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Viagem e memória

Ao som de Hugo Montenegro, o homem reencontra o menino que foi

Publicado

Autor/Imagem:
Daniel Marchi - Francisco Filippino

Acabara de deixá-la em casa e voltava, cansado, percorrendo de carro aquela rua antiga, tão conhecida. O celular, conectado ao rádio, começou a tocar Love Is Blue, interpretada pela orquestra de Hugo Montenegro.

De repente, a música me levou para muito longe no tempo. Lembrei-me imediatamente da época em que, fazendo o caminho inverso naquela mesma rua, ia com meu pai, a bordo de nosso velho automóvel, para a casa de meu avô, que estava muito doente. O toca-fitas do carro reproduzia a mesma música. Foi mais ou menos naquele período que eu a ouvira pela primeira vez e começara a gostar de Hugo Montenegro.

Eu gravara aquela fita numa antiga vitrola três em um que ganhara no Natal anterior e seguia no carro cantarolando, despreocupado. Em casa, quando colocava o disco para girar no aparelhinho, soltava a imaginação. Queria entrar pelo som, através da agulha que vibrava nos sulcos do vinil, e viajar até o momento da gravação daquele disco. Queria estar no estúdio, vendo os músicos executarem passagens tão complexas, os cantores atingirem notas altíssimas e o maestro, à frente de todos, comandar aquilo.

Dias depois, minha mãe me acordou de manhã bem cedo para dizer que, naquele dia, meu irmão e eu não iríamos à escola porque vovô havia descansado de sua longa doença. Naquela hora, não compreendi bem a finitude da vida nem a definitividade da morte, que pela primeira vez se apresentava a mim de tão perto.

Ainda hoje o velório se faz presente em meu olfato, pelo perfume dos cravos dispostos sobre a modesta urna. Eu tentei chorar. Meu avô era bom e muito querido, mas minha cabeça estava em outro lugar. Queria voltar logo para casa, deitar-me no tapete do quarto e colocar novamente na vitrolinha o disco de Hugo Montenegro, um dos poucos que eu tinha. Queria viajar outra vez dentro daquele som maravilhoso. Queria ser músico um dia, somente para fazer algo parecido com aquilo.

Ao sair do sepultamento, caminhava heroicamente pelas alamedas do cemitério: só eu não chorara. Olhei para uma nuvem escura no céu carregado. Começava a chover. Talvez, no dia seguinte, minha mãe me deixasse faltar à aula. Bastaria dizer que ainda estava muito triste pela morte de meu avô. Eu queria mesmo era ficar em casa, divertindo-me com a vitrolinha.

Nunca estudei música. Tornei-me estatístico e fui trabalhar para uma grande empresa, num setor formalíssimo e desprovido de qualquer sensibilidade artística.


O tempo passou, e a vitrola foi substituída por tantos outros aparelhos. Hoje, tudo cabia num telefone celular capaz de reproduzir milhares de discos à minha escolha, inclusive praticamente toda a discografia de Hugo Montenegro. Aquilo me fazia feliz e, de certa forma, aliviava-me. Era um sentimento esquisito. Quando menino, tinha medo de que a agulha da vitrola se quebrasse ou de que aquele simples aparelho apresentasse algum defeito e me deixasse sem minha janela para o mundo — ou sem a janela pela qual eu escapava dele.

Poucos minutos antes, dentro daquele mesmo carro, ainda parado diante do prédio dela, eu tentara traduzir em palavras o que sentia.

— Eu devo muito a você. E te agradeço. Chegar até aqui foi, em grande parte, graças ao apoio que você me dá…

Ela segurou minha mão e sorriu com aquela serenidade que tantas vezes impedira que eu desistisse.

— Não precisa agradecer, meu querido. Prometemos sempre apoiar um ao outro. Eu estarei ao seu lado em qualquer situação.

Aquelas palavras permaneciam comigo, já com saudades dela, enquanto o carro deslizava suavemente pela grande avenida. Eu estava diante de um dos momentos mais importantes da minha vida, uma dessas raras fronteiras que dividem a existência entre aquilo que fomos e o que ainda podemos ser. Chegara até ali depois de tantos desvios, hesitações e medos que, durante muito tempo, me pareceram intransponíveis. E sabia que, sem ela, talvez não tivesse conseguido.

Enquanto lembrava de nossa conversa e do beijo com que ela se despedira de mim, Love Is Blue continuava a tocar. Senti novamente a antiga vontade de entrar pelo som, atravessar o aparelho, seguir pelo caminho invisível das vibrações e desaparecer dentro da música.

Dessa vez, porém, eu não queria viajar até um estúdio de gravação. Queria ressurgir naquele dia de céu carregado em que minha família deixara meu avô no cemitério. Queria caminhar novamente por aquelas alamedas, debaixo da chuva que começava a cair, até alcançar o menino que eu fora. Ele estaria alguns passos atrás dos pais, fingindo uma tristeza que ainda não conseguia compreender e pensando na vitrolinha que o esperava em casa.

Eu me aproximaria sem repreendê-lo por não ter chorado. Não lhe falaria sobre culpa, morte ou saudade. Apenas me agacharia, colocaria as mãos sobre seus ombros e diria que ele não precisava ter vergonha. Depois, abraçaria meus pais ainda jovens, meu irmão e aquele menino distraído, felicitando a todos nós pela longa travessia. Diria apenas:

— Foi muito bom chegar até aqui.

As vozes entoaram alguns versos e, em seguida, cederam lugar à passagem instrumental, complexa e luminosa, que eu conhecia desde a infância. O maestro comandava músicos que eu não podia ver, mas que continuavam vivos dentro daquela gravação, repetindo para mim, tantos anos depois, o mesmo instante que um dia fora aprisionado nos sulcos de um disco.

Eu voltava para casa feliz. Acabara de deixar o amor da minha vida em segurança na portaria de seu prédio. Ainda trazia o perfume dela na barba e nas mãos. A música já não era apenas a janela pela qual eu escapava do mundo. Naquela noite, ela me devolvia inteiramente a ele.

Ouça a canção Love Is Blue, com a orquestra de Hugo Montenegro.

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Daniel Marchi é poeta, contista, advogado e professor universitário no Rio de Janeiro. Editor do Café Literário e fundador da Editora Fava, é autor de A Verdade nos Seres (poesia, 2024) e Território do Sonho (contos, 2026). @prof.danielmarchi

 

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