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Fábulas improváveis

“Variações sobre o homem do saco…”

Publicado

Autor/Imagem:
Gilberto Motta - Texto e Foto

“A vida é um intrincado processo químico-cultural. A alma e os dias, a gente tem que preencher com curiosidade e prazer”, pensou o jovem monge andarilho.

MANHÃ

O vilarejo existia às margens da pequena rua de terra, uma tripa central.

Sentadas no alpendre da velha casa, a menina trançava os longos cabelos púrpura da avó:

“Avó, como posso ultrapassar esta quarentena? A gente vai morrer?

“Beatriz, a quarentena é um período especial, misterioso e sagrado. Mesmo quando fora de controle. Nos meus dias, os recém-nascidos só podiam sair de casa pela primeira vez após 40 dias de vida. Nesse tempo eram preparadinhos pra viver. É o período que produz uma grande mudança “.

TARDE

“E como a gente se prepara pra mudança, avó?

“Com ações simples, verdadeiras, amorosas. Todas as manhãs penteia os teus cabelos longos com dedicação e liberta todos os nós, mesmo os mais escondidinhos, Fia. É hora de colocar todos os nós no pente. Depois, desembaraça os novelos de lã com paciência; você vai querer achar o final do novelo, mas é preciso fazer devagar. Aí você criar a ordem fora e dentro de você. Desatando os nós, com as tuas mãos jovens, você vai descobrir os teus nós lá de dentro”.

NOITE

“Tá, mas e depois de desfazer os nós, o que posso fazer, avó?”

“Arranca todo o cabelo que já está morto. Os povos antigos acreditavam que o defunto ficava no corpo do morto por 40 dias. Nesses 40 dias, minha filha, eles rezavam e esperavam. Antes, jogavam as roupas dele fora; abriam bem as janelas da casa para deixar sair o ar ruim, e pensavam em coisas boas. Era a hora do espanto e do novo.

Avó, tenho medo que depois do isolamento nada mude. A gente esquece? E agora, avó?

A velha senhora fez um longo silêncio; depois finalizou:

“Vida, Bia, viva a vida…e Coragem!”

Beatriz terminou a longa trança e a avó foi dormir.

OUTRA MANHÃ

O jovem monge bateu palmas no portão.

Beatriz foi atender:

“O senhor é o matador de porcos?

O senhor é a “besta-fera”?

O senhor é o sábio da salvação?

O senhor é o cão do redemoinho?

O senhor é o capitão do mato?

Ou o senhor é a lesma equilibrista no fio da navalha?

(?)…

“AVÓÓÓÓÓ… em uma ‘coisa’ enrolada num lençol vermelho lá no portão…ele tem cara do “homem do saco”!”

O jovem monge olhou para a menina e seguiu refletindo, em absoluto silêncio:

“Não, Beatriz. Eu sou apenas a imagem cortante de seus mistérios refletida no espelho de teus medos mais profundos”.

A avó a tudo assistia pela janela lateral da velha casa velha amarelada.

Fechou a janela enquanto Bea foi voar no balanço do quintal.

……………………………….

Gilberto Motta é escritor, poeta, jornalista e pesquisador. Beatriz é a menina encantada que o habita há décadas. Ele vive na vila da Guarda do Embaú, litoral Sul de SC.

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