Curta nossa página


Categorias

A arte de transformar gente em rótulo

Publicado

Autor/Imagem:
Emanuelle Nascimento - Foto Francisco Filipino

O ser humano gosta de categorias.

É quase uma necessidade.

Precisamos saber quem é quem.

O inteligente.

O complicado.

O louco.

O forte.

O fraco.

O interesseiro.

O bonzinho.

O problemático.

Em cinco minutos conseguimos transformar uma pessoa inteira em uma palavra.

É uma habilidade social impressionante e intelectualmente desastrosa.

Becker já havia mostrado como os rótulos não são simplesmente características naturais das pessoas; eles são produzidos nas relações sociais. Alguém passa a ser visto como determinado tipo de pessoa porque existe uma sociedade disposta a classificá-lo dessa maneira.

O problema é que, depois do rótulo, quase tudo passa a confirmar o próprio rótulo.

Se a pessoa reage, é “difícil”.

Se fica calada, é “arrogante”.

Se chora, é “fraca”.

Se não chora, “não tem sentimentos”.

É uma espécie de armadilha interpretativa.

Depois que decidimos quem alguém é, começamos a enxergar apenas aquilo que confirma nossa decisão.

Talvez seja por isso que algumas pessoas passam anos tentando provar que não são aquilo que alguém decidiu que elas eram.

E há uma violência silenciosa nisso.

Porque ninguém gosta de ser reduzido à pior coisa que já fez.

Nem à melhor.

Somos maiores que nossos episódios.

Mauss nos ensinou a desconfiar da ideia de indivíduo isolado: somos corpos, técnicas, gestos, hábitos e relações socialmente produzidos.

Até aquilo que pensamos ser absolutamente “nosso” carrega marcas do mundo.

Então talvez seja prudente antes de definir alguém.

Uma pessoa pode estar cansada e não ser preguiçosa.

Pode estar triste e não ser fraca.

Pode estar distante e não ser arrogante.

Pode ter errado e ainda assim não ser um erro.

Parece óbvio.

Mas a sociedade contemporânea tem uma relação curiosa com o óbvio: frequentemente precisamos de muita teoria para reaprender coisas que deveríamos ter aprendido com humanidade.

Talvez a inteligência esteja menos em classificar pessoas e mais em suportar a complexidade delas.

É menos confortável.

Mas é muito mais verdadeiro.

Publicidade
Publicidade

Copyright ® 1999-2026 Notibras. Nosso conteúdo jornalístico é complementado pelos serviços da Agência Brasil, Agência Brasília, Agência Distrital, Agência UnB, assessorias de imprensa e colaboradores independentes.