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Nova delação

Vorcaro pronto para jogar lenha na fogueira

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Autor/Imagem:
Sonja Tavares - Foto de Arquivo/ABr

Do mesmo modo que a provável reencarnação de Luiz Inácio para sua quarta vida à frente da Presidência da República tem tirado o sono da falida república bolsonarista, o fantasma de Daniel Vorcaro tem obrigado pelo menos meia República a dobrar a dose de Rivotril. Até agora, as noites eram intermináveis somente no Congresso Nacional e entre os presidenciáveis. Hoje, elas começam, mas não têm hora para terminar também para alguns dos atuais dez ministros do Supremo Tribunal Federal. O ministro André Mendonça tocou fogo no parquinho. É bom ele também preparar as ataduras.

O inquérito da Polícia Federal está no ar. Seu conteúdo é a bomba atômica que já atingiu carecas e, a qualquer momento, pode ser disparada contra um monte de cabeludos. De um lado, o ministro André Mendonça exige explicações do colega de bancada Alexandre de Moraes sobre contatos e contratos com o ex-dono do ex-banco Master. Exigência justa, muito justa, justíssima. Do outro, Flávio Bolsonaro, íntimo de Vorcaro, a quem chama de irmão, recebe dinheiro do Master, não presta contas e fica o dito pelo não dito. Flávio e Moraes estão no mesmo processo sob a relatoria de Mendonça. Sem contar os contratos do instituto de Mendonça.

E por que dois pesos e duas medidas? Enquanto a sociedade cobra respostas honestas para esta e outras indagações envolvendo o ministro e o senador, Vorcaro e seu demoníaco silêncio incomoda as duas candidaturas. Postulante à sucessão de Lula da Silva, Flávio Bolsonaro diz que diz, mas nada acrescenta ao que nunca disse. Vice-presidente do STF, Alexandre de Moraes terá de manter a conduta ilibada se quiser assumir o comando da Corte Suprema em março de 2027. Tarefe inglória para ambos. Um precisa de milhares de milhões de votos do povo, enquanto o outro precisa convencer os nove ou dez colegas de plenário.

Como Flávio não explicou e dificilmente explicará o rumo da grana liberada por Vorcaro, teria ele cometido um vorcaricídeo? Quem sabe um bolsonaricídio! Na mesma ordem, tudo indica que Moraes cometeu supremicídio. Ou supremicida é Mendonça? Tirando os nove fora, resta a dúvida: no caso de uma delação premiada, quem Daniel Vorcaro tira da fogueira? A maioria aposta que ele jogará os dois na fogueira da vaidade. Eu prefiro me abster. O que posso adiantar é que, diferente da necessidade de Flávio, que tem de convencer o eleitorado de que não é um mentiroso, Moraes contará com o corporativismo da Corte, cujos membros, em que pese a credibilidade, certamente tentarão evitar afogar de vez o STF no lamaçal em que foi jogado.

Como as instâncias superiores não permitem que o acusador expulse o acusado, nesse terrível enredo de comédia pastelão tudo deve acabar em pizza no forno das togas. Nem tudo, porque os olhares enviesados jamais cessarão. Quanto a Dark Horse, em cartaz na caixa-preta de Vorcaro, a fuga galopante do dinheiro impedirá que Flávio continue sonhando com a Presidência da República. E ficará nisso, pois, além de primogênito do Jair, ele é protegido do ministro acusador e aliado da primeira fila da família Bolsonaro. Sendo assim, o tapete será definitivamente entupido com o lixo nada republicano da República.

Pelo menos o povo brasileiro não terá mais dúvida da orfandade de dois dos três poderes. Poderia ser pior caso o candidato mentiroso tivesse alguma chance de, imerecidamente, pudesse alcançar o Palácio do Planalto. Como Deus não asas às cobras, aparentemente estamos livres da peçonha. Pela reação do povo, fica a certeza de que nunca na história deste país alguém imaginou que um dia o STF se transformasse em um covil. Em 135 anos de existência, bem ou mal, a coerência jamais foi aviltada pela subserviência, muito menos pela obediência dos indicados a quem os indicou.

Acompanhando a ânsia do poder físico, econômico e pessoal, setembro chegou esparramando labaredas e brasas por toda a Praça dos Três Poderes. Como o mato permanece seco, o fogo ardente do STF ainda queimará muitas almas vivas.

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Sonja Tavares é Editora de Política de Notibras

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