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Deserto

A boleia

Publicado

Autor/Imagem:
Castro Oliveira - Foto Francisco Filipino

Deserto. Secura imensa, vegetação nula. O carro avariado na berma da estrada.

Levantou o polegar calmamente debaixo de uma brisa andrógina que arrastava pequenos pedaços de nuvens espectrais. O sol alto lá em cima a queimar-se, a
queimar tudo. Zzzz passou o carro, a luz intermitente da direita, parou…

Ele caminha em sereno sobressalto, nervoso como uma folha a tremer esquecida em árvore morta de jardim. Abre-se o vidro do passageiro, o condutor pergunta-lhe para onde, ele, ele diz que sim e já não se vê nada, apenas o carro a arrancar diluindo-se num horizonte azul indefinido.

O sol queima as escamas de um lagarto frio.

Há um frio vindo da janela, o rádio a gritar uma música fm sem mente, um crucifixo a balouçar no espelho retrovisor, um silêncio comprometedor como se não houvesse gente, nada absoluto, só dor…

Os pneus sugavam pela borracha o asfalto brilhante rolando, humidamente, as rodas rolando, sem mente, atravessando a distância que era oásis de sede e vapor de água esfumando, rolando e rolando as rodas na estrada, o condutor, dentro de si, o condutor, dentro de si, era uma amálgama colorida de ter que chegar ao destino e de ódio pelo calor, estes sentimentos cruzavam-se durante a longa viagem e mutavam-se numa cor azul, de um sentir azul, de um guiar azul sob o céu azul, tremendo, o motor e o passageiro sorriem em segredo, o rádio a gritar uma música fm sem mente, o condutor decidido avança pela estrada manipulando a caixa de velocidades decidido, abre os olhos e RRRRRRRRRRRRRRRR, de repente algo se passa:

“Acabou?”

“Sim, é o que parece, está sem gasolina…”

“Estamos perto de uma estação?”

“Bem, acho que… Tem um cigarro? Estou á tanto tempo sem fumar um cigarro…”

O condutor tira uma mão do volante, vai ao bolso da camisa, tira um pacote vermelho e branco, abrindo a caixa sorriem enfileirados cigarros novos prontos a fumar. Dá-lhe um.

“Ah, obrigado…”

E ao redor ouve-se o som do carro parado, o motor a rosnar enquanto se tenta ligar a ignição, a tentar e a tentar, o rádio a gritar uma música fm sem mente, o som do vento a entrar na janela aberta como se dissesse NUNCA!, o som natural do espaço em redor vasto e desolado, um momento em suspenso, o carro, o rádio a gritar uma música fm sem mente, o vento, o crucifixo a balouçar no espelho retrovisor…

“Penso que há uma estação de serviço não muito longe daqui. Vou até lá!”

“Pode dar-me lume? Estou há tanto tempo sem fumar um cigarro!…”

O rádio a gritar uma música fm sem mente, o motor parado, o vento, a mente ao vento, a paisagem desvanecendo-se gradualmente em humidade que se sente intimamente por dentro, e já não sei quem é que pensa isto, se eu, esta visão ou… O Silêncio em que existo…

O rosnar do motor do carro, uma visão enorme recuando, vê-se agora o globo Terra azul, manchado de nuvens, o fundo do espaço num vácuo negro, imenso, infindo, a visão focando a pupila negra no olho azul, nuvens, Terra, deserto, estrada, carro cinzento, crucifixo a balouçar, a balouçar, o rádio a gritar, o rádio a gritar uma música FM sem mente, a janela do passageiro aberta, uma travagem brusca, RINCH!

Poeira a levantar-se cobrindo o carro.

A porta do passageiro abre-se, ele sai, puxa a navalha para dentro, sorri, caminha de volta para o sítio onde estava, ouvem-se os passos das botas pesadas, o céu é um filme aberto à claridade revelando-se e deslizando em raios puros de gritos de luz, dos negativos saem imagens estampadas de azul, definitivamente azul, uma placa junto à estrada:

“Estação de serviço 6 km…”

O passageiro sorri com malicia e marca com a navalha mais um risco no sinal, sorri com malicia e sai de cena.

Toda a paisagem é um falcão negro que voa desvanecendo-se no sol…

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