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Queria morrer

Chá de sumiço

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Autor/Imagem:
Cadu Matos - Foto Francisco Filipino

Agenor queria morrer. Não que sofresse dores contínuas e dilacerantes, causadas por alguma doença terminal; seu desapego à vida era antes a manifestação de uma depressão pesada, o resultado de uma sucessão de derrotas, fracassos repetidos que o foram invisibilizando, tornando-o praticamente desapercebido aos olhos de todos. Desaparecer para sempre, sumir deste mundo passou a ser, assim, um projeto acariciado, o triste fim de uma triste existência.

Só que ele não pedia aos céus: “Eu quero morrer”. Num último lampejo de respeito aos poucos parentes (amigos não tinha mais, fazia tempo), suplicava: “Eu quero sumir”. Era uma preocupação em não lhes dar trabalho, não lhes legar um cadáver – na verdade, um cuidado descabido de vivente. Que os mortos são egoístas, não pensam em ninguém, simplesmente não pensam. Mas ele ainda não havia chegado a esse estágio de indiferença, de egoísmo absoluto, ainda respirava, então pedia a deuses e demônios, tanto fazia: “Eu quero sumir”.

E um dia os deuses ou demônios, tanto fazia, atenderam a suas súplicas.

Agenor desmaterializou-se em seu apartamento, de madrugada. Corporificou-se de novo quatro dias depois. Tentou inutilmente recordar o que havia visto, sabia apenas que fora algo belo e grandioso, mas que se desvanecera de seu psiquismo. Sobrara apenas aquela sensação de encantamento, testemunho de que valia a pena estar vivo para poder compartilhar tais coisas neste mundo.

Ele preparou-se durante dois dias, antes de repetir o mantra do que chamava de “chá de sumiço” e desaparecer. Voltou três dias depois, com a sensação de ter presenciado algo pavoroso, por sorte esquecido de imediato. Era esta a mecânica dos sumiços: a invocação, a desmaterialização, a corporificação não sabia onde, para viver ou presenciar não sabia o quê. E depois o retorno a seu apartamentinho de pobre. E o esquecimento. Por vezes, sentia haver experimentado prazeres inenarráveis, outras vezes, sofrimentos indizíveis, mas tanto uns quanto outros, obedientes a esses adjetivos, recusavam-se a ser vocalizados. Permaneciam fortes em sua mente e seu espírito, tornando-o mais vivo. No entanto, no momento em que os evocava – e tentar recordar o que havia visto ou realizado era inevitável – desfaziam-se como fumaça de sonho.

Certa noite, prestes a encarar mais um chá de sumiço, Agenor recordou uma história ouvida ou lida havia muito. Um camponês, não se sabe como nem por quê, apoderou-se de uma bolsa mágica. Em seu interior, contaram-lhe, havia uma valiosa moeda de ouro e, quando era removida, outra se materializava. Ansioso, abriu a bolsa e viu a moeda reluzente; já ia retirá-la, para ver a materialização da moeda seguinte, quando um pensamento deteve sua mão.

“Minha mulher está na cozinha, ao lado, e meus filhos correm pelo casebre. Eles não podem saber, muito menos ver, do contrário podem dar com a língua nos dentes”.

Refletiu com mais vagar no assunto e concluiu que a riqueza mágica era muito perigosa. Não podia, por exemplo, utilizar a moeda para comprar mais coisas do que o habitual, ninguém dispunha de ouro na aldeia. Podia dizer que a havia encontrado, mas a notícia cedo ou tarde chegaria aos coletores de impostos, e pior, aos assaltantes locais, aos soldados do governo, tão ávidos e impiedosos quanto os malfeitores… E se acumulasse milhares de moedas e partisse com a família para uma terra distante, iria fazer o quê? Não conhecia ninguém na cidade, não exercia ofício urbano algum, sabia apenas cultivar a terra. Iriam acusá-lo de roubo, seria torturado para revelar onde estava o restante do tesouro e terminariam por executá-lo.

Ainda assim, o camponês não resistiu à tentação de vivenciar a magia. Pegou a moeda e assistiu, maravilhado, outra se materializar. Em seguida, partiu com a peça de ouro e a bolsa e as enterrou num trecho deserto.

Ao lembrar desse desfecho, Agenor sorriu com tristeza.

“Pelo menos o camponês testemunhou o milagre, teve o ouro nas mãos e pode lembrar de tudo”, pensou. “No meu caso, quando tento rememorar o que vivi, tudo se desvanece”.

Ainda assim, a adrenalina dos maravilhamentos e horrores experienciados em seus sumiços o conserva mais vivo que nunca. Ele tem certeza de que, quando a magia se desfizer e a depressão braba retornar – algo que sabe inevitável –, a súplica assumirá a forma de um “Eu quero morrer!” imperioso. E ai dos deuses e dos demônios, tanto fazia, se não o atendessem!

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