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O fabuloso destino de Aderbal Vaz Ferreira (Parte 1)

Culinárias, solidão e peregrinação

Publicado

Autor/Imagem:
J. Emiliano Cruz - Foto Francisco Filipino

Aderbal estava com sua pequena mala pronta.

Seu patrão havia morrido e os advogados lhe disseram que a casa seria fechada.

Do seu jeito, o doutor Otávio sempre o tratara bem.

Desde que Aderbal se lembrava, ele e a precocemente falecida esposa do patrão, dona Adélia, foram a única família que conheceu.

Satisfeito, o patrão costumava dizer quando se sentava à mesa:

— Aderbal, você nasceu mesmo para cozinhar! O que temos para hoje?

Ele cozinhava, fazia a feira e coordenava o trabalho dos outros serviçais que não moravam na residência.

O seu único lazer consistia em assistir à TV no seu pequeno quarto durante as horas de folga. Além das caminhadas entre a residência e a feira que ficava no bairro vizinho, essa era a singular janela que o ligava ao restante do mundo.

Nunca reclamou, apesar de não receber salário. Estava satisfeito em ter casa, comida e um trabalho, esse era o seu jeito de ser feliz.

Agoniado, olhava para a casa silenciosa e experimentava um doloroso sentimento de vazio. Agora, o seu mundo havia desabado.

Sabia que tinha que sair e que nunca mais poderia voltar. Mas para onde iria? Tudo o que conhecia da cidade advinha da televisão.

Vestia o melhor dos ternos usados que possuía, presentes que o doutor Otávio sempre lhe dava nas datas do seu aniversário.

Hesitante, Aderbal pôs-se a andar a esmo.

Após uma hora de caminhada, de Higienópolis até o centro velho, desavisadamente embrenhou-se em uma viela de péssima reputação.

Sem mais nem menos, um rapaz com um cigarro na boca encostou uma grande faca no seu peito.

— Quem é você, almofadinha? É da polícia? Ou trabalha para o Cenoura da Santa Efigênia?

— Não sou da polícia, respondeu Aderbal com a sua habitual serenidade.

— Olha aqui, coroa, fala para o Cenoura que não vou pagar o que ele está pedindo! No máximo, fechamos negócio pela metade do preço, caso ele garantir vinte pacotes de erva por semana. Diga que essa é a última proposta do Dadinho da Sé, tá entendido?

— Sim, está entendido, darei o seu recado para o Cenoura. Tenha um bom dia!

Acostumado a atender prontamente as solicitações do patrão, Aderbal tomou a ordem do rapaz como uma missão.

Após mais uma peregrinação e muitos pedidos de orientação aos transeuntes com quem cruzava, ele conseguiu chegar ao bairro Santa Efigênia.

— Preciso dar um recado para o Cenoura, o amigo sabe onde posso encontrá-lo? — saiu perguntando.

Após questionar mais de vinte frequentadores do bairro, um homem corpulento o interpelou:

— O que quer com o Cenoura, playboy? Está procurando treta? Por acaso você é da polícia?

— Não sou da polícia, tenho um recado do Dadinho da Sé para o Cenoura. É você?

— Talvez! Qual é o recado?

Concentrado, Aderbal fez uso da sua excelente memória:

— Ele disse que paga a metade do preço proposto se for garantido vinte pacotes de erva por semana. Essa é a última palavra dele.

— Vou pensar, mas preciso de uma semana para enviar o primeiro lote. É só isso?

— Sim, ele não falou mais nada.

— Então está certo, agora cai fora daqui!

Satisfeito por ter cumprido a missão, Aderbal decidiu entrar no metrô pela primeira vez na vida. Após fazer baldeação nas estações Sé e Paraíso, aleatoriamente desembarcou na avenida Paulista.

Curioso, decidiu entrar em um shopping da mais famosa avenida paulistana. Lembrava de já ter visto aquele ambiente em reportagens e comerciais da TV.

Encantado, parou em frente a uma loja de eletrodomésticos que exibia inúmeros aparelhos de TV na vitrine. Recuou alguns passos para apreciar melhor o conjunto do espetáculo e, sem se dar conta, aproximou-se perigosamente da beira da escadaria que estava as suas costas.

Distraída, uma jovem senhora que caminhava apressadamente — carregada de sacolas de compras — esbarrou no seu peitoral. Foi o que bastou para ele despencar escada abaixo.

Assustada, a mulher gritou:

— Jarbas, ajude aquele senhor!

Após a mulher e o seu motorista/segurança aproximarem-se do infeliz, ela perguntou, aflita:

— O senhor está bem?

Atordoado e com uma careta de dor, Aderbal conseguiu mal articular:

— Meu braço está doendo muito…

— O senhor está sozinho? Consegue levantar?

— Sim, estou só. Não sei…

— Nós vamos levá-lo a um hospital! Jarbas, ajude-o a se levantar. Qual é o seu nome e a sua profissão?

Com a voz cada vez mais embargada em função da intensa dor, Aderbal replicou de forma truncada sem conseguir completar a frase:

— Aderbal… faz… feira…

— Aderbal Vaz Ferreira? Muito prazer, eu sou Helena Drummond. Não fale mais, Jarbas vai ajudá-lo a caminhar até o nosso carro.

Já dentro do carro, a mulher deu nova ordem ao motorista:

— Jarbas, vamos para a nossa casa no Morumbi, vou ligar para o nosso médico!

Olhando para Aderbal, Helena argumentou:

— Está melhor? Assim o senhor será examinado mais rapidamente… e lá em casa temos tudo o que é preciso para medicá-lo. Sabe, melhor não registramos o acidente… não se importa, não é mesmo?

— Está certo, Helena, muito obrigado, concordou ele de pronto.

Realizados os primeiros exames e para alívio de todos, constatou-se que a queda havia provocado apenas uma dolorosa luxação, não havendo nada quebrado.

Outrossim, Norberto Drummond, o marido octogenário de Helena, após informar-se do ocorrido, pôs-se a conversar com Aderbal.

— O Aderbal é uma pessoa muito distinta e cordial, Beto!

— Então, Aderbal, qual é o seu ramo de atividade? Permita que eu diga que o amigo se veste muito bem!

— Obrigado, amigo Norberto, mas nem chego a seus pés! Bem, eu cozinho, gosto de fazer a feira… enfim, administrava uma casa em Higienópolis.

— Um chef? Ora, que maravilha, admiro muito a sua atividade! Eu sou empresário, trabalho com construção e incorporação, mas admito que sou um chef frustrado! Mas o que houve com a sua casa?

— Hoje, os advogados fecharam a casa, fui desalojado e estou procurando outro lugar para morar.

— Malditos urubus a serviço do capital financeiro predatório, eu sempre disse que esses sanguessugas ainda vão acabar com o nosso país!

— Pois é, Beto! E Jucineide, Onofre e Lourival também ficaram desempregados… Além do doutor Orlando, eles também apreciavam muito os meus pratos!

— Amigo Aderbal, faço questão que você fique hospedado aqui na nossa casa até se recuperar completamente e conseguir se reerguer.

— Agradeço a gentileza, amigo Norberto! Posso fazer uma pergunta para vocês?

— Claro! Faça, por favor.

— Vocês gostam de ver televisão?

— Claro, eu gosto de assistir a Netflix e os canais de esporte, a Helena prefere as novelas e a Ana Maria Braga. Do que você gosta?

— Gosto de tudo um pouco, Netflix, novelas, esportes, realities… e programas de culinária.

— Pode assistir tudo o que quiser, Aderbal! No quarto de hóspedes tem uma TV noventa polegadas com TV a cabo só para você.

— Agradeço muito, dona Helena!

— Bem, vamos deixar você descansar um pouco e recuperar-se do susto pelo qual passou. Amanhã conversaremos melhor no café da manhã, concluiu paternalmente, Norberto.

…………………..

O segundo capítulo (epílogo) do conto O fabuloso destino de Aderbal Vaz Ferreira será publicado nesta quarta (9).

J.Emiliano Cruz [Instagram Jorge23215] é funcionário público federal, escritor e historiador, autor da coletânea de contos “A FELICIDADE E OS RISÍVEIS AMORES DE TODOS NÓS” – Disponível no link da Estante Virtual:

.https://www.estantevirtual.com.br/livro/a-felicidade-e-os-risiveis-amores-de-todos-nos-O4P-6970-000

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