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Autofagia explícita

Lobos do Supremo podem engolir comedor de rato

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Autor/Imagem:
Mathuzalém Júnior - Foto de Arquivo

Há um antigo provérbio que, se autoaplicável, atingirá em cheio algumas cabeças coroadas de espinhos do Supremo Tribunal Federal. O ditado popular completo diz que “Quem tem telhado de vidro não atira pedra no do vizinho”. Didática, comportamental e juridicamente perfeita, a expressão significa que aqueles que têm fragilidades, segredos ou erros podem se machucar ou também se expor ao atacar demais. Se acrescido ao aforismo “Sujo e mal lavado”, o provérbio, provavelmente anterior à criação do STF, em 1891, confirma a tese de que a nação, a população, os políticos e os magistrados brasileiros estão doentes.

A guerra fria anunciada entre o roto e o esfarrapado no plenário da Corte não maculou somente a instituição Supremo Tribunal Federal. Feriu de morte a já debilitada credibilidade do STF como instância máxima do Poder Judiciário. E agora? A quem recorrer? À Corte Suprema de Donald Trump ou a Daniel Vorcaro, o que veio para matar? Não concordo com afirmações do tipo é o fim da República brasileira. No entanto, não discordo daqueles que, silenciosamente, atenuam a máxima de presidenciáveis sem votos, mas não a excluem. Talvez seja o início do fim.

Não acredito, embora seja esse o objetivo dos que, de caso pensado, resolveram atirar pedras, tijolos e granadas sobre o telhado onde ele próprio se abriga. São as viúvas de Jair Bolsonaro. Diriam os adeptos da descrença fundamentada, que, mesmo condenado, um ministro do STF tentar atingir um outro de morte nada tem de autofágico. Seria hipocrisia, vontade de aparecer, inveja ou necessidade óbvia de cumprir promessas feitas a quem o indicou. Sem mais delongas, ainda que baseado em fatos, a exposição que o ministro André Mendonça impôs ao “colega” Alexandre de Moraes não foi de graça, tampouco deixará de ter retorno.

Metaforicamente, ele (Mendonça) é o gato que queria engolir o rato (Moraes), mas acabará sendo comido pelos lobos do STF. Como a bomba de Mendonça é de várias ogivas, os respingos podem não ser imediatos, mas hoje ou amanhã eles virão. Tudo pode acontecer, inclusive nada. O fato é que Moraes caiu em desgraça dentro e fora do Supremo. Continuar ou abandonar honrosamente a toga deixou de ser apenas uma questão de foro íntimo. Obviamente que haverá contrapartida, isto é, André Mendonça certamente não será poupado. Brasileiros e brasileiras já nascem sabendo que, de primeira, segunda ou terceira instância, os juízes são homens e não anjos. Na prática, isso quer dizer que todos são falíveis. Todos!

O que eu desconhecia é que, por debaixo de determinadas togas, notadamente as religiosas, se escondiam diabinhos fantasiados de personas com mentalidades terríveis e facilmente manipuláveis e, independentemente do resultado de suas diabruras, claramente a serviço de uma corrente ideológica. Reitero que Alexandre de Moraes precisa ser investigado a fundo. O ministro tem a obrigação de explicar à sociedade sua verdadeira relação com Vorcaro. Logo ele que, sem medo, enfrentou a súcia de terroristas que fracassou ao tentar derrubar um presidente democrática e majoritariamente eleito. Mas não é só ele. Muitos dos atuais ministros do STF devem explicações à sociedade.

Como o caso Moraes envolve exclusivamente André Mendonça, faço minhas as indagações do jornalista Luís Nassif. É dever de um magistrado que se mostra casto e acima de qualquer suspeita explicar a subida vertiginosa de patamar financeiro do ITER, instituto criado pelo ministro logo após sua posse no STF. Conforme o colunista, três dos cinco maiores contratos da instituição dirigida por Mendonça envolvem entidades direta ou indiretamente ligadas ao Master, com decisões do ministro do Tribunal Superior Eleitoral: o ex-governador Cláudio Castro, o Conselho Federal de Contabilidade e um consórcio público que reúne 12 municípios da região Oeste da Grande São Paulo. Mistééééééério!

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Mathuzalém Júnior é jornalista profissional desde 1978

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