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Antirrábica neles

Notibras vacinará amigos cães e cadelas

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Autor/Imagem:
José Seabra - Foto Francisco Filipino

Notibras nasceu em 1999, quando a internet brasileira ainda engatinhava e ninguém sabia direito onde aquela novidade iria parar. Nós fomos em frente. De Brasília para o mundo, ou pelo menos para quem estivesse disposto a nos ler.

Passaram-se 27 anos. Os cabelos escureceram pouco e embranqueceram muito. Hoje, boa parte da equipe de Notibras é formada por profissionais de cabelos prateados. Gente que gastou sola de sapato, paciência e alguns nacos da própria vida nos corredores acarpetados da Praça dos Três Poderes e da Praça do Buriti.

Alguns continuam pisando por lá. Outros se aposentaram oficialmente, mas esqueceram de se aposentar do jornalismo. E assim seguimos.

Não temos um cofre mágico escondido debaixo da redação, não encontramos petróleo no quintal e tampouco descobrimos a fórmula alquímica capaz de transformar audiência em barras de ouro. Para manter Notibras no ar, esses velhos jornalistas — e uso “velhos” com a dignidade que a palavra merece — chegam a tirar algum dinheiro do próprio bolso. Pouco, porque aposentadoria de jornalista nunca produziu milionário, mas suficiente para ajudar a manter viva uma ideia.

Nosso compromisso sempre foi informar e interpretar a notícia. Traduzir os fatos, torná-los compreensíveis, procurar aquilo que se esconde atrás das cortinas sem sacrificar credibilidade ou isenção. Só que isenção não significa cegueira e imparcialidade jamais foi sinônimo de covardia.

Há momentos em que o jornalista precisa abandonar o perfume das palavras diplomáticas e chamar determinada coisa pelo nome que ela tem. Foi pensando nisso que me lembrei de uma conversa ocorrida há cerca de um ano. Eu estava na praia quando tocou o telefone, chamando, do outro lado da linha, a minha neta mais velha. Ela veio com uma proposta dessas que avô algum consegue recusar.

— Vô, se eu passar no vestibular, ganho um carro para ir à faculdade?

Pensei alguns segundos, mais por formalidade do que por dúvida. Pedido feito e acordo fechado, mas havia a preocupação com o calendário. Ela precisava atingir a idade necessária para conseguir a carteira de habilitação. O resto, para mim, era detalhe. Culta, inteligente e determinada, sua entrada na universidade não me parecia aposta. Parecia questão de tempo.

O que me surpreendeu foi a escolha pelo curso de Medicina Veterinária. Perguntei:

— Por quê?

A resposta veio rápida, certeira e gramaticalmente perfeita:

— Para aplicar vacina antirrábica em seus amigos cachorros, e não nos cachorros dos seus amigos.

Confesso que ri, como avô.

Só não sabia que, algum tempo depois, voltando a Brasília, descobriria que aquela menina talvez tivesse escolhido a profissão certa pelas razões erradas. Ou pelas razões certas demais, até porque, os cachorros dos meus amigos não me preocupam. São criaturas dignas que abanam o rabo quando gostam de alguém, rosnam quando não gostam, mordem quando estão assustados ou ameaçados, não fingem amizade para conseguir contrato, não convidam para jantar pensando em orçamento público e muito menos telefonam perguntando pela saúde, quando, na verdade, querem saber se existe algum negócio andando.

Cachorro, quem tem, não dissimula afeto para lavar dinheiro. O problema são alguns amigos cachorros e algumas amigas cadelas, permanentemente no cio.

Brasília me ensinou, depois de tantos anos, que amizade é palavra cara demais para ser distribuída como panfleto em semáforo. Os amigos são poucos, os conhecidos são muitos, os interessados formam multidões e hienas aparecem quando sentem cheiro de carniça.

Minha surpresa, ao regressar, foi descobrir algumas rondando a porta, farejando uma carniça que simplesmente não existe. Talvez tenham imaginado que 27 anos de Notibras significassem 27 anos de cofres abarrotados. São uns pobres coitados. Se abrirem nossas gavetas procurando dinheiro, encontrarão contas, fotografias antigas, textos, lembranças e provavelmente algum boleto vencendo amanhã.

Mas há gente que não acredita. Principalmente quem se acostumou a olhar o dinheiro público como se fosse água suja escorrendo pela calçada. Para esses, basta aparecer um escovão. E começa a lavagem.

Brasília tem lavanderias que não aparecem nas listas telefônicas, não exibem letreiros luminosos e jamais devolveram uma camisa engomada. Funcionam em ambientes refrigerados, atrás de portas bem fechadas, onde certas relações de conveniência podem se fantasiar de amizade, e interesses particulares procuram vestir o paletó do interesse público.

O sabão é sempre dos outros, porque sai do bolso do contribuinte.

O escovão pode assumir a forma de um contrato, de uma consultoria de utilidade duvidosa, de um serviço cujo preço parece ter aprendido a multiplicação antes mesmo de aprender a somar. Tudo metaforicamente, claro. Porque estamos falando dessa fauna imaginária que povoa a capital das nossas desilusões.

É na capital onde joga-se água, passa-se sabão e esfrega-se o escovão. E aquilo que deveria ser transparente começa a produzir muita espuma, a ponto de esconder o fundo do tanque. Há lavagens delicadas, outras pesadas e até lavagem a seco, especialmente recomendada quando convém não deixar digitais molhadas pelo caminho.

Na lavanderia metafórica do poder, porém, existe a infame curiosidade de que quanto mais se lava, mais sujo fica o ambiente, porque a sujeira não desaparece e apenas muda de bolso.

E em volta dessa lavanderia circula uma fauna igualmente peculiar. Tem o cachorro que vigia a porta, a cadela que fareja oportunidades, a hiena que ri enquanto espera as sobras e o papagaio encarregado de repetir que tudo está rigorosamente dentro da lei. Naturalmente que não falta o pavão, exibindo patrimônio, influência e amizades como se as penas tivessem nascido junto com ele.

Quando o dinheiro é público, alguns desses animais metafóricos parecem desenvolver um olfato extraordinário. É quando sentem o cheiro de uma verba a quilômetros, percebem um contrato antes da publicação, e farejam uma oportunidade antes mesmo de ela existir. E, quando encontram o pote, comportam-se como se o Tesouro tivesse sido criado por decreto divino exclusivamente para alimentar suas tigelas.

O mais curioso é que, depois da lavagem, todos aparecem limpinhos, perfumados, engomados e, creiam, alguns até supostamente indignados com a corrupção. Essa é uma das maravilhas da química brasiliense, onde o dinheiro entra no tanque com cheiro de imposto e pode sair cheirando a negócio privado.

O contribuinte paga o sabão, a água, a energia e ainda corre o risco de receber a conta da lavanderia, enquanto o esvocão está ali, limpando até o fundo do tacho..

Não afirmo que toda amizade interesseira esconda um negócio, porque isso soaria  irresponsável, como também não digo que todo contrato público seja suspeito, o que, convenhamos, seria estupidez.

O que digo é outra coisa. Depois de mais de meio século convivendo com notícia e 27 anos mantendo Notibras de pé, aprendi que determinados afetos possuem calendário. São os que nascem quando surge uma oportunidade, florescem quando aparece dinheiro e morrem quando descobrem que você não tem nada para oferecer além de amizade e espaço editorial com credibilidade.

Foi isso que encontrei na volta, e observei que alguns velhos conhecidos talvez tenham confundido amizade com balcão, imaginando existir uma porta secreta para algum banquete. Chegaram mesmo a bater, farejaram e circularam em vão, quem sabe procurando a carniça.

Porém, não encontraram. Porque em Notibras não há carniça, mas jornalismo. E jornalismo independente, mesmo pobre, tem a extraordinária vantagem de não precisar abanar o rabo para receber ração.

Foi quando compreendi definitivamente a frase da minha neta. Talvez Medicina Veterinária seja mesmo uma excelente escolha, mesmo sabendo que precisarei alertá-la de uma dificuldade profissional. É que a faculdade ensina anatomia animal, fisiologia, microbiologia, farmacologia, clínica, cirurgia e tantas outras disciplinas necessárias para cuidar das criaturas que Deus colocou no mundo sem lhes dar a capacidade humana da hipocrisia.

Mas talvez não ensine a tratar certa espécie brasiliense. Para esses exemplares, a vacina antirrábica comum pode não funcionar; avalio mesmo que seria necessária uma fórmula especial contra ganância, oportunismo, traição, mentira e essa doença particularmente resistente chamada dinheiro público fácil.

Como não sei se algum laboratório conseguirá produzi-la, até lá, continuaremos aqui, com os cabelos cada vez mais prateados, os bolsos provavelmente cada vez mais vazios, mas a redação funcionando, com Notibras interpretando a notícia e tentando sobreviver sem colocar coleira no pescoço de ninguém.

Aos cachorros dos meus amigos, meu carinho. Aos meus amigos cachorros, aviso que minha neta vem aí com seu diploma e jaleco de veterinária. Quanto às hienas, que continuem procurando a carniça em alguma metrópole, porque aqui não tem. E o escovão da casa serve para lavar a redação, jamais o dinheiro público.

Post scriptum – Voltando a Brasília, passei a ter um novo amigo. Um Poodle afável, gentil, que conquistou minha confiança, numa reciprocidade verdadeira. Do alto do seu gabinete, ele procura, mesmo que aos trancos e barrancos, ajudar a jaguatirica a continuar com seu trabalho. O problema é que, em uma sala logo abaixo, há uma cadela que não vale o que hienas e urubus deixam para trás.

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José Seabra é CEO fundador de Notibras

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