Curta nossa página


Cosme e Damião e Doum

26 de setembro

Publicado

Autor/Imagem:
Ana Paula Rocha - Texto e Foto

Eu cresci em uma família mista, com crenças e religiões bem diferentes.

Enquanto minha mãe ia para as preces no “centro de mesa”, meus avós frequentavam centros de outras denominações. Nós íamos mais com minha avó, principalmente nas datas comemorativas.

26 de setembro era minha favorita.

Antigamente, tínhamos alguns centros, hoje conhecidos como barracões ou terreiros, que distribuíam doces de São Cosme, São Damião e Doum. Nesse dia, não tinha escola certa. Todos matavam aula.

Eu, sempre gordinha, não aguentava correr com a molecada e acabava ficando para trás. Tinha um centro específico que ficava próximo à minha casa e para onde ia muita gente famosa. Na época, davam brinquedos caros, como bonecas Barbie e bolas de couro.

Eu gostava mesmo era de entrar escondida para pegar bolo, que tinha aos montes. Era cada tábua enorme!

Certa vez, fomos buscar na padaria e tinha toda aquela coisa de controle na distribuição. Marcavam a gente com carimbos. Alguém passou perto, esbarrou em mim e meu braço ficou marcado com o carimbo borrado. Cismaram que eu tinha pegado e voltei para casa sem meu saquinho.

Rodamos o dia inteiro na busca de quem pegava mais doces. Era uma disputa gostosa.

Meus primos tinham vasilhas grande, com uma enorme variedade de doces. Eu não consegui pegar muitos, né…

Foi então que passamos pelo centro lá da rua e, para minha surpresa, um dos meninos lançou um desafio:

— Quem passar a mão na imagem vai poder escolher cinco doces do meu vasilhas.

Não pensei duas vezes. Fui lá, coloquei a mão na imagem e fiquei de olho entre o portão e o outro lado, para dentro do centro.

A imagem era grande. Tinha um homem moreno, alto, com uma capa vermelha, sem blusa, cabelos negros e, da cintura para baixo, era o corpo de um animal, com as patas rachadas. Havia um certo comentário de que aquela era a imagem do dono do centro, mas eu não via semelhança. Ninguém tinha coragem de passar ali.

Hoje, o centro quase não funciona mais. Os outros também foram desativados com o tempo, e somente cinco pessoas continuam na distribuição de bolo com guaraná e saquinhos de doces.

A garotada já não corre mais.

Lá pelos lados da Barra da Tijuca e arredores, fazem filas em algumas ruas movimentadas. Passam carros distribuindo doces, leite em pó e, em alguns casos, até cestas com alimentos perecíveis.

Sempre houve muito boato em relação à distribuição de doces e tal. Eu nunca liguei.

Pelo contrário. Sempre amei e admirei muito esse misto de religiosidade e cultura. A data, para alguns, mudou, e outros preferem seguir a nova data em que se faz a distribuição, em 27 de setembro.

Aqui em casa, eu mesma já distribuí por sete anos e, depois, minha irmã continuou.

Já este ano, não sei como será…

Publicidade
Publicidade

Copyright ® 1999-2026 Notibras. Nosso conteúdo jornalístico é complementado pelos serviços da Agência Brasil, Agência Brasília, Agência Distrital, Agência UnB, assessorias de imprensa e colaboradores independentes.