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Mari, uma vitoriosa

Rafilds, o hot-dog de 15 anos sempre fresquinho

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Autor/Imagem:
José Seabra - Foto Acervo Pessoal

Conversa de boteco, principalmente quando regada a dominó e violão, permite-nos socializar mais, conhecer gente nova e ouvir histórias que não cabem dentro de um pão. Também não cabem a saudade de um marido que partiu cedo demais, muito menos o medo de uma mulher que, de repente, se vê obrigada a seguir sozinha. Desse pão, ficam de fora as lágrimas escondidas depois do expediente, quando as luzes se apagam e o silêncio ocupa o lugar dos fregueses.

Cabe, sim, o relato de 15 anos de luta. É a vida de Mari Melo, que parece ter encontrado um jeito de colocar tudo isso atrás de um balcão de cachorro-quente. O cenário é Águas Claras, região de classe média alta de Brasília. Ali, quem chega ao Dog do Rafilds, entre as ruas 21 e 20 Norte, talvez esteja apenas procurando alguma coisa gostosa para comer no começo da noite e encontra molho natural de tomates, pasta de alho, purê de batata, cachorro-quente tradicional ou de frango desfiado.

O freguês pode até não saber, mas há outro ingrediente misturado à receita. É uma história inteira de amor, iniciada em 2011, quando Mari e o marido foram dispensados das empresas onde trabalhavam. O desemprego costuma chegar carregando incertezas junto com as contas que continuam vencendo e a geladeira que precisa continuar abastecida, porque a vida não concede licença remunerada para quem perdeu o salário.

O marido que olhou para aquela dificuldade e enxergou uma possibilidade. “Vamos vender cachorro-quente”, recorda Mari. A ideia saiu rapidamente do terreno dos sonhos. Ele foi atrás das coisas, mandou fazer o carrinho, comprou o necessário e começou a desenvolver as receitas. Surgiram o molho natural preparado com tomates e a pasta de alho que se tornaria uma das marcas da casa.

No dia 8 de junho de 2011, nascia, assim, o Dog do Rafilds. Não havia grandes investidores ou plano mirabolante de expansão. Havia um casal, um carrinho e a disposição para trabalhar. E isso bastava. Porém, a vida resolveu mudar brutalmente o roteiro.

Em 2013, apenas dois anos depois do início daquela aventura, o marido de Mari morreu em um trágico acidente de carro. Gustavo, o filho do casal, tinha então 7 anos. Foi quando Mari descobriu que diante de perdas, qualquer palavra parece pequena. Para uma mulher, perder o companheiro já seria uma dor imensa. Para uma mãe, havia ainda a obrigação de olhar para um menino de 7 anos e encontrar forças para continuar, mesmo quando, provavelmente, tudo o que desejava era poder parar por algum tempo.

Mas como as contas não param de chegar, a fome não espera e filho precisa crescer, Mari chorou o que precisava chorar, guardou a saudade onde somente ela sabe, arregaçou as mangas e entrou na parada. Assumiu, assim, o Dog do Rafilds, e passou a conduzir sozinha aquele sonho que havia começado a dois. Talvez tenha sido nesse momento que o pequeno carrinho deixou de vender apenas cachorro-quente, para comprar sobrevivência.

Cada noite trabalhada significava mais um dia vencido. Cada cliente que voltava era uma pequena confirmação de que valia a pena continuar. Cada cachorro-quente preparado ajudava a manter a casa, criar Gustavo e preservar, de alguma maneira, aquilo que o marido havia iniciado.

Os anos correram e o menino cresceu. Aos 13 anos, Gustavo começou a ajudar a mãe no negócio. Aquele garoto que perdera o pai aos 7 agora ocupava seu espaço ao lado de Mari. Não para substituir quem jamais poderia ser substituído, mas para dividir o peso de uma caminhada que, durante muito tempo, repousara praticamente inteira sobre os ombros dela.

Mãe e filho passaram a compartilhar noites, fregueses, pedidos, molhos, pães e responsabilidades. Transportando essa imagem para a mente, descobre-se algo bonito, como o pai que idealizou o carrinho, a mãe impedindo que o sonho morresse, e o filho que, quando teve idade suficiente, aproximou-se para ajudar a empurrá-lo.

A vida, por si só, foi completando o círculo. Hoje, Gustavo já está na casa dos 20 anos, e entendeu, como todo jovem, ser chegada a hora de procurar seus próprios caminhos. Foi em busca de novos rumos, de seus projetos e de sua independência. Mas não abandonou Mari. Ele segue dando à mãe o respaldo necessário, mesmo enquanto constrói a própria estrada. Talvez porque saiba melhor do que ninguém quanto esforço existe por trás daquele carrinho, ou simplesmente porque tenha crescido vendo uma mulher transformar dor em trabalho e ausência em coragem.

E Mari continua lá. O cardápio cresceu. Além do cachorro-quente tradicional, veio o de frango desfiado. Há pastas de cebola e pimenta, purê de batata, o molho natural de tomates e a deliciosa pasta de alho que acompanha a história desde os primeiros tempos. Algumas coisas, contudo, não mudaram. Uma delas é a dedicação; outra é a memória.

De segunda a sexta-feira, das 18h às 22h, Mari segue atendendo sua clientela entre as ruas 21 e 20 Norte de Águas Claras. São 15 anos de Dog do Rafilds; quinze anos parecem apenas uma data redonda quando escritos no calendário. Entretanto, para Mari, representam milhares de noites de trabalho, um marido perdido cedo demais, um menino de 7 anos que precisou crescer sem o pai, um adolescente de 13 que passou a ajudar a mãe, e um jovem que agora segue seu caminho sem esquecer de olhar para trás e estender a mão para aquela que jamais deixou a peteca cair.

É por isso que chamar Mari Melo apenas de vendedora de cachorro-quente seria pouco. Ela é empreendedora, cozinheira, comerciante, mãe, trabalhadora e sobretudo, é resistente. Mari pertence àquela legião silenciosa de mulheres brasileiras que não aparecem tocando o sino da Bolsa de Valores, não discursam em congressos de empreendedorismo e provavelmente nunca serão capa de revistas de negócios, mas sabem como ninguém o verdadeiro significado da palavra empreender.

É abrir quando seria mais fácil fechar, levantar quando a vida manda cair, enxugar as lágrimas antes de atender o próximo freguês, criar um filho enquanto se mantém um negócio funcionando e transformar um carrinho de cachorro-quente em sustento, memória e futuro.

Talvez seja por isso que o Dog do Rafilds continue de pé. O tomate pode explicar o sabor do molho, o alho explica o sucesso da pasta e o purê ajuda a completar o cachorro-quente. Mas nenhum desses ingredientes explica 15 anos de história. Para isso existe outra receita temperada com um pouco de esperança, uma quantidade enorme de trabalho, o amor de uma mãe por seu filho e a lembrança de um homem que acreditou numa ideia quando o emprego desapareceu.

Como se diz lá no boteco, também é preciso ter coragem à vontade. E isso Mari Melo nunca economizou.

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José Seabra é CEO fundador de Notibras

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