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Marina Dutra

O perdão não muda o passado, mas pode mudar quem você se torna depois dele

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Autor/Imagem:
Marina Dutra - Texto e Foto

Guardar ressentimento mantém a ferida aberta. Libertar-se da dor é um presente que você oferece a si mesmo.

Poucas palavras despertam sentimentos tão diferentes quanto “perdão”. Para algumas pessoas, ele representa paz. Para outras, parece uma injustiça. Há quem acredite que perdoar seja esquecer o que aconteceu. Outros entendem o perdão como uma obrigação, quase uma prova de evolução espiritual.

Mas será que é isso mesmo?

Na prática terapêutica, uma das maiores dificuldades que encontro é ver pessoas carregando dores antigas como se ainda estivessem vivendo exatamente a mesma situação. O acontecimento ficou no passado, mas a emoção continua presente. A mágoa passa a ocupar espaço nos pensamentos, influencia novos relacionamentos e, muitas vezes, determina a forma como aquela pessoa enxerga a si mesma e o mundo.

O sofrimento deixa de ser apenas uma lembrança. Ele se transforma em companhia.

É importante compreender que sentir dor depois de uma traição, de um abandono, de uma violência ou de uma grande decepção é absolutamente natural. Fingir que nada aconteceu não cura ninguém. O tempo, por si só, também não resolve aquilo que continua sendo alimentado dentro de nós.

Mas existe uma diferença entre lembrar do que aconteceu e continuar vivendo emocionalmente preso ao que aconteceu.

Quando permanecemos alimentando o ressentimento, a outra pessoa pode até ter seguido a própria vida, enquanto nós continuamos presos ao mesmo capítulo. Sem perceber, entregamos ao passado o poder de decidir como viveremos o presente.

Isso não significa minimizar o que aconteceu.

Existem feridas profundas. Algumas deixam marcas para toda a vida. Há situações que exigem tempo, acolhimento e, muitas vezes, acompanhamento terapêutico para serem elaboradas.

Por isso, talvez seja importante compreender que perdoar não significa dizer que o outro estava certo.

Também não significa esquecer, voltar a confiar ou permitir que aquela pessoa ocupe novamente um lugar em sua vida.

Perdoar é, antes de tudo, deixar de carregar um peso que continua machucando apenas quem o carrega.

Em muitos casos, o perdão nem acontece de uma única vez. Ele é um processo. Em outros, a pessoa talvez nunca consiga chamar esse caminho de perdão. E tudo bem. O mais importante é que consiga, aos poucos, deixar de viver aprisionada pela dor.

Porque ninguém merece permanecer condenado por uma história que já terminou.

A verdadeira liberdade emocional começa quando decidimos que aquilo que nos feriu não continuará definindo quem somos.

Na terapia, esse costuma ser um dos momentos mais transformadores. Quando a pessoa percebe que não pode mudar o passado, mas pode escolher o lugar que ele ocupará em sua história. Algumas experiências se tornam cicatrizes. Outras continuam sendo feridas abertas. A diferença está no caminho que decidimos percorrer depois delas.

Talvez o perdão seja apenas uma consequência desse processo. O objetivo maior não é absolver quem machucou você.

É libertar quem continua sofrendo.

Enquanto a dor continua controlando suas escolhas, o passado ainda ocupa espaço demais no seu presente. Curar não é apagar a história. É impedir que ela continue escrevendo o seu futuro.

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Marina Dutra – Terapeuta Integrativa

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