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Cafifas

Inspirado em uma crônica do escritor Álvaro Salgado

Publicado

Autor/Imagem:
Cadu Matos - Foto Francisco Filipino

No início era o Verbo, mas o Substantivo pintou logo depois.

E, para os moleques de Niterói, um dos mais belos era o substantivo cafifa.

Comecei este texto com uma paráfrase bíblica, sigo com outra (a rigor, não uma paráfrase, antes uma explicação), referida em Juízes, 12:6. Houve um conflito armado entre os efraimitas, da tribo israelita de Efraim, e os de Gilead, região a leste do rio Jordão ocupada pelas tribos de Manassés, Rúben e Gade. Os efraimitas foram derrotados e, para escapar da morte, os sobreviventes negaram descender de Efraim. Foram submetidos então a um teste linguístico: deviam pronunciar a palavra hebraica “shiboleth” (corrente d’água ou espiga de cereal). Os efraimitas não conseguiam fazê-lo, diziam “siboleth”. Assim, foram identificados e mortos em massa: segundo a Bíblia, cerca de 42 mil pereceram na ocasião.

Pois bem, cafifa era o shiboleth da tigrada de Niterói e de áreas próximas, um termo praticamente só usado em nossas plagas. Em outras regiões brasileiras, tem acepções negativas, significa implicância, azar, aborrecimento ou alguém “pé-frio”; é também uma variante mais aceitável de cafetão, abrasileiramento da palavra argentina cáften e tão grosseiro como a atividade a que remete, de explorar mulheres e viver do dinheiro da prostituição

Para os niteroienses e adjacentes, porém, cafifa, era o glorioso objeto criado por mãos de crianças e adolescentes que depois o lançavam aos ares, para voar ao sabor dos ventos da Guanabara. Outras designações, a meu ver, não são tão expressivas, e os objetos a que correspondem provavelmente não enfrentam os ventos com tanta galhardia. Pipa remete não só ao brinquedo voador como também a um barril, o qual, convenhamos, não tem um design exatamente aerodinâmico; papagaio, em meu juízo (ou falta de), remete ao bicho que voa, ma non troppo, e fala pra dedeu; raia é maneiro, soa bem, mas me faz pensar primeiro no peixe. Quanto a pandorga… pobres crianças dos pampas e de outras regiões do sul do Brasil, nem imagino como a coisa suporte o peso de tanta “orga” e se eleve do chão.

Já a cafifa se iça, em uma rima rica, e, em outra, com manobras audazes e muito cerol na linha, entra na liça.

Explicação necessária: este texto foi-me inspirado pelo subtítulo Cafifas e dias ensolarados e pela ilustração da crônica Irmãos de leite, de Álvaro Salgado, membro do Café Literário de Notibras. Obrigado, confrade, suas palavras foram a madeleine que me fez enveredar pelas trilhas da memória em busca do tempo da infância, jamais perdido de todo.

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Cafifas e dias ensolarados, crônica do escritor Álvaro Salgado: https://www.notibras.com/site/cafifas-e-dias-ensolarados/

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