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Atos falhos

A beleza humana

Publicado

Autor/Imagem:
Mércia Souza - Foto Francisco Filipino

“Quem se diz muito perfeito,
Na certa encontrou um jeito insosso
Pra não ser carne e osso.”
Zélia Duncan

A humanidade me encanta. Adoro as loucuras de cada ser, adoro pessoas reais, que erram, que sentem raiva, que amam, que se acertam, que brigam, dizem o que pensam e aceitam o outro. Aquelas que se expressam, que sentem medo e alegria. Quanto mais humano, mais eu admiro. Embora a perfeição seja bonita, minha paixão é o ser humano.

Mas, veja bem, não estou falando aqui de desonestidade, falha de caráter ou grosseria. Estou falando daquilo que é humano: o amor, a raiva, o ciúme, os erros cotidianos da essência humana que destroem a monotonia. Pois muito bem dizia um grande amigo meu.

Há quase um ano conheci uma dessas pessoas. É quase um ser humano perfeito para mim, dada a sua humanidade. E, como disse Zélia Duncan:

“Me cobrir de humanidade me fascina e me aproxima do céu.”

Assim é ele. E te confesso que às vezes é um desafio acompanhar, mas é fascinante. Um homem ágil, decidido, falante; grande parte das vezes fala sem pensar muito e, em outras, é meticuloso com gestos e palavras. Pouco a pouco, vou descobrindo sua humanidade.

Um dia ele me diz:

—Tem um gato dentro de casa, comeu meu pão que deixei na mesa. Vou matar ele.

— Que matar? Vai matar nada. Eu digo.

—Vou sim.

Nesse momento percebo o humano; vejo que é da boca para fora.

Uma semana depois, estou eu na casa dele. Ele trabalha. Ouço barulhos dentro do sofá, penso que é imaginação. Ouço novamente, olho, não vejo nada. Ouço outro barulho e me lembro: o gato. Ligo a lanterna do celular, vasculho tudo e encontro, escondidos lá no fundo, uma mãe com um filhote. Envio a seguinte mensagem:

“Tem uma mãe e um filhote de gato dentro do seu sofá.”

Dei um jeito e coloquei os dois para fora. Ele chegou duas horas depois, não havia visto a mensagem.

De madrugada, ouço barulhos no sofá. Assim que ligo a lanterna, a gata sai correndo e erra o local por onde entrou; sobe no armário, derruba vasilhas e, do quarto, ele me grita pelo nome:

—A gata está em cima do armário!

Quando finalmente coloco a gata para fora, ele sai correndo atrás com um balde de água. Na volta, me diz:

— Espantei ela. Vou matar, você vai ver.

Olho para ele e vejo o humano, da boca para fora. Ao invés de corrigir, apenas pergunto:

—Qual é o problema?

—Não gosto de bicho.

Bom, tem quem não goste, então achei normal na minha cabeça.

No dia seguinte, acordamos tarde. Ele continua preguiçoso no sofá e eu faço café. De repente, ele dá um pulo do estofado, saltitando como uma criança que levou um choque. Saio rápido em direção à sala.

—O gato está no sofá, eu ouvi! Me ajuda a tirar o sofá daqui. Ele diz.

Na minha cabeça, era desnecessário tirar o sofá, mas apenas o sigo. Seguimos com o sofá para fora — eu próxima à porta, ele do outro lado. Colocamos o sofá no chão e um filhote de gato, branco, lindo, sai correndo assustado lá de dentro. O bichinho corre desesperadamente em direção à rua por um beco de uns vinte metros, eu acho, e ele corre atrás do gato jogando as britas que encontrou no chão.

O gatinho assustado passa por debaixo do portão. Na rua, há um carro de som e crianças. Na mesma velocidade, o gato entra novamente pelo portão e, na velocidade em que o gato virou, ele também virou! Antes era o gato na frente e ele atrás; agora era ele na frente e o gato atrás, numa velocidade impressionante!

Eu não entendi nada, meu cérebro travou. Na correria, ele bateu em uma mesa de vidro, levantou o vidro agilmente, bateu no muro… e eu apenas coloquei as mãos na cabeça. Ele passou por mim em alta velocidade e entrou em casa; o gato desapareceu.

— Merda! O gato entrou no sofá de novo. Eu disse.

E, nesse momento, compreendi toda a cena e tive um ataque de riso. Ele apareceu na porta, desconfiado, não aguentou e começou a rir comigo.

—Você tem medo de gato? Pergunto.

— Eu não! Mas você viu o monte de dentes dele, arreganhado para o meu lado?

Tive dor de barriga de tanto rir. Prometi não contar, mas é tão humano, tão engraçado e tão real que não resisto.

…………………….

Mércia Souza é escritora, cronista e colunista de jornais e revistas. Com três livros publicados e participação em diversas antologias, encontra na escrita o fôlego para registrar o cotidiano. Mãe e avó dedicada, é apaixonada pela natureza e divide seu tempo entre a contemplação do mar e o desafio das montanhas. Atualmente, reside em Cachoeiro de Itapemirim (ES), de onde extrai inspiração para suas próximas narrativas.

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