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Habilidade social

A arte de parecer ocupado

Publicado

Autor/Imagem:
Emanuelle Nascimento - Foto Francisco Filipino

Existe uma habilidade social que não consta em nenhum currículo universitário, mas que aparentemente se tornou indispensável à vida contemporânea: parecer ocupado.

Não necessariamente estar ocupado.

Parecer.

Há uma diferença metodologicamente importante.

A pessoa pode estar sentada há quarenta minutos olhando para o celular, mas, se alguém perguntar, ela está “resolvendo algumas coisas”.

Algumas coisas.

Expressão maravilhosa. Serve para tudo.

“Você está trabalhando?”

“Estou resolvendo algumas coisas.”

“Está estudando?”

“Estou resolvendo algumas coisas.”

“Está fazendo o quê?”

Nesse momento, a investigação começa a ficar invasiva.

A sociedade contemporânea desenvolveu uma verdadeira estética da ocupação. Agenda cheia virou símbolo de importância. Responder mensagens imediatamente parece suspeito. Ter tempo livre produz quase uma confissão de fracasso.

É preciso estar cansado.

Muito cansado.

O cansaço, aliás, tornou-se uma espécie de certificado moral.

Quanto mais exausto, mais virtuoso parece o sujeito.

“Estou sem tempo.”

“Minha semana está uma loucura.”

“Não consegui nem respirar.”

Existe quase uma competição silenciosa para descobrir quem está mais perto do colapso.

Goffman provavelmente encontraria aqui um campo empírico fascinante. A vida social é também uma administração de impressões. Não basta desempenhar determinados papéis; precisamos demonstrar que estamos desempenhando-os corretamente.

O profissional competente precisa parecer ocupado.

O pesquisador precisa parecer produtivo.

A mãe precisa dar conta de tudo.

O professor precisa estar sempre preparando alguma coisa.

O empreendedor precisa estar “construindo”.

O sujeito que tem tempo demais corre o risco de parecer desnecessário.

Eis a ironia: em uma sociedade obcecada por produtividade, descansar tornou-se quase uma atividade clandestina.

Até o ócio precisa ser justificado.

Se você lê, precisa ser para aprender.

Se viaja, precisa produzir conteúdo.

Se pratica exercício, precisa melhorar o desempenho.

Se dorme, precisa dormir oito horas para produzir melhor amanhã.

Quando exatamente começamos a transformar a vida em uma planilha?

Talvez Foucault nos lembrasse que o poder contemporâneo não precisa necessariamente mandar. Ele pode produzir sujeitos que passam a vigiar a si próprios.

Não precisamos mais de alguém dizendo “trabalhe”.

Nós mesmos fazemos isso.

Às vezes até durante o domingo.

A pessoa está no sofá, mas mentalmente está respondendo e-mails.

Está viajando, mas pensando no trabalho.

Está de férias e pede desculpas por não estar disponível.

É uma curiosa forma de liberdade: temos permissão para parar, mas não conseguimos mais.

Talvez a verdadeira rebeldia contemporânea seja dizer:

“Hoje não estou fazendo nada.”

E não completar a frase com uma justificativa.

Nada.

Simplesmente nada.

O mundo provavelmente continuará funcionando.

E, se não continuar, pelo menos descobriremos que talvez nunca tivéssemos tanto controle assim.

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