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Mentiras

Brasília, os jabutis e os tubarões sanguinolentos

Publicado

Autor/Imagem:
Gilberto Motta - Texto e Foto

Certo dia, o mestre e os discípulos entraram em uma cidade bem estranha. Toda de cimento armado, com prédios desenhados e construídos em formas geométricas exatas, “limpas” e funcionais. Grandes avenidas e blocos de prédios formando aglomerados separados. Cidade racional, estética cubista.

Pararam em frente a um conjunto diferente: duas imensas torres com mil janelas e um imenso prédio térreo horizontal. Sobre o teto, duas enormes estruturas com o formato de xícaras de café: uma com o fundo assentado e a outra virada de bruços.

Pararam e o mestre perguntou a um homem, já de idade avançada, que, acocorado, procurava por algo em um buraco no imenso barranco que circundava o rio.

“Aqui é Brasília? O que fazes, velho homem?”

O homem respondeu-lhe com secura:

“Claro que é Brasília, cara! Procuro jabutis ou tubarões no esgoto; e isto é problema meu, tá!”.

O Mestre concordou com a cabeça, olhou para os discípulos e seguiram a jornada.

No início da tarde, um dos seus seguidores aproximou-se do mestre e quis saber o significado daquela conversa.

O humilde sábio resumiu em voz baixa:

“Nas estranhas, nos esgotos de todo corpo é que está escondida a Verdade. A fé remove montanhas, mas é preciso desejar dar o primeiro passo”.

E seguiram.

O grupo de andarilhos sentou embaixo de uma das poucas árvores existentes na grande cidade. O mestre tirou um pequeno caderno do alforje e escreveu quatro versos-pensamentos de viagem:

1.
CICLONES EM MOVIMENTO

“Nós? / massa / sonhos e sangue e carne / mistura de ideias e sons / moscas zumbindo mundos / ciclones em construção”.

2.
SOPA DE ÓDIOS

“O caldeirão humano / uma sopa de infinitos morcegos / lacraias / e cassandras / veneno potente / destilado secretamente / em bilhões de doses / pelos mamutes”.

3.
A FÓRMULA LIBERTÁRIA

“A vida é um intrincado processo químico-cultural / a alma e os dias / é preciso preencher / com generosas doses de paciência / caráter / e respeito coletivo”.

4.
VENENO E PODER

“Creio que naquelas xícaras do grande prédio / está a metáfora sanguinolenta / onde a Verdade escorreu da que está virada / e o veneno fatal fermenta dentro da outra xícara”.

Na manhã seguinte, pouco antes de deixar a cidade, o mestre pediu a um discípulo para entregar a folha com os seus escritos a um dos guardas dos Dragões da Independência que vigiava a entrada daquele prédio com as xícaras sobrepostas de forma oposta. As quatro pequenas histórias e um pensamento final:

*Prezado senhor Presidente do Congresso Nacional brasileiro:

“A fé remove montanhas, mas a mentira, a teimosia e a estupidez têm raízes profundas e insondáveis: jabutis não sobem em árvores e tubarões não usam coleiras. O povo simples e sofrido a tudo vê”.

……………………..

Gilberto Motta é escritor, poeta, jornalista e pesquisador de formas e sentidos. Esteve uma vez em Brasília e pensou que aquele prédio com as xícaras fosse uma grande cafeteria. Vive na Guarda do Embaú, vilazinha de pescadores no litoral de SG.

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