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Confia no titio

A boneca mais bonita

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Autor/Imagem:
Daniel Marchi - Francisco Filipino

Quase oito e meia da noite, sexta-feira chuvosa. Ela chegou no seu apartamento na Voluntários da Pátria, em Botafogo, zona sul carioca, deixou a bolsa sobre a mesa, acendeu o abajur e fez carinho no gato.

Um pouco depois, abriu uma garrafa de vinho rosé que havia deixado na geladeira, colocou um disco na vitrola — uma curtição melhor do que o aplicativo de música de alta qualidade — e sentou-se no seu tapete felpudo, começando a pensar nos recentes acontecimentos e em como aquilo afetara seus dias. Tinha uma ponta de enxaqueca, mas o vinho já começava a relaxá-la.

As primas a haviam acusado de querer a discórdia na família.

— Você devia se envergonhar disso, Gisela.

— Você ficou mascarada. Esqueceu das suas origens e vem humilhar os parentes pobres.

— Não tinha necessidade disso. É muita crueldade com um homem velho e doente.

 

Aquelas frases ecoavam circularmente na cabeça da mulher. O tio Miltinho, 74 anos, com enfisema e insuficiência respiratória, estava preso, às voltas com advogados depois da audiência de custódia. E Gisela havia sido, em grande parte, responsável por sua prisão. As primas, ainda morando em Coelho Neto, bairro afastado do centro do Rio, não a perdoavam. Estavam mesmo revoltadas.

E aquilo, em nenhum momento, a fizera ter sequer uma sombra de dúvida com respeito ao acerto de sua decisão.

 

Gisela era executiva numa multinacional e tinha 48 anos. Solteira, sem filhos, morava perto do trabalho e, nos fins de semana, dedicava-se aos seus hobbies e ao trabalho voluntário que fazia numa instituição que cuidava de crianças que haviam sido retiradas das suas famílias em situações de violência de vários matizes.

As primas, ainda moradoras do subúrbio, raramente a viam. Nos últimos anos, o único contato que tiveram fora pelas redes sociais, até que a avó delas, já muito idosa, morreu. Gisela, indo pela primeira vez depois de muitos anos ao bairro de origem, arcou com todas as despesas do funeral. A contragosto, acabou revendo certos parentes. E, por conta de uma atitude sua, o tio Miltinho acabou preso. Sob o ponto de vista das primas, isso era imperdoável.

 

Miltinho era militar aposentado, ganhava razoavelmente. Morava numa grande casa ali mesmo em Coelho Neto, ao lado da mãe muito idosa. Fizera umas quitinetes nos fundos e alugava-as para complementar sua renda. Com os anos, os excessos de todo tipo cometidos ao longo da vida haviam cobrado seu preço. Ele estava fisicamente debilitado.

Quando Gisela chegou na casa da avó para resolver as questões do enterro, Miltinho cumprimentou a sobrinha. Elogiou-a muito na frente dos outros.

— Como você está mudada, minha linda. Titio tem tanta saudade, nunca te esqueço.

A presença forçada daquele homem enojava Gisela. Mas, naquele momento, o importante era resolver o enterro da avó. Miltinho, o único filho sobrevivente, não se prontificara para nada, alegando estar passando por muitas dificuldades, apesar da aposentadoria garantida, o aluguel das quitinetes, o cigarro, a bebida e as churrascadas no fim de semana. Era melhor esquecer outras mágoas, engolir a seco e pagar. As primas também não se movimentaram para cobrir os custos.

Gisela fez tudo que era necessário. Pouco antes de morrer, a avó havia manifestado, para as outras netas, o desejo de que seu corpo fosse cremado. Isso foi providenciado.

Ao fim de tudo, por muita insistência das primas, reuniram-se para um lanche na casa agora vazia. As primas, todas criadas pela falecida avó, estavam perdidas. Queriam saber o que fazer. A prima, bem-sucedida na vida, resolutiva e independente, certamente daria a direção.

Mas Gisela não tinha intenção de se meter naquilo.

— Precisam ver com o tio de vocês. Ele é o herdeiro, mas sei que a vovó fez um testamento há alguns anos. Façam o que preferirem. Se for o caso, fiquem com a casa, e tudo que está dentro. Vendam, aluguem. Eu não tenho interesse em nada, abro mão do que me couber. Se precisarem de advogado, eu tenho um ótimo para indicar, de confiança.

 

O tio Miltinho, sem avisar, chegou na reunião em companhia de uma mulher e uma criança.

— Então meus amores se reúnem para tratar da herança da vovó de vocês e não chamam o tio?

Gisela e uma das primas se entreolharam, curiosas. Houve um desconforto na sala. O homem se dirigiu às parentes:

— Eu quero fazer mais casinhas para alugar. O terreno da mamãe vai ser ótimo para isso. A gente podia entrar num acordo, eu preciso mais que vocês.

Uma das primas se manifestou, contrariada.

— Precisar, todo mundo precisa, tio. Menos a Gisela, que já disse que não vai querer nada daqui.

E nisso havia, por parte da prima, uma ponta de inveja e hostilidade. Não cabia em sua mentalidade o fato de alguém abrir mão da parcela de uma herança. Mas em nenhum momento o valor econômico havia entrado na conta de Gisela. Ela só queria encerrar aquele episódio de sua vida. Acabou se envolvendo uma vez mais, por uma questão de humanidade. Por um sentimento que lhe aflorou após tantos anos. Não queria que a história se repetisse.

A mulher e a criança que acompanhavam o tio naquela tarde intrigaram-na. Quem eram?

Gisela, interpretando um personagem, abaixou-se perto da criança. Era uma menina de uns oito anos, lindinha demais, os cabelos castanhos claros.

Lembrou-se de si mesma naquela idade.

— Quem é essa fofura, tio?

— Elas são minhas inquilinas — explicou Miltinho —, mas acabamos ficando tão amigos que agora a mãe dela e ela estão morando comigo na casa principal. Essa menina tem alergia, a quitinete era muito úmida. Acabou virando minha netinha, não é, Lalá? A mãe vai trabalhar e deixa ela pro vovô Miltinho cuidar…

Gisela olhou para o rosto da mãe da garota. Era uma mulher visivelmente sofrida, em quem a vida depositara uma pesada carga de responsabilidade. Mãe solteira? Viúva com filha? Uma trabalhadora 6×1 como tantas outras, matando um leão por dia para sobreviver nessa porra de mundo.

Era demais para Gisela. O cheiro dos restos do café nas xícaras sobre a mesa, o farelo de pão na toalha, a visão daquela faca com resto de margarina e o queijo amarelo ressecado: tudo aquilo começou a nauseá-la. Ela tinha de sair dali rápido. Era urgente. O café voltava na garganta, ela sentiu a pressão arterial baixando, o coração começou a disparar. De repente ela se viu deslocada. Que gente era aquela? Precisava sair dali, pegar seu carro, alcançar a Avenida Brasil o quanto antes, chegar no Aterro, Botafogo, fazer a curva pra direita no Mourisco e chegar ao seu prédio, estacionar, subir de elevador, abrir a porta de seu apartamento, dar “oi” pro gato, ir para o banheiro, despir-se, tomar um banho demorado. E chorar. Chorar enquanto a água quente molhava seus cabelos, descia pelo seu corpo, lavava sentimentos passados. Uma mistura de mágoa e sujeira que ficava na pele e não saía. Não saía nunca. Por mais que se esfregasse. Tinha nojo.

As primas ficaram chocadas com aquela saída intempestiva. Ela mal falara por quê.

— Eu sempre achei que ela era problemática mesmo.

— Uma egoísta. Só pensa em si mesma. Não tá nem aí pra gente, que ficou aqui trocando fralda da vó até o final. Uma vagabunda.

— Vocês acham que essa de renunciar à herança é altruísmo? Isso é só pra humilhar a gente ainda mais. Ela se acha melhor que nós porque fez faculdade e mora na zona sul.

— Uma figueira seca, isso sim. Tá lá sem filhos, sem marido. Se morrer sozinha naquele apartamento, o gato vai ligar pro SAMU?

 

Resolver o testamento da avó e partilhar entre as primas os caraminguás de uma velha morta ficaria para outra ocasião. Gisela jurou para si mesma que faria algo sobre aquilo. Não era possível deixar como estava. Alguns dias depois, ela faltou ao trabalho e voltou a Coelho Neto. Encontrou Sandra, uma das primas, varrendo a porta de casa. Informou-se do que se passava realmente naquela situação esquisita entre o tio e as inquilinas. De fato, estavam morando na casa dele. A mãe da criança trabalhava em loja, num shopping. Chamava-se Patrícia. A menina, Laleska.

Gisela partiu imediatamente para o tal shopping. Desculpou-se por se meter. A mulher disse que podiam sair dali e ir tomar um café. Sim, Miltinho havia se compadecido da situação delas, achando que a quitinete era muito úmida, não fazia bem à saúde da filha. Ele chamou-as para morarem na casa dele, pelo mesmo preço. E ainda quebrava esse galho cuidando da menina enquanto ela trabalhava. Não, não tinha notado nada de estranho na filha. Pelo contrário, “vovô Miltinho” era amado pela garota. Ele lhe dava presentes. Levava-a e buscava-a na escola.

Era o modo perfeito de se tornar indispensável.

Gisela mexeu o café com a colherzinha, embora não tivesse colocado açúcar. Olhava para Patrícia e tentava encontrar uma forma de dizer aquilo sem parecer uma louca ressentida, uma solteirona amarga querendo destruir a vida de um velho doente. Era assim que as primas a descreveriam. Talvez fosse assim que Patrícia a enxergasse também.

— Patrícia, eu vou lhe pedir uma coisa e você provavelmente não vai gostar.

A mulher ficou séria.

— Não deixe sua filha sozinha com ele.

— Como assim?

— Não deixe Laleska sozinha com o Miltinho. Nem por alguns minutos.

Patrícia puxou a bolsa, como se fosse se levantar.

— Dona Gisela, eu saí do meu trabalho porque a senhora disse que precisava conversar comigo sobre uma coisa importante. Seu tio ajuda muito a gente. Eu não sei o que existe entre vocês, mas não quero me meter em problema de família.

— Não é problema de família.

— Então é o quê?

Gisela respirou fundo. Passara mais de trinta anos evitando pronunciar aquilo. Não tornara a contar a ninguém depois de tentar se abrir com a avó, quando, já adolescente, e ouviu que provavelmente havia entendido mal, que “o tio gostava de brincar, sempre fora muito carinhoso com as crianças e certas acusações podiam acabar com a vida de um homem”.

A vida de uma menina, ao que parecia, não entrava naquela conta.

— Eu sei o que ele está fazendo.

— Fazendo o quê?

— Com os presentes. Buscando na escola. Arrumando um jeito de ficar sozinho com ela. Fazendo Laleska achar que ele é a única pessoa em quem pode confiar.

Patrícia olhou ao redor, constrangida. Duas funcionárias da loja tomavam café na mesa ao lado.

— A senhora não conhece minha filha.

— Mas conheço o Miltinho.

— Ele é seu tio.

— Justamente.

A mulher ficou esperando que Gisela completasse. Ela quis se levantar, pegar o carro e voltar para Botafogo. Quis fingir que havia feito sua parte. Mas a menina tinha oito anos. A mesma idade. Os mesmos cabelos castanhos claros. O mesmo olhar de quem ainda não descobrira que alguns adultos usam o carinho como uma armadilha.

— Ele fez comigo.

Patrícia empalideceu.

Durante alguns segundos, as duas ficaram em silêncio. Um rapaz passou recolhendo as bandejas. Na praça de alimentação, uma criança chorava porque a mãe não quis comprar um sorvete.

— Eu sinto muito — Patrícia disse, finalmente. — Mas isso foi há muito tempo.

Gisela não respondeu.

— Quero dizer, talvez ele tenha mudado. Hoje ele é um senhor. Está doente, mal consegue respirar direito.

— Para certas coisas ele respira muito bem.

A frase saiu mais agressiva do que pretendia. Patrícia levantou-se.

— Eu preciso voltar para a loja.

Gisela pegou um cartão na bolsa e escreveu no verso o número de seu celular.

— Fique com isso. Se notar qualquer coisa, qualquer mudança na Laleska, me ligue. Não interessa a hora.

— Não vai acontecer nada.

— Espero que você esteja certa.

Durante pouco mais de uma semana, não houve telefonema. Gisela tentou acreditar que o aviso havia sido suficiente. Patrícia não deixaria mais a filha sozinha com ele. Procuraria outro lugar para morar. Falaria com a menina. Talvez fosse embora da casa naquele mesmo fim de semana.

Mas Gisela conhecia o peso do aluguel, do salário apertado e de uma escala de trabalho que permitia descansar apenas um domingo por mês. Sabia também que Miltinho não deixaria escapar facilmente aquilo que havia construído. A casa, o aluguel barato, os presentes, os favores e a falsa bondade formavam uma teia. Ele não precisaria impedir que Patrícia fosse embora. Bastaria convencê-la de que não havia motivo para sair.

O telefonema veio numa quinta-feira, às onze e dezessete da noite.

Gisela já estava deitada. Reconheceu o número porque o salvara no celular.

— Dona Gisela?

A voz de Patrícia estava descontrolada. Havia uma criança chorando ao fundo.

— O que aconteceu?

— Eu não sei. Eu não sei o que fazer.

Gisela sentou-se na cama.

Patrícia chegara do shopping perto das dez. Tomara banho e colocara o uniforme de molho no tanque. Quando saiu do banheiro, encontrou a filha no corredor. Laleska estava muito quieta. Não quis jantar. Disse que estava com sono e foi para o quarto. Algum tempo depois começou a chorar.

Miltinho havia prometido mostrar uma surpresa. Chamou-a ao quarto enquanto a mãe tomava banho. Depois disse que aquela era uma brincadeira entre os dois. Uma brincadeira que ninguém entenderia.

Laleska contou o que conseguia contar. Miltinho tocara seu corpo de uma maneira que não era brincadeira, nem cuidado, nem carinho. E mandara que ela não dissesse nada à mãe.

— Onde ele está agora? — perguntou Gisela.

— No quarto dele.

 

— Tranque a porta do quarto de vocês e chame a polícia.

— Eu não sei se ela entendeu direito. Ela é uma criança. Talvez…

— Patrícia, chame a polícia agora.

— A gente mora na casa dele. Se eu fizer isso, vamos ficar na rua.

— Você prefere ficar nessa casa?

Patrícia começou a chorar. Gisela levantou-se, vestiu a primeira roupa que encontrou e pegou a chave do carro.

— Eu vou ligar para a polícia. Você fica com a Laleska e não deixa ninguém entrar. Estou indo para aí.

Quando chegou a Coelho Neto, havia uma viatura parada diante da casa. Alguns vizinhos estavam nas calçadas, acompanhando tudo como se assistissem a um programa de televisão. Sandra e duas das primas também já haviam aparecido. Patrícia estava sentada na sala com a filha abraçada ao corpo. Miltinho negava tudo. Disse que era um mal-entendido. Laleska era uma criança imaginativa. Ele apenas lhe mostrara um presente. Estava sendo vítima de uma sobrinha rancorosa que nunca perdoara certas brincadeiras do passado. Além disso, era militar aposentado, um homem conhecido no bairro, doente, com enfisema e insuficiência respiratória. Precisava de oxigênio e de remédios.

Gisela observou quando colocaram as algemas em seus pulsos. Por um instante, as primas esperaram que ela demonstrasse pena. Não demonstrou.

— Você conseguiu — Sandra disse. — Era isso que você queria?

— Era.

Na delegacia, uma policial capacitada para aquele tipo de atendimento acolheu o relato de Laleska, sem obrigá-la a repeti-lo. O que a menina disse, somado às circunstâncias em que fora encontrada, bastou para que as providências fossem tomadas.

Depois, perguntaram a Gisela por que desconfiara do tio.

— Porque ele fez a mesma coisa comigo.

— A senhora quer prestar declaração sobre isso?

— Não quero.

Quando amanheceu, Miltinho continuava preso. Os advogados chegaram. A audiência de custódia seria realizada mais tarde. As primas começaram a telefonar para parentes que Gisela nem lembrava que existiam. Em poucas horas, ela se transformara na mulher cruel que mandara prender um idoso enfermo.

Ninguém falava de Laleska.

Agora, sentada no tapete felpudo de seu apartamento, Gisela terminou a primeira taça de vinho. O disco chegara ao fim, mas ela não se levantou para virá-lo. A agulha continuava girando e produzindo um ruído baixo, repetitivo.

O gato se aproximou e deitou-se junto às suas pernas.

Gisela fechou os olhos.

Era noite de Natal. Ela tinha oito anos e usava um vestido vermelho que a avó comprara no comércio de Madureira. A casa estava cheia. Havia gente conversando na cozinha, crianças correndo pelo corredor e um especial do Roberto Carlos passando na televisão. Gisela estava sentada no colo do tio Miltinho.

Queria descer, mas ele mantinha um dos braços em volta de sua cintura. O rosto do homem estava muito próximo. Gisela sentia asco daquele cheiro de loção barata de farmácia misturado ao do cigarro que ele fumara no quintal pouco antes. Miltinho apontou para a boneca que ela havia ganhado.

— Titio vai te dar outra. Uma boneca muito mais bonita do que essa que Papai Noel trouxe.

Ele aproximou a boca do ouvido da menina. Falava devagar, entrecortado, como se os dois compartilhassem alguma coisa muito importante.

— Não precisa contar pra ninguém, não… Confia no titio sempre… Minha Gigi.

Na sala cheia, ninguém olhava para ela.

……………………
Daniel Marchi é poeta, contista, advogado e professor universitário no Rio de Janeiro. Editor do Café Literário e fundador da Editora Fava, é autor de A Verdade nos Seres (poesia, 2024) e Território do Sonho (contos, 2026). Instagram: @prof.danielmarchi.

 

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