Mundo medieval
A bruxas, a Inquisição e as fogueiras europeias
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Havia noites na Europa medieval em que o vento parecia soprar mais pesado. Não era apenas o frio. Era o medo. As aldeias dormiam cedo, mas nem todos fechavam os olhos. Sempre havia alguém desconfiando do vizinho, da parteira, da viúva que falava sozinha enquanto colhia ervas ao entardecer. Em tempos de peste, fome e guerra, qualquer diferença podia ganhar o nome de ameaça. E ameaça, naquele mundo governado por cruzes e sinos, era coisa séria.
A Igreja, já senhora das consciências, havia criado seus tribunais para vigiar desvios da fé. Chamavam-nos de Inquisição. No início, o alvo eram heresias organizadas, dissidências teológicas, grupos que ousavam interpretar Deus à sua própria maneira. Mas o tempo, esse artesão de sombras, ampliou o foco.
Entre os séculos finais da Idade Média e o início da Modernidade, a figura da bruxa ganhou contornos mais definidos — e mais perigosos.
Diziam que elas voavam. Que dançavam nuas sob a lua. Que selavam pactos com o demônio em sabás invisíveis aos olhos comuns. A imaginação popular, alimentada por sermões inflamados e tratados teológicos, fez o resto.
Em 1487, surgiu um livro que se tornaria instrumento e símbolo desse temor: o Malleus Maleficarum, o “Martelo das Feiticeiras”. Escrito por inquisidores alemães, o texto ensinava a identificar, interrogar e condenar supostas bruxas. Mais do que um manual jurídico, era um espelho das angústias de seu tempo — e de seus preconceitos.
Ali, as mulheres apareciam como suspeitas naturais. Consideradas mais frágeis diante do pecado, mais inclinadas à sedução demoníaca, tornaram-se maioria entre os acusados. Viúvas sem proteção masculina, parteiras que conheciam os segredos do corpo, curandeiras que dominavam ervas — todas podiam ser vistas como ameaça.
E o que era ameaça precisava ser purificado.
Nos tribunais da Inquisição Espanhola e da Inquisição Portuguesa, entre outros, acumulavam-se denúncias. Algumas nasciam de rivalidades banais. Outras, de disputas por terras ou vinganças pessoais. Bastava um sussurro para que a engrenagem se movesse.
Os interrogatórios eram duros. A tortura, admitida em certos casos, arrancava confissões que misturavam dor e imaginação. E, quando a sentença vinha, a praça pública tornava-se palco. A fogueira não era apenas punição; era espetáculo pedagógico. Queimar o corpo para salvar a alma — assim se dizia.
Mas nem tudo foi fogo. Muitos acusados receberam penitências, multas, peregrinações forçadas. A morte, embora símbolo mais lembrado, não foi o único destino. Ainda assim, dezenas de milhares perderam a vida ao longo de séculos, numa Europa que buscava, nas chamas, respostas para suas próprias crises.
A grande ironia é que o auge da caça às bruxas não ocorreu no coração da Idade Média, mas já em sua transição para a modernidade — quando universidades floresciam e o pensamento científico dava seus primeiros passos. A razão nascia ao mesmo tempo em que o medo ardia.
Hoje, quando olhamos para trás, é fácil julgar. Difícil é reconhecer que o mecanismo que moveu aquelas fogueiras continua à espreita: o impulso de transformar o diferente em inimigo, o desconhecido em culpa, a fragilidade coletiva em condenação individual.
As fogueiras se apagaram. As praças mudaram de cenário. Mas a história — essa cronista implacável — insiste em lembrar que toda sociedade, quando dominada pelo medo, corre o risco de acender novamente suas próprias chamas.