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Clara ou Clarissa

O quarto da bagunça

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Autor/Imagem:
Eduardo Cesario-Martínez - Foto Irene Araújo

Clara adiou o quanto pôde, muito além do que imaginara. No entanto, quase seis meses depois de se aposentar, decidiu que já estava mais do que na hora de arrumar a tralha acumulada durante anos no quarto da bagunça. Mal abriu a porta, foi como se tivesse entrado no túnel do tempo.

A mulher deu uns tapas no velho álbum de fotografia. A camada de poeira ganhou o mundo. Quais segredos aqueles retratos guardariam?

Uma viagem ao Rio de Janeiro em 1973. Ainda solteira, Clara ficou deslumbrada com as belas praias e a ousadia de algumas cariocas. Desejou imitá-las, mas era carente de coragem para expor o próprio corpo. Um maiô discreto e nada mais.

Depositou o álbum ao lado de uma pilha de livros. Lá estava um exemplar de Clarissa, de Érico Veríssimo. Ela o acolheu entre os seios, talvez como recordação de um amor adolescente.

Luciano. Alto, esguio, cabelos desalinhados, olhos tão escuros e cheios de segredos. O sorriso com aparelho, algo caro para a época. Clara, aos treze anos, se sentiu, de alguma forma, atraída pelo rapaz. Amor platônico como outros tantos que teve. Por onde andaria o Luciano? Teria, ao contrário dela, se casado? Provavelmente já era avô e ganhara alguns quilos. Certamente, os dentes estavam livres do aparelho há muitos anos.

Um vinil da trilha sonora da novela Estúpido Cupido. Clara havia ganhado aquele disco de sua avó Mariana. Ouviu Meu mundo caiu até furar o disco. Não furou, mas quase.

A coleira da Princesa, a vira-lata ranzinza, porém grande companheira nas madrugadas de fossa. Clara, deitada no sofá da sala, a cabeça da cachorra sobre o seu ventre, ao som de Maysa.

Clara nunca casou, apesar do quase desespero da mãe. E Luciano teria se casado? Como adolescente, a mulher deixou-se invadir pelos sonhos. Sorriu.

Fechou a porta do quarto e foi preparar café. Uma xícara apenas. Pegou um pouco de conhaque e despejou duas doses. Amanhã retornaria àquela montanha de lembranças. Melhor, iria ao clube. Longe da perfeição inquieta da adolescência, queria se expor. De biquíni de bolinhas amarelinhas.

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Eduardo Cesario-Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).

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