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Sempre em frente

Velho perde dentes e a fé, mas nunca a cidadania

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Autor/Imagem:
Heliodoro Quaresma - Foto Editoria de Imagens/IA

Avesso a comparações relativas ao tempo, minha nostalgia se limita a ajudar a mente a lembrar do passado com carinho. A clássica frase “no meu tempo era melhor” expressa exclusivamente o desejo de reviver a própria infância e a adolescência. Na verdade, tenho boas lembranças da juventude e de uma vida mais simples e respeitosa, sem as preocupações, a musicalidade e, principalmente, sem os políticos da atualidade. Como aprendi a filtrar a memória, meu anteontem parece melhor do que ontem e infinitamente mais palatável do que hoje.

Dizem os especialistas que, como o mundo muda depressa demais, o cérebro busca refúgio no que já é conhecido e seguro. Será esta a razão pela qual a maioria do povo brasileiro não admite trocar um presidente nota 9 por um postulante nota zero à direita? Tudo indica que sim. Todavia, a política não é o objeto da narrativa. Nas viagens pelo interior do pote de maionese, quem não tem saudade das brincadeiras de rua, dos desenhos sem violência e das cartas entregues diariamente pelo carteiro? Eu tenho! Da mesmo forma que tenho ódio do tal do QR Code.

Estimulados pelas nuvens, os adolescentes e jovens de 2026 preferem a vida mais conectada. Outrora, quase tudo que fazíamos exigia paciência e presença física. Romantizando a escrita, o presente traz novos e muitos desafios, o que faz o passado ser desenhado de modo mais calmo e protegido. Por isso, mantenho o hábito de colecionar histórias, números de telefones e placas de carros antigos, nominar cicatrizes e decorar desculpas para sair mais cedo dos lugares menos convidativos.

Jovem, aprendi a ser estrategista. Velho, mesmo não sendo um desses políticos chinfrins, me acho um craque na arte de sair pela tangente. No livro de minha cabeceira, democraticamente colocado à esquerda da cama, leio sempre a máxima do filósofo alemão Arthur Schopenhauer. Conforme o mestre do pessimismo filosófico, os primeiros 40 anos de vida nos dão o texto. Os comentários estão reservados para os 30 anos seguintes. De posse desse embargo linguístico, meu princípio básico vem dos ensinamentos do romancista francês Honoré de Balzac, para quem o homem começa a morrer na idade em que perde o entusiasmo.

Posso perder os dentes, os pelos, a visão e até a fé, mas nunca, em tempo algum, o vigor, a empolgação, a animação e a energia. Como sei que é nas asas do tempo que a tristeza voa, isto é, vai embora, nunca desperdiço tempo ou me queixo da brevidade da vida. O fato é que, como senhor da razão, seja ontem, hoje ou amanhã, o tempo dissolve o desnecessário e preserva o essencial. O fato é que, ainda que falasse a língua dos anjos, eu não teria condição de ultrapassar a natureza para saber o que ela quer dizer.

Não tenho mais a idade do futuro, mas mantenho a da razão. Distante das comparações hipócritas e desnecessárias, o que sei é que poucos sabem que há coisas que são boas por alguns instantes e outras por algum tempo. Só algumas são para sempre. Assim são as minhas lembranças. Diferente daquele tempo, não tenho mais pressa, mas rumo, pois demorar nada tem a ver com se perder. Após anos fincando pegadas na areia, não deixo mais a pressa de chegar roubar a beleza do meu caminho. Sem pressa, mas sem parar de caminhar sempre em frente.

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Heliodoro Quaresma, jornalista aposentado, mantém uma velha Remington como relíquia em sua estante e usa um Notebook para escrever artigos pontuais para Notibras

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