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Primeira quilombola a conquistar doutorado em direito no Brasil

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Autor/Imagem:
Salete Sampaio - Foto Divulgação

A advogada Vercilene Francisco Dias fez história ao se tornar a primeira mulher quilombola do Brasil a conquistar o título de doutora em direito. A histórica defesa de sua tese ocorreu no dia 11 de agosto, na prestigiada Universidade de Brasília (UnB). O trabalho acadêmico traz uma profunda análise sobre os complexos processos de regularização fundiária e as intensas disputas pela posse do território Kalunga, sua terra natal.

A conquista de Vercilene carrega um forte simbolismo de representatividade e superação para as comunidades tradicionais brasileiras. Segundo a nova doutora, o objetivo principal de sua jornada acadêmica era demonstrar à sociedade a capacidade da população quilombola de ocupar os espaços de alta liderança intelectual. Ela destaca que, desde a sua graduação e mestrado, percebeu que sua trajetória passou a servir de espelho e inspiração para que outras jovens decidissem deixar a comunidade para seguir o caminho dos estudos.

A trajetória da advogada começou na região do Vão do Moleque, localizada no território Kalunga, a 130 quilômetros de Cavalcante, em Goiás. Filha de lavradores semianalfabetos, o primeiro contato de Vercilene com as letras teve um propósito comunitário: ela aprendeu a ler e a escrever para ajudar o próprio povo. Na infância, ela assumiu a responsabilidade de redigir e decifrar cartas e documentos importantes para os moradores da região, o que despertou seu interesse pelas questões agrárias.

Foi justamente a observação das constantes disputas territoriais que cercavam sua comunidade que motivou Vercilene a buscar o conhecimento jurídico. Determinada a mudar aquela realidade, ela iniciou uma jornada de migração em busca de educação, passando a morar com padrinhos no Tocantins em 1995 e, posteriormente, com uma família de fazendeiros no interior daquele estado. O desejo de ingressar no curso de direito a trouxe de volta a Goiás, onde trabalhou como empregada doméstica para financiar os próprios custos escolares.

O esforço e a resiliência foram recompensados em 2011, quando Vercilene garantiu sua vaga no vestibular de direito da Universidade Federal de Goiás (UFG). A partir daquele ingresso, sua caminhada acadêmica se consolidou até culminar no pioneirismo do doutorado na UnB. O feito joga luz sobre a importância das políticas de inclusão e o papel dos quilombos modernos, que historicamente nasceram como espaços de liberdade e resistência contra a escravidão e hoje continuam resistindo por meio do conhecimento.

A vitória da advogada Kalunga celebra não apenas um mérito pessoal, mas um marco político para os remanescentes de quilombos em todo o território nacional. A análise científica produzida por Vercilene sobre a regularização de terras agora serve como uma ferramenta técnica e jurídica de grande valor para a proteção dessas comunidades. Seu título de doutora reafirma que as fronteiras acadêmicas estão sendo rompidas por quem traz a vivência prática da luta pelo direito à terra.

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