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Afagos na feiura

A beleza que nunca tive

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Autor/Imagem:
Eduardo Cesario-Martínez - Foto Irene Araújo

A beleza, dizem, está nos olhos de quem vê. Meu cachorro me ama! Ele costuma esfregar o focinho nas minhas mãos, como se quisesse extrair o máximo do meu ser. O problema que vejo nisso é um tanto constrangedor. É que o Pancho parece ter fetiche por carniça, haja vista as incontáveis vezes em que o flagrei se esfregando em algum animal morto. Pior, quanto mais fedida, mais o meu companheiro se enche de entusiasmo.

Minha mãe, talvez por não ter o olfato apurado do Pancho, vez ou outra, se desculpa pelos genes que herdei.

— Edson, você entende, né? Milhões e milhões de possibilidades, a combinação não deu muito certo no seu caso. Mas eu te amo, viu?

Não duvido do amor da minha mãe. Digo até que, no caso dela, seja algo tão entranhado, muito mais do que mero vislumbre pelo belo. Diante da incongruência com a beleza, mamãe afaga a feiura que produziu. Carregada de remorso, porém, ela está ali, firme, não arreda o pé.

Simpatia. Esse foi o caminho que decidi trilhar quando cheguei aos vinte anos. Livre das espinhas, apesar de ainda carregar as marcas que elas imprimiram no meu rosto, fiz de tudo para extirpar qualquer sentimento mesquinho que, porventura, cismasse em rondar a minha mente. Tornei-me, creio, um tipo entre apaziguador e conselheiro. E foi assim que, logo após Ludmila se embebedar por uma desilusão amorosa, me ofereceu seus lábios pela primeira vez.

— Te amo, Edson.

Tal frase não carecia de honestidade. Há momentos na vida em que nos empolgamos, seja por falta de algo ou desilusão. E Ludmila estava carente de tudo.

O romance, se é que posso chamar assim aquilo que tivemos, não durou mais do que duas ou três ressacas. Todavia, foi o suficiente para que um certo orgulho se fizesse presente no meu coração. Por pouco, quase deixei tudo a perder até que voltei a fingir a simpatia calculada.

Arlete, colega de trabalho, desiludida com o casamento, encontrou em mim o ouvido perfeito. Pacientemente, escutei todas as lamúrias daquela que se tornou a mulher da minha vida durante o verão de 1982. E ela me pareceu perfeita, tantos carinhos, beijos atrevidos que jamais imaginei possíveis.

Tudo perfeito, até que Arlete, do nada, logo após uma tórrida noite de amor, despertou, me fitou com aqueles lindos olhos castanhos e foi acometida por uma sinceridade desnecessária:

— Edson, meu amor, mas tu é bem feinho, hein!?

Acabou ali.

Elaine, Rosana, Marcela, Rita, Ana Flávia, Zenaide… Ah, Zenaide! Que saudade dos seus afagos. Roberta, tão impetuosa. Vânia, Letícia, Ruth, Gertrudes, Maria de Fátima… Recordações que me consolam nas noites solitárias.

A velhice chegou e não me levou a beleza que nunca usufruí. Digo até que eu me acostumei com o reflexo que cisma em aparecer no fundo do espelho quando resolvo me barbear. Pra quê?

……………………

Eduardo Cesario-Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).

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