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Sol abusado

Um vinho às sete da manhã

Publicado

Autor/Imagem:
Mércia Souza - Foto Francisco Filipino

O sol rompia a manhã abusado: coloria o céu, esquentava o dia e trazia consigo a alegria e a energia presentes.

Eu aprendi a desfrutar de algumas dessas manhãs com uma garrafa de vinho, o som do mar e o silêncio da minha mente. Impedida de fazer minhas longas caminhadas devido a um problema de saúde, não me dei por vencida. Caminhei até onde aguentei, fui até o barzinho e pedi ao garçom para abrir meu vinho — já que eu havia esquecido o abridor — e me sentei à sombra de uma árvore.

Aos poucos as pessoas começavam a chegar. A manhã convidativa e o mar limpo encantavam. Um pequeno grupo empolgado se aproximou, escolheu uma mesa próxima ao local onde eu estava e se sentou. Uma mulher de uns cinquenta anos me lançou um olhar de julgamento. Apenas observei. A colega dela se sentou e ela falou algo em tom baixo; embora eu não tenha entendido a frase por completo, entendi o julgamento. Um julgamento antigo, reservado às mulheres que calculatedly ocupavam os espaços com prazer e sem culpa: uma mulher bebendo às sete horas da manhã. Há quinze anos, sob o peso dessa convenção, talvez eu tivesse me sentido envergonhada. Ri comigo mesma, me virei para o mar e apreciei minha taça.

Um homem branco, alto e sorridente chegou à mesa. Eu o observei por um instante e vi que ele estava chamando a atenção da mulher. Não entendi o motivo, mas percebi que ele era psicólogo e os dois eram amigos. Me distrai, entretida com o mar, o sol e o vinho.

Alguns minutos se passaram e uma discussão se iniciou na beira da água. Quatro pessoas com água na altura do joelho — entre elas, a mulher e o homem. Ele, paciente, enquanto ela gritava. Ao que tudo indicava, ela tomou um caldo em uma maré baixíssima e culpava os dois homens por tê-la convencido a entrar no mar.

Todos voltaram à mesa. Os outros três em silêncio; ela continuava a reclamar do cabelo molhado, de ter bebido água, da água fria, de ter se sentado em uma cadeira no sol. Todos na mesa tentavam convencê-la de que ela estava exagerando. O homem tentou usar seu conhecimento em psicologia e quase iniciou um tratamento ao ar livre. Após tentar explicar a ela que precisava de acompanhamento para aprender a relaxar e a viver a vida, ele desistiu quando ela rebateu:

— Eu entendo tudo de psicologia, sei muito bem o que tenho que fazer e não concordo com psicólogos.

Eu, que prestava atenção com o ouvido, mas mantinha meus olhos no mar, me virei rapidamente, olhei para ela e nem vou dizer o que pensei. O homem a encarou e silenciou; a mesa silenciou. Ela continuou a reclamar, ninguém respondia mais nada. O constrangimento tomou conta da mesa, transformando a manhã aconchegante em frieza.

O garçom se aproximou da mesa trazendo o cardápio e um suco. Colocou na frente da reclamona, que tomou um gole e disse:

— Esse suco não está bom, está quente e muito doce.

O garçom sorriu:

— Acho que não vou conseguir atender ao seu gosto.

Enquanto o garçom caminhava de volta, ela tomou outro gole e disse:

— Isso está ralo, vou tomar essa porcaria porque preciso cuidar da minha saúde e tomar meu remédio.

Nesse instante, o psicólogo e a mulher que chegou com ela se irritaram e responderam quase em coro, apontando para mim:

— Pois é, faça igual a ela: se embriague às sete da manhã! Talvez seja alcoólatra, mas está feliz.

Olhei fixamente para os dois, que ficaram sem graça. O garçom parou, se virou para mim, sacudiu a cabeça e riu. Eu ri encarando o mar.

“Oxi, sobrou até para mim”, resmunguei.

No dia seguinte, cheguei cedo ao barzinho, sem vinho. O garçom se aproximou com uma garrafa de vinho e um bilhete:

“Nos desculpe por ontem. Nossa amiga é reclamona, ninguém pensou que você fosse alcoólatra. No fundo, ficamos com inveja da sua tranquilidade.”

Guardei aquela garrafa por um bom tempo para me lembrar do quanto a falta de paz afeta as pessoas à nossa volta.

…………………

Mércia Souza é escritora, colunista de jornais e revistas, e artesã crocheteira. Autora de três livros publicados — transitando entre o romance e as crônicas —, expressa sua visão de mundo tanto através das palavras quanto das linhas. Feminista, mãe e avó, reside atualmente em Cachoeiro de Itapemirim (ES), onde divide seu tempo entre a literatura, o artesanato e o amor pelas montanhas e pelo mar.

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