Curta nossa página


Supremo e o Império de fachada

Ministros escancararam os bastidores do espetáculo

Publicado

Autor/Imagem:
Armando Cardoso - Foto de Arquivo

Conceito criado pelo filósofo marxista francês Guy Debord, autor da obra A Sociedade do Espetáculo, a espetacularização do mundo substituiu a crua realidade por imagens bonitas, aparências maquiadas, disseminação do ódio e consumismo desenfreado. Na avaliação de Debord, tudo o que era vivido diretamente tornou-se uma representação. É o mundo da mercadoria e do lucro dominando toda a experiência viva. Acompanhando a teatralização de boa parte do mundo, o Brasil de 2026 se transformou em um império da fachada, também chamada de exteriorização da figura.

Por aqui, a experiência direta e autêntica da vida foi trocada pela contemplação passiva. Para os brasileiros, principalmente os que se acham acima da média e que, politizados, se apresentam como seres superiores, o que importa não é a coisa em si, mas a sua imagem. Resumindo a confusão das atuais relações sociais, o ter o ser deu lugar ao parecer, isto é, ao status. Em outras palavras, eu tenho um mito e, se for preciso, mato e morro por ele. Enquanto isso, o bem-estar real e coletivo permanece como discurso eleitoreiro eventual dos mais espertos.

Cada vez mais envolvido em falcatruas escandalosas, consequentemente encrencado com a lei, o andar de cima morre engaiolado, mas não aceita que o de baixo se apresente como capaz de consolidar a democracia centrada nos interesses e nas carências da população e não da elite. Eis a razão do impasse, hoje simploriamente apelidado de polarização, divisão que domina o cenário político do país. É o mundo da mercadoria tentando manter o domínio de toda a experiência viva. É a inversão do mundo, no qual o verdadeiro é apenas um momento do falso.

Por conta das letais discordâncias entre esquerda e direita, notadamente entre esquerda e extrema-direita, a política brasileira se transformou em espetáculo voltado para o sensacionalismo barato e desviador de focos. A eleição presidencial está próxima. Em decorrência do imbróglio entre os coadjuvantes André Mendonça e Alexandre de Moraes, o lado B do candidato que mente a rodo foi esquecido. Alguém criou um show para tirar o outro do cartaz. Simples assim. O problema é que, além de caro, o ingresso não tem reembolso. Escolher um lugar errado na plateia pode significar anos, às vezes décadas, de retrocesso agudo. Embora muitos tenham esquecido, sequer registrado, vivemos a dramatização do nosso cotidiano não faz muito tempo.

Os progressistas que sobreviveram jamais esquecerão o período em que a vivência real foi amplamente preenchida pela encenação amadora, tirânica e cujos objetivos sempre buscaram a idiotização do povo. Na época, vivemos o pior dos mundos. Os reflexos são sentidos até hoje. E não é perseguição, falta de assunto ou de “vítimas”. São os fatos. O episódio que encalacrou de vez os ministros do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes e André Mendonça é a prova da continuação do show iniciado nos tempos de Deus, Pátria e Família. A diferença é que, antes, o dono do circo só se preocupava com o espetáculo de palhaçaria. Hoje, um de seus discípulos não se incomoda em escancarar os bastidores, ainda que vire um dos náufragos.

Para os que se acham acima da lei, pouco importa a beleza da seriedade. Importante é agradar ao produtor do show e à plateia que, do jeito que vamos, jamais fará uso dela. É o que estamos vendo no atual desrespeitoso, faccionado e pobre Supremo Tribunal, o imaginário guardião da Constituição e sustentáculo da democracia. De modo a evitar que a eleição presidencial que se avizinha seja contaminada, o eleitorado brasileiro clama por soluções rápidas e capazes de estancar de vez a sangria da Corte. Do alto de seus 135 anos de existência, o Tribunal é muito maior do que Moraes e Mendonça, ministros que, fora das togas, com os ternos que já viraram estopa, pulam como sapo para ver se escapam da praga chamada Daniel Vorcaro.

Ávidos por ouvir sobre projetos que tirem o Brasil do atoleiro, os cerca de 160 milhões de eleitores não se conhecem mais a si mesmos. Quanto mais eles reconhecem a própria vida nas imagens do espetáculo circense do STF, menos a compreende. Sobre os dois ministros, vale lembrar um pensamento de Oscar Wilde, para quem ética é o conjunto de coisas que as pessoas fazem quando todos estão vendo. “O conjunto de coisas que as pessoas fazem quando ninguém vê chamamos de caráter”. Na verdade, da falta dele. Ameaças sem provas e respostas duras, mas questionáveis, não reduzirão o desgaste do STF. A encruzilhada obriga o ministro Edson Fachin, presidente do Tribunal, a botar literalmente o pau na mesa e provar a todos os brasileiros, inclusive seus colegas de Corte, que não basta que todos sejam iguais perante a lei. É preciso que a lei seja igual perante todos.

……….

Armando Cardoso é presidente do Conselho Editorial de Notibras

Publicidade
Publicidade

Copyright ® 1999-2026 Notibras. Nosso conteúdo jornalístico é complementado pelos serviços da Agência Brasil, Agência Brasília, Agência Distrital, Agência UnB, assessorias de imprensa e colaboradores independentes.