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Chuá

A volta do mercadinho

Publicado

Autor/Imagem:
Gilberto Motta - Texto e Foto

“Chove chuva / Chove sem parar”
(Jorge Ben, anos 60/70)

Olhei a mensagem no celular e escrevi:

“Tô preso aqui pela chuva; no mercadinho”.

Minha amiga falou:

“Tá, fica aí que logo passa”.

Respondi:

“Sim, tudo passa, até uva… Caraca! Isso é frase batida e cifrada”.

Caiu a internet. Fico mais isolado, escondido da chuva e tentando voltar a pé para casa.

Volta o sinal da internet.

A amiga me escreve:

“Cara, ficar preso aí nesse Paraíso aí é um privilégio”.

Penso por alguns minutos e respondo:

“Ficar preso, em qualquer lugar, é uma merda!”

A chuva aumenta e continuo preso no mercadinho.

Comprei dez pacotes de consumo e não posso consumir.

Estresso e saio pela rua debaixo do toró.

Paro embaixo do ponto de ônibus.

Abro uma lata de cerveja e acendo um cigarro.

Vem uma caminhonete cabine dupla – dessas de agroboy bacana -, e – de propósito – joga o veículo na grande poça d’agua da rua e CHUÁ…tomo um banho completo.

Reação imediata:

“FILHO DE UMA PUTA! CANALHA! BACANA DE MERDA!”

Limpo o rosto, pego as sacolas do mercadinho e sigo para casa.

Noite cai. Banho quente.

No Jornal da Globo assisto a uma reportagem sobre a enchente com chuva de granizo aqui ao lado, em Florianópolis-SC.

Apago a luz.

Amanhã será outro dia.

…………………………

Gilberto Motta é escritor, jornalista, pesquisador e autor/ator das próprias crônicas. Viver é absurdo. Vive na Guarda do Embaú-SC.

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