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Misoginia

 Posso mudar sim

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Autor/Imagem:
Mércia Souza - Foto Francisco Filipino

Sou a última a chegar ao café. Cumprimento a todos, sento-me e a conversa continua. — Não vou mudar — diz Daniel. Não sei qual era o assunto e, pela primeira vez, não me parece necessário ouvir todo o contexto para opinar. Ele me diz: — Você acha que, como ser humano, é capaz de mudar quem você é? — Claro, não sou uma árvore. Posso mudar o tempo todo e até mesmo as árvores mudam. O garçom se aproxima. O cheiro de café passado e de bolo fresco é inebriante, retirando-nos da discussão e trazendo paz e aconchego à mesa. O clima pesado se dissipa e a conversa se encerra sem que eu saiba do que se tratava.

Mais tarde, a caminho de casa, penso em quantas vezes já ouvi essa frase. Esse pensamento me leva de volta a uma conversa com meu pai. Enquanto eu tomava o café da manhã, ele me contava histórias do passado e, por um momento, fez a seguinte reflexão: — As pessoas inteligentes têm muito conhecimento, não é, minha filha? Paro por um instante e, pensando nos homens e mulheres que marcaram a minha vida, discordo: — Na verdade, não, pai. Tem pessoas com muito conhecimento e pouca inteligência, e pessoas sem conhecimento e com muita inteligência. A inteligência vem da sabedoria. (A nossa conversa sobre conhecimento se referia a pessoas que estudaram muito). Nossa conversa foi interrompida por um vizinho.

Alguns dias depois do episódio no café, essa reflexão sobre sabedoria e conhecimento retorna como algo suspenso no ar. Falávamos sobre os debates a respeito de misoginia, machismo, Lei Maria da Penha e racismo, quando meu pai me contou a seguinte história: — É, meu pai não tinha estudo, era ignorante nessa parte, mas tinha o jeito dele de resolver as coisas. Mesmo naquela época, em que não se falava sobre racismo e misoginia, ele nos ensinava como deveríamos nos dirigir às pessoas pretas; nunca permitiu uma piada sobre cor. Não sei como ele aprendeu sobre isso em uma época em que a palavra racismo nem existia, nem essa outra palavra aí… miso… — Misoginia — respondo. — Isso. Isso me lembrou de um episódio: minha irmã mais velha se casou, o marido era bem complicado, agressivo, e um tempo depois ele apareceu lá em casa para devolvê-la. Disse que ela o havia traído e, por isso, a estava trazendo de volta. Naquela época, ela ficaria mal falada e, para piorar, estava grávida de oito meses. Meu pai ouviu tudo o que o marido dela tinha para falar, pegou a trouxinha da minha irmã, levou-a para dentro de casa e não fez uma única pergunta. O silêncio dele foi uma escolha: não julgou, não deu palco ao agressor e acolheu minha tia. Um mês depois, o marido, ao perceber que a provocação não havia funcionado, apareceu para buscá-la. Novamente, meu pai não falou nada.

Nesse momento, observo a importância de homens e mulheres inteligentes e como isso me estruturou como ser humano. Aquele silêncio do meu avô foi uma ruptura consciente da postura machista da época — uma sabedoria prática que agiu como escudo. Afinal, quando falamos de machismo, estamos falando de algo que aprisiona tanto homens quanto mulheres, tornando-nos seres fragilizados e incapazes de amar de verdade. Percebo o imenso valor das mulheres que passaram pela minha vida, mas reconheço, com o mesmo peso, o valor desses homens sábios que souberam proteger e transformar a minha história.

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Mércia Souza é escritora, colunista de jornais e revistas, e artesã crocheteira. Autora de três livros publicados — transitando entre o romance e as crônicas —, expressa sua visão de mundo tanto através das palavras quanto das linhas. Feminista, mãe e avó, reside atualmente em Cachoeiro de Itapemirim (ES), onde divide seu tempo entre a literatura, o artesanato e o amor pelas montanhas e pelo mar.

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