionada em menos de meio minuto. Desperdiçar a primeira oportunidade nessas circunstâncias é quase um luxo que sua posição na disputa não permite.

Talvez ainda exista nas campanhas a impressão de que televisão aberta virou uma espécie de parente idoso das redes sociais, importante, mas dispensável. É uma leitura perigosa. O programa eleitoral continua chegando a uma parcela enorme da população que não passa o dia acompanhando Instagram, TikTok, podcasts e grupos políticos. Além disso, a televisão hoje é também uma fábrica de conteúdo digital: aquilo que vai ao ar pode ser cortado, legendado, impulsionado, enviado pelo WhatsApp e reapresentado dezenas de vezes nas redes.

Os 27 segundos, portanto, poderiam durar muito mais do que 27 segundos. Como não foram exibidos, não produziram absolutamente nada.

É verdade que tropeços acontecem e nenhum candidato deve ser condenado eleitoralmente porque perdeu um programa. Paula pode aparecer normalmente na próxima exibição e o episódio rapidamente desaparecer do noticiário. O que não deveria desaparecer é o alerta que ele oferece à própria campanha.

Candidaturas também são avaliadas pela maneira como funcionam. Organização, comando, antecipação de problemas e capacidade de execução não aparecem apenas no plano de governo; começam na estrutura que pretende convencer milhões de pessoas de que sabe o que fazer com uma máquina infinitamente mais complexa.

Paula perdeu a estreia, mas ganhou gratuitamente uma oportunidade para revisar a própria engrenagem. Porque, se 27 segundos já escaparam pelo caminho, talvez seja uma boa hora para descobrir onde está o buraco antes que a campanha fique maior.

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