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Asa Norte

A catarata e o Frank Sinatra

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Autor/Imagem:
Eduardo Martínez - Foto Irene Araújo

Demerval, aos 84 anos, foi acometido de vaidade, como se quisesse retornar ao vigor dos 30. Eunice, a esposa, nada dizia, apesar de fazer troça às escondidas. Não que ela fosse contra a repentina preocupação do marido em relação à aparência, mas considerava exagero pintar os parcos cabelos de acaju. .

Eunice, apesar de não ser daquelas que fazem drama ou busquem análise por conta do surgimento de mais uma ruga, gostava de se cuidar. Sem exageros, a não ser quando a traiçoeira balança a afrontava com o movimento ingrato do ponteiro. Aí não tinha jeito, era fechar a boca e aumentar o ritmo das caminhadas diárias ao redor da quadra onde morava, na Asa Norte, em Brasília.

— Ah, por que fui comer aquele monte de brigadeiro na casa da Regina?

— Não gostou?

— Estava uma delícia, mas olha esta barriga agora?

— Você está ótima, meu amor.

A vontade da mulher era mandar o marido para a moradia do Diabo, mas conteve tamanho ímpeto.

— São os seus olhos, Demerval.

— Azuis.

— O quê?

— Reparou que meus olhos estão ficando azuis?

— Catarata faz isso.

— O quê?

— Catarata, Demerval. Ou já se esqueceu do que o oftalmologista disse na última consulta.

— É verdade. Mas são azuis, né?

— São iguaizinhos aos do Frank Sinatra. Só tá faltando você cantar My way pra mim.

Os dois sorriram e se beijaram nos lábios, como sempre faziam várias vezes durante o dia.

Parece que Demerval gostou de ouvir que seus olhos estavam idênticos aos do famoso cantor. Tudo bem que era por causa da catarata cada vez mais avançada. E daí? Não é para qualquer um ter os olhos do Sinatra.

O sujeito imprimiu a letra de My way e, apesar de não ser fluente em inglês, sabia mais ou menos a pronúncia de várias palavras. Ensaiou a canção enquanto malhava na academia. Depois foi ao supermercado comprar um vinho de qualidade que o dinheiro de fim de mês conseguisse pagar.

Quando chegou ao lar, doce lar, Demerval colocou a garrafa na geladeira e foi tomar um banho caprichado. Eunice, ciente dos métodos de sedução do esposo, sabia que ele tentaria algo mais tarde. A mulher sorriu aquele sorriso próprio das esperançosas. Tanto é que entrou debaixo do chuveiro e vestiu aquela lingerie comprada há quase seis meses, passou um pouco de perfume e, quando percebeu, a mesa já estava posta.

Duas taças, a garrafa de vinho, uma porção de queijo e salame. Ao lado, Demerval, microfone imaginário em uma das mãos, começou a cantar My way.

“And now, the end is near
And so I face the final curtain
My friend, I’ll say it clear
I’ll state my case, of which I’m certain
I’ve lived a life that’s full
I traveled each and every highway
And more, much more than this
I did it my way

Regrets, I’ve had a few
But then again, too few to mention
I did what I had to do
And saw it through without exemption
I planned each charted course
Each careful step along the byway
And more, much more than this
I did it my way…”

Eunice ficou admirada com a performance do clone de Sinatra, até que ele começou a fazer algumas expressões faciais, que, a princípio, ela imaginou serem com o intuito de seduzi-la. Uma torção dos lábios do marido, a esposa teve quase certeza de que ele estaria passando de Sinatra para Elvis. Todavia, tais expressões, cada vez mais esquisitas, se transformaram em caretas. Mesmo assim, Eunice, que sabia que o marido era um brincalhão, imaginou que ele estivesse imitando o saudoso Ronald Golias.

Que nada! Demerval acabara de ter um AVC e, no segundo seguinte, tombou sobre o tapete felpudo da sala. Morreu ali mesmo.

……………………

Eduardo Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).

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