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Quem aposta no novo?

Kleber gasta sola de sapato em busca do voto que dinheiro não compra

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Autor/Imagem:
José Seabra - Foto Acervo Pessoal

Em ano eleitoral, há campanhas que começam numa planilha, onde primeiro vêm os milhões, depois os marqueteiros, os vídeos, as pesquisas, os carros adesivados, os cabos eleitorais e aquela parafernália toda que, de quatro em quatro anos, tenta convencer o cidadão de que determinado candidato sempre foi seu melhor amigo. Mas a campanha do doutor Kleber Melo parece ter escolhido outro caminho, ou, quem sabe, tenha sido o caminho que escolheu Kleber.

Defensor Público da União, conhecido por muitos como o Defensor do Povo, ele quer ser deputado distrital, disputando uma das 24 cadeiras da Câmara Legislativa. Para alcançar seu objetivo, resolveu procurar votos andando, empregando uma maneira quase arqueológica nestes tempos de redes sociais, algoritmos e campanhas milionárias.

Reunindo amigos em casa ou andando nas ruas, ele segue gastando sola de sapato, conversando, apertando mãos, ouvindo as pessoas e explicando por que resolveu trocar, ainda que temporariamente, a tranquilidade relativa dos gabinetes jurídicos pelo poeirão de uma campanha eleitoral.

Kleber é candidato pelo Novo, e é aí onde se revela uma curiosidade dessa eleição. O partido carrega no nome aquilo que pretende representar, mas ainda não possui algumas das velhas ferramentas que tornaram tão caras as campanhas políticas brasileiras. A legenda não dispõe de uma montanha de dinheiro público para despejar na eleição, não conta com fartura de exposição no horário eleitoral e não possui aquela gigantesca estrutura partidária construída durante décadas por legendas tradicionais.

Tem, entretanto, alguns nomes conhecidos. Na cabeça da chapa está Kiko Caputo, advogado que decidiu disputar o Palácio do Buriti. Para o Senado, o partido apresenta o desembargador Sebastião Coelho. E, na corrida pela Câmara Legislativa, uma das apostas é justamente Kleber Melo. O problema — se podemos chamar assim — é que currículo e prestígio não votam, e prestígio, muito menos. Já amizade ajuda, mas não obrigatoriamente aperta o botão da urna.

É preciso, portanto, chegar ao eleitor. E Kleber vai chegando. Um dia está numa região central de Brasília. No outro, cruza o Distrito Federal, destina tempo para conversar com amigos antigos, muitos deles tão conhecidos e respeitados quanto ele, mas também dá uma parada diante de quem jamais viu na vida. É quando escuta uma reclamação aqui, outra acolá. Nessas ocasiões ele anota mentalmente uma sugestão, explica suas ideias e pede confiança.

Entre um aperto de mão e outro, pede voto sem vergonha de pedir. Afinal, eleição é isso. Kleber faz lembrar um candidato que pode escrever tratados sobre democracia, citar Montesquieu, Rousseau ou Norberto Bobbio, discursar sobre cidadania e instituições. No final das contas, porém, precisa olhar para o cidadão e pronunciar a frase “quero seu voto”, tida na política como a mais simples e ao mesmo tempo a mais difícil da política.

Nessas caminhadas, Kleber encontra o Distrito Federal que existe muito além dos cartões-postais. Ele vê famílias esperando meses por uma consulta especializada na rede pública, mulheres que precisam de proteção contra a violência, pessoas com deficiência que ainda esbarram na falta de acessibilidade e idosos que dependem de atendimento público e frequentemente descobrem que envelhecer com dignidade exige uma resistência quase heroica.

O ‘Defensor do Povo’ também encontra jovens procurando o primeiro emprego e mães tentando encontrar vaga em creche para poder trabalhar; vê moradores das regiões administrativas enfrentando ônibus lotados e viagens intermináveis, enquanto ouve gente reclamando da insegurança, da falta de oportunidades, do preço da moradia e da distância entre o Estado que aparece nos discursos e aquele que deveria chegar à porta de casa.

Há ainda a população em situação de rua, a dependência química destruindo famílias, a necessidade de políticas de saúde mental, o drama da violência doméstica e a permanente desigualdade entre a Brasília planejada e as cidades que cresceram em volta dela. É nesse território que o ‘Defensor do Povo’ tenta transformar o conhecimento acumulado na Defensoria em argumento eleitoral.

Kleber admite, em conversa com Notibras, que não é tarefa simples, sobretudo porque ele disputa contra adversários que terão muito mais dinheiro, estrutura e exposição. Alguns aparecerão milhares de vezes nas telas dos celulares antes que ele consiga atravessar uma feira de ponta a ponta. Mas política tem dessas ironias. E às vezes, uma conversa de cinco minutos vale mais que um vídeo visto por 500 mil pessoas, um aperto de mão pode permanecer na memória por mais tempo que um jingle e uma sola de sapato gasta pode dizer sobre um candidato aquilo que nenhuma agência de publicidade consegue fabricar.

O Novo também sabe que precisará de muitos votos. Não apenas para Kleber, mas para construir representação política suficiente para deixar de ser somente uma promessa carregada no próprio nome., já que partido novo enfrenta o antigo dilema de precisar convencer o eleitor de que é possível fazer diferente antes de possuir a estrutura daqueles que promete enfrentar.

Kleber Melo está tentando resolver esse problema do jeito mais elementar possível. É quando vai ao encontro das pessoas e ouve de alguém que isso é política antiga. Pode ser, mas havia algo na política de antigamente, como Kleber faz agora, o olho no olho, algo que a tecnologia ainda não conseguiu substituir.

Quem observa o cenário político sabe que o eleitor percebe quando o candidato sabe do que está falando, quando conhece os problemas que menciona, quando escuta apenas para esperar sua vez de falar, e percebe, principalmente, quando alguém realmente presta atenção no que ele diz.

É nessa fronteira estreita entre a confiança e a desconfiança que Kleber vem literalmente caminhando. Ele sabe que até outubro haverá muitos quilômetros pela frente, muitas portas, feiras, calçadas, reuniões, cafés e conversas, como também haverá gente que prometerá votar e esquecerá. Outros dirão que não e talvez mudem de ideia, enquanto alguns apertarão sua mão apenas por educação. Isso faz parte do jogo político, e democracia nunca veio com recibo de garantia.

No dia da eleição, porém, não haverá sola de sapato, currículo, título de doutor, amizade ilustre nem discurso capaz de substituir o voto, justamente aquilo que realmente interessa. É dele que Kleber precisa, que o Novo precisa e é com ele que o cidadão decide se prefere conservar aquilo que conhece ou experimentar alguma coisa diferente.

O partido, como se sabe, já escolheu até o nome para essa promessa. Chama-se Novo. Agora falta descobrir se o eleitor está disposto a fazer jus à palavra, porque, para alguma coisa nova acontecer, existe uma condição muito antiga – basta o povo querer.

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José Seabra é CEO fundador de Notibras

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