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Panorama Político, por João Zisman

Nome a ser batido nas urnas, Celina deixa que os de trás briguem entre si

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João Zisman - Foto Divulgação/CBPress

A campanha eleitoral ocupa o centro da agenda do Distrito Federal nesta quarta-feira, mas não apenas porque os principais candidatos estiveram ontem à noite diante das câmeras. O debate do Correio Braziliense e da TV Brasília começou a organizar com maior nitidez os campos de confronto da eleição e revelou uma disposição para o embate que ainda não havia aparecido com a mesma intensidade na campanha.

Celina Leão, líder nas pesquisas, não escolheu apenas administrar a vantagem e respondeu diretamente aos adversários. José Roberto Arruda concentrou sua ofensiva sobre o governo e avançou ao apresentar uma fórmula própria para enfrentar a crise do BRB. Leandro Grass procurou conciliar oposição local e defesa do governo federal, Ricardo Cappelli apostou no confronto para ganhar espaço, Paula Belmonte insistiu nas deficiências de gestão e Kiko Caputo procurou utilizar transporte e infraestrutura para apresentar propostas.

Fora do debate, a agenda permanece diversificada. O BRB continua no centro da disputa política, agora também submetido às propostas dos candidatos. A saúde mostrou potencial para se consolidar como uma das principais vulnerabilidades eleitorais do governo. O Metrô continua presente mesmo depois do adiamento da greve. A situação jurídica de Arruda permanece sem definição no TRE-DF. O PPCub e a representação da sociedade civil no Conplan mantêm a agenda urbana ativa, enquanto o governo prepara a operação de segurança e mobilidade para o 7 de Setembro.

O saldo desta manhã é de uma campanha mais clara em seus conflitos, mas ainda sem mudança objetiva na correlação de forças conhecida pelas pesquisas.

O debate merece tratamento separado porque foi mais do que uma agenda cumprida pelos candidatos. Pela primeira vez nesta fase da campanha, os principais concorrentes tiveram de abandonar o ambiente protegido da propaganda e responder diretamente uns aos outros. O resultado mostrou uma eleição mais aberta ao confronto do que a liderança relativamente confortável de Celina poderia sugerir.

Celina entrou como candidata a ser batida e não tentou escapar completamente desse papel. Foi cobrada pelo BRB, saúde, mobilidade e gestão, respondeu aos ataques e também decidiu provocá-los. O confronto com Ricardo Cappelli, chamado por ela de “bobo da corte”, foi o exemplo mais evidente. Contra Arruda, utilizou a situação jurídica do ex-governador como instrumento de reação. A postura sugere uma campanha governista menos interessada em apenas preservar a favorita e disposta a assumir algum risco para não entregar aos adversários o monopólio da ofensiva.

Arruda fez o movimento natural de quem aparece em segundo lugar. Tentou transformar o debate num julgamento da administração atual e utilizou saúde, população em situação de rua e principalmente o BRB para empurrar Celina para a posição de candidata responsável pelos problemas do governo.

A novidade apareceu quando ele deixou a acusação e entrou no terreno da proposta. Arruda defendeu a utilização de recursos do Fundo Constitucional de Financiamento do Centro-Oeste para reforçar a liquidez do BRB, falou em até R$ 15 bilhões e acrescentou redução da estrutura do banco, fechamento de agências, cancelamento de patrocínios e programas de desligamento voluntário.

A viabilidade da proposta precisará ser examinada separadamente, mas politicamente ela produz um efeito imediato: o BRB deixa de ser apenas uma discussão sobre quem provocou a crise e passa a exigir que os candidatos expliquem o que fariam para resolvê-la.

Leandro Grass ocupou posição mais complexa. Precisa fazer oposição ao GDF sem permitir que ataques ao governo federal o obriguem a gastar parte significativa de sua exposição defendendo Lula. A discussão sobre o Fundo Constitucional mostrou exatamente essa dificuldade. Ao defender o comportamento do governo federal em relação aos repasses, Grass protege seu campo político, mas corre o risco de responder por uma administração que não é aquela que pretende comandar.

Ricardo Cappelli escolheu a agressividade como instrumento para tentar romper a barreira dos candidatos que hoje concentram a disputa. Conseguiu provocar Celina e participar de um dos momentos de maior repercussão do debate, mas seu desafio continua sendo transformar capacidade de confronto em percepção de viabilidade. Ganhar espaço numa discussão não significa necessariamente entrar na disputa eleitoral.

Paula Belmonte manteve a crítica às deficiências de gestão, especialmente na saúde, enquanto Kiko Caputo procurou aproveitar transporte e infraestrutura para apresentar propostas. Para os candidatos com menor exposição no horário eleitoral, o debate oferece algo particularmente valioso: uma igualdade de tempo que a propaganda gratuita não lhes proporciona.

Mais importante do que escolher vencedor ou derrotado é perceber que a campanha começou a encontrar seus eixos.

O BRB tende a continuar como principal passivo utilizado contra Celina, mas o debate indicou que repetir acusações talvez já não seja suficiente. A campanha começa a cobrar alternativas para o banco. A saúde oferece à oposição um terreno diferente e potencialmente mais perigoso para o governo porque seus problemas chegam diretamente ao cotidiano e não dependem da tradução necessária para compreender uma crise financeira.

O Metrô, mesmo depois do adiamento da greve, permaneceu na discussão e começa a migrar de problema trabalhista para debate sobre expansão, investimentos e qualidade do transporte. O Fundo Constitucional abre outro campo de confronto, no qual a eleição distrital inevitavelmente encontra a disputa nacional.

Também ficou mais claro o desenho estratégico dos dois primeiros colocados. Arruda precisa transformar a eleição num julgamento do governo; Celina precisa impedir que governar signifique permanecer durante toda a campanha no banco dos réus.

Cada um, porém, carrega seu próprio risco. Celina não pode responder a todas as provocações e permitir que a condição de favorita seja substituída pela imagem de uma candidata permanentemente acuada. Arruda precisa impedir que a discussão sobre sua situação jurídica ocupe mais espaço do que aquilo que pretende oferecer como alternativa de governo.

Os demais candidatos enfrentam dificuldade adicional. O debate lhes ofereceu exposição, confronto e igualdade de tempo, mas ainda precisam demonstrar que existe uma alternativa eleitoral concreta fora do eixo Celina-Arruda. A televisão lhes deu igualdade de tempo; ainda não lhes deu igualdade de peso.

O debate não virou a eleição, mas começou a mostrar qual eleição cada candidato gostaria de disputar. Celina quer comparar governo e entregas; Arruda quer julgar a administração; Grass procura construir oposição sem passar a campanha respondendo pelo governo federal; Cappelli aposta no confronto para crescer; Belmonte explora as falhas de gestão; e Caputo procura transformar propostas específicas em reconhecimento eleitoral. A partir de agora, a questão é saber quais dessas estratégias sobreviverão fora do estúdio.

A proposta apresentada por Arruda muda a natureza política da discussão sobre o BRB. Até agora, boa parte do embate estava concentrada na origem da crise, nas responsabilidades do governo, nas operações relacionadas ao Banco Master e nas alternativas institucionais para recomposição financeira.

Ao defender recursos do Fundo do Centro-Oeste, redução da estrutura, fechamento de agências e revisão de patrocínios, Arruda tenta ocupar também o terreno da solução. Isso aumenta a pressão sobre Celina para que a campanha governista apresente com maior clareza qual BRB pretende entregar depois da crise. Também abre espaço para que os demais candidatos sejam cobrados sobre capitalização, tamanho da instituição e eventual participação de recursos públicos.
O banco tende, portanto, a permanecer como assunto central, mas a pergunta eleitoral começa a mudar: além de saber quem é responsável, será necessário discutir quem pagará a conta e qual BRB sairá dela.

A saúde apareceu no debate como um dos poucos assuntos capazes de reunir críticas de adversários politicamente bastante diferentes. Cappelli citou problemas em hospitais e UPAs. Paula Belmonte concentrou parte de sua argumentação nas filas, falta de insumos e dificuldades para realização de procedimentos. Arruda também utilizou a área para questionar a administração. Celina respondeu com números de cirurgias realizadas e previsão de novas UPAs.

Para o governo, o problema é que saúde possui uma característica eleitoral distinta do BRB. O cidadão pode não acompanhar detalhes de capitalização bancária, mas compreende imediatamente uma consulta que demora, um exame que não consegue marcar ou um atendimento que considera inadequado. A oposição percebeu esse terreno e provavelmente voltará a ele.

O adiamento da greve retirou da semana o risco imediato de estações fechadas, mas não encerrou a discussão. No debate, o Metrô apareceu associado à falta de expansão do sistema, necessidade de modernização e novos investimentos. Kiko Caputo falou em mais de R$ 1 bilhão para modernização, enquanto Arruda voltou a cobrar expansão da malha.

O movimento é importante porque transforma uma crise inicialmente trabalhista em discussão programática sobre mobilidade. A nova assembleia dos trabalhadores, prevista para 15 de setembro, mantém ainda o risco de paralisação no horizonte.

O Fundo Constitucional do Distrito Federal voltou ao confronto eleitoral quando Grass rebateu a interpretação de que o governo Lula estaria prejudicando os recursos destinados ao DF. A discussão exige atenção porque mistura dois planos diferentes: o embate eleitoral e as alterações legislativas que podem efetivamente modificar a trajetória futura dos repasses. Para o Distrito Federal, qualquer mudança relevante possui impacto direto sobre segurança, saúde e educação. Por isso, o tema deve continuar sendo acompanhado para além das declarações dos candidatos.

O GDF concluiu o credenciamento de 104 entidades da sociedade civil para participar do processo de escolha dos representantes do Conselho de Planejamento Territorial e Urbano do Distrito Federal no biênio 2027-2028. A movimentação ganha importância num momento em que o PPCub retorna à agenda pública. A audiência sobre novas alterações está prevista para 30 de setembro.
O debate urbano tende a crescer durante a campanha porque reúne preservação do conjunto tombado, ocupação territorial, habitação, interesses imobiliários e planejamento de longo prazo.

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