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Serafim

A comilança

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Autor/Imagem:
Maga de Moraes - Foto Francisco Filipino

Pequena Observação: Todos os números e dados históricos, incluindo a fala do Imperador, são verídicos.

O pequeno Serafim quase nunca tinha permissão para acompanhar o pai ao trabalho, mas em dias de festa, às vezes acontecia dele precisar de alguma ajuda na cozinha e apelava então para o menino, exímio cortador de cenouras e descascador de batatas. O problema é que Serafim nunca ficava muito tempo no mesmo lugar e, na inquietude de seus 13 anos de idade, dava sempre um jeito de escapar da vigilância do pai, mais preocupado com o cozimento dos caldos e com o ponto das carnes.

Serafim tinha orgulho do pai, viúvo de 45 anos, um dos cozinheiros do Visconde de Ouro Preto. Trabalhava para esta família há muitos anos e era conhecido por ser especialista nas carnes. Sabia preparar um capão como ninguém! Foi por causa de suas qualidades como cozinheiro que o pai de Serafim, Antônio, foi chamado para fazer parte da equipe que prepararia um banquete a ser servido no dia 9 de novembro de 1889, no baile da Ilha Fiscal.

Seu Antônio não se envolvia com política, mas sabia, como todos naqueles tempos, que a Monarquia andava capenga. As conversas nos botequins davam os dias do Império como contados. Bastava um estalido para causar mais um conflito entre monarquistas e republicanos. D. Pedro II já não era mais respeitado como antes, tanto que não podia aparecer em praça pública sem correr o risco de levar laranjas e tomates na cabeça. Secretamente, Antônio queria mais é que o Império ruísse de vez. Mas tinha medo de que, com a queda do Império, ele, que trabalhava nas cozinhas das famílias nobres, perdesse o emprego.

— Que nada! – dizia seu compadre, o Cícero. – Sempre vai ter algum rico para se empanturrar com seus acepipes. Tudo muda só para continuar como era antes.

Mas o caso é que, alguns dias antes da data marcada para o banquete, Antônio já estava devidamente contratado. Ele seria apenas mais um entre os inúmeros cozinheiros e assistentes que transformariam uma quantidade nunca antes vista de matéria-prima em pratos maravilhosos. Na última hora, um dia antes da comilança, faltaram ajudantes e foi aí que Serafim entrou na história.

— Você fique onde eu mandar e faça o que eu mandar. E não me saia de perto! — avisou o pai ao menino.

O Visconde de Ouro Preto, presidente do Conselho de Ministros, declarou à imprensa que o baile seria uma homenagem aos 300 tripulantes do cruzador chileno “Almirante Cochrane”, então atracado no Rio de Janeiro. Era um ato de política de boa vizinhança, afirmou aos jornalistas. Na verdade, isso foi só uma desculpa para realizar a maior festança do Império, um jeito de mostrar a todos que ainda se vivia como na Europa, gastando dinheiro aos montes para deleite de nobres e de uma crescente burguesia endinheirada, doidinha para respirar o mesmo ar que a família imperial. Evidentemente, a presença do próprio D. Pedro II, com sua família, seria o ponto alto da festa.

Escolheram a antiga Ilha dos Ratos, então Ilha Fiscal, para sediar a festa, ocupando o palácio inaugurado apenas oito meses antes. Sabia-se que D. Pedro era particularmente atraído pela vista que dali se tinha dos principais pontos do Rio de Janeiro.

Para alimentar todo esse povo, vestido em finas casacas de veludo e com enormes vestidos de várias camadas de seda, foi preciso juntar não só uma imensa equipe de trabalhadores como também uma quantidade nunca vista de animais, alguns vivos e outros já mortos, que chegavam sem parar no Cais Pharoux, às margens da baía da Guanabara. Sem falar nos ovos, nas sacas das diversas farinhas, frutas, verduras, legumes, presuntos. E centenas de caixas de cervejas, champanhes e vinhos, os mais caros, os mais finos.

Serafim embarcou para a Ilha Fiscal junto com o pai em meio a um carregamento de frangos. Os bichos, ainda vivos, foram transportados em engradados fedidos de madeira, repletos de cocô por todos os lados. Serafim foi colocado entre as caixas e tentava se esquivar das bicadas das aves neuróticas quando viu o relógio acima do palácio da Ilha Fiscal, a 53 metros de altura.

O menino nascera no Rio de Janeiro e, como filho de um cozinheiro de primeira linha, estava acostumado a ver palácios, por dentro e por fora. Mas deixou-se encantar pelo relógio, pelo palácio que se aproximava aos poucos, pelos barulhos dos marinheiros e dos cozinheiros. Saiu deste torpor com uma bela bicada no traseiro, dada por um frango especialmente irritado com o fato de estar encaixotado.

No desembarque, Serafim se impressionou com a organização quase militar imposta aos cozinheiros e outros trabalhadores domésticos. Um homem grande, gordo e careca, vestido num incrível conjunto branco, colocou todos os homens e mulheres em fila, confirmou nomes e funções com a ajuda de uma imensa lista e foi logo dando ordens. Outros meninos além de Serafim haviam sido recrutados como auxiliares e faxineiros. Muitos negros também estavam ali, mas ficaram separados, esperando suas ordens.

Serafim sabia que não era totalmente branco, mas deixaram que ficasse com o pai, um filho de portugueses de pele amarelada e largo bigode, junto aos cozinheiros, enquanto meninos da mesma cor que a dele eram afastados para junto dos negros. A vida inteira tinha sido desse jeito: se estava sozinho, Serafim era tratado como negro, mas, se estava com o pai ao lado, repentinamente “virava” branco. Quando viva, sua mãe, uma negra bonita e inteligente, sempre dizia que o sangue negro era mais forte e que, portanto, ele sempre seria negro, com a vantagem de poder se misturar com os brancos com mais facilidade.

Até aquele ponto de sua vida, Serafim não achava que sua cor de chocolate desbotado era uma vantagem. Entre negros, era tratado como branco e, entre brancos, como negro. Só o tratavam com certo respeito quando a forte presença de seu pai se impunha. E quando ele fosse adulto, como as coisas seriam? Como seria tratado quando não mais pudesse contar com o apoio do pai?

Mas o menino não teve mais tempo de pensar nessas coisas. Logo o colocaram para carregar pilhas de pratos e começou assim um dia de labuta como ele nunca tivera. Ficou sob as ordens de um certo Francisco, enquanto o pai, não muito longe dali, era responsável pelo preparo dos frangos, sob o comando de um chefe de cozinha que recheava seu português com palavras que só muito mais tarde Serafim pôde reconhecer como francês. Na boca do cozinheiro, elas faziam ondas e se avolumavam nas bochechas como bolachinhas amanteigadas, antes de escaparem, como suspiros, num biquinho delicado, formado pelo contato daqueles lábios finos, quase femininos.

90 cozinheiros, a maioria homens, formavam um exército que contava ainda com o apoio de 150 garçons e um sem-número de ajudantes. A cozinha começou a funcionar a todo vapor muitas horas antes do banquete começar. Afinal, era preciso limpar todos os frangos, cortar todos os legumes. Correr atrás dos pavões indóceis, que resistiam bravamente ao cutelo e se entregavam à morte com um gorgolejar. E os molhos, finos molhos, que precisavam de horas de cozimento antes de chegar ao ponto. Potes e mais potes de especiarias caras, orientais, que haviam cruzado o mundo para chegar ali. Rasparam o fundo do mar para tirar tantos camarões quanto fosse possível. Mandaram vir as trufas mais caras, lá da Itália. Chamaram as melhores doceiras, a maioria formada por mulheres desdentadas e gordas, mas com mãos tão delicadas que provocavam em Serafim arrepios só de pensar no que elas poderiam fazer.

Entre uma tarefa e outra, Serafim podia se dar ao luxo de andar para lá e para cá. Desvendou todos os cantos da imensa cozinha. Viu a mulher dos quindins desmaiar com o calor do fogo. Beliscou cremes doces que ele nunca provara e arriscou-se a roubar uma coxa de frango que cozinhava num caldo marrom, de cheiro tão bom que pedia uma prece. Mas o que mais lhe causou surpresa foram os sorvetes. Ele nunca provara um desses antes. Chegavam conservados em caixas de madeira repletas de gelo e mantinham-se durinhos. Ficavam longe da cozinha e eram guardados por um negro forte, armado com uma toalha molhada. Ele ficava na entrada do porão úmido onde acondicionaram as tantas caixas, mantendo ratos e meninos longe do doce, à custa de toalhadas espertas, direto na cabeça de uns e de outros.

Não eram nem 11 horas da manhã do dia 9 quando os primeiros convidados começaram a chegar. Senhoras carregadas de joias preocupavam-se em como sair dos barcos sem deixar que a água e a areia sujassem seus lindos vestidos. Gritavam com suas negras e pediam, apavoradas, para que elas segurassem as dobras dos vestidos longe da água. As negras, afundando as pernas no mar, erguiam o mais que podiam as sedas, deixando às vistas de todos, e principalmente de jovens senhores de cartola, as pernocas brancas, semicobertas por calçolas rendadas. Algumas, mais afortunadas, tinham negros fortes para as carregarem a salvo das águas e dos olhares.

Faziam um barulho incrível aqueles convidados! Serafim nunca viu tanta gente falando e rindo ao mesmo tempo. Centenas de barcos despejaram senhores de preto e senhoras de branco, marfim e rosa. Joias cintilavam. Bengalas faziam toc-toc pelos salões. Todos faziam o máximo para verem e serem vistos. Ao final de algumas horas, 4.500 convidados sentaram-se às mesas para ouvir discursos e encher a pança, ao som de orquestra.

À cabeceira da maior e mais bela mesa, D. Pedro II saudou a todos. Serafim, que era pequeno e ágil, foi se esgueirando para chegar perto do homem e percebeu que o velho estava pálido como cera, com um ar fraco e doentio. Ao seu lado, a mulher mais feia que o menino já havia visto arrumava os peitos dentro do vestido cor de vinho. Era D. Tereza Cristina, a imperatriz.

Quando a comilança começou, Serafim sentiu-se como que transportado a um mundo louco. Os cheiros das pessoas se misturavam com os das comidas. E eram tantos e tão variados que ele sentiu uma leve vertigem. O barulho dos garfos e colheres batendo nos pratos de fina porcelana se misturava aos risos e às conversas. Na verdade, parecia que um queria falar mais alto do que o outro. Quanto mais a noite caía, mais o barulho aumentava, acrescido do efeito das bebidas, que mudavam o comportamento dos homens e das mulheres.

Foram servidos 18 pavões, 500 perus, 64 faisões, 800 quilos de camarões, 300 peças de presuntos, 1.300 frangos – muitos dos quais Serafim tinha certeza de que haviam passado pelas mãos experientes de seu pai. Sentia orgulho a cada vez que via uma senhorinha trincando os dentes numa coxa amarela de gordura e revirando os olhinhos de prazer. Para acompanhar a nobreza das carnes, 1.200 latas de aspargos, 800 de trufas e mais travessas e travessas de acompanhamentos variados. Em poucos minutos, davam conta de pratos que demoraram horas e até dias de preparo. Molhos que reduziram a fogo lento durante mais de 12 horas eram consumidos junto com carnes que desmanchavam na boca, deixando fiapos entre os dentes.

Num único prato, era comum encontrar uma mistura louca de vitela, camarão e frango com temperos igualmente variados. Quando conseguia surrupiar alguma sobra, Serafim percebia que, de tanta coisa, o produto final ficava com gosto de coisa alguma, apesar de não ser de todo desagradável.

Passou na cozinha mais de uma vez para ver como ia o trabalho e encontrou o pai a fritar finos crepes em meio a uma nuvem de calor absurda.

— O que é isso, pai?

— “Cromesquis à La Princesse” – explicou o cozinheiro. Uma massa fina de farinha, ovos, caldo de vitela e cerveja coberta por uma outra massa, a de fritar, feita com manteiga, farinha e queijo, entre outras coisas, ambas recheadas com uma outra massa, feita de frango, aspargos, creme de leite e trufas. Tudo isso frito em óleo muito quente. Depois, a gente escorre, bota num tabuleiro, cobre de queijo e leva ao forno para gratinar.

Serafim arregalou os olhos. Seu Antônio olhou para os lados e, livre da vigilância, pegou um dos croquetes recém fritinhos e colocou na boca do filho. Era bom!

A festa foi entrando no meio da noite e ninguém parecia com vontade de parar de comer. Os mais velhos comiam e dormiam, só para acordar e voltar a comer. Os mais jovens comiam e bebiam muito, e só paravam para encontros furtivos na escuridão, onde saias eram levantadas e calçolas abaixadas. Depois de tanto esforço, mais comida, mais bebida.

Serafim ia de um lado para outro, até que começou a ficar enjoado de tanta comida e tanta gente. Mais de uma discussão acalorada quase virou briga, mas as pessoas já estavam um tanto cansadas e logo desistiam de defender suas convicções em troca de mais um pastelzinho. Muita gente sucumbiu aos 10 mil litros de cerveja e 258 caixas de champanhe e de vinho. Mais de uma jovem senhora da corte se revelou naquela noite. Um número enorme de cornos nasceu nas frontes de veneráveis senhores.

D. Pedro retirou-se logo, parecendo muito cansado. Serafim estava tentando pegar um pequeno filhote de cachorro que se esgueirava entre as mesas quando passou na frente do Imperador, que acabava de levantar-se de sua cadeira. Sem ver o menino agachado a seus pés, tropeçou e quase foi ao chão, não fosse segurado por alguns nobres que estavam por perto.

— Calma! – disse, sorrindo. – A Monarquia tropeça, mas não cai.

E saiu deixando a festa avançar pela noite. Alguns conversavam sobre os problemas que o império vinha enfrentando, principalmente depois da Guerra do Paraguai e da crescente cobiça dos paulistas, loucos para serem a próxima Corte.

Mas a verdade é que os comensais não estavam preocupados com os paulistas, nem com o partido republicano, nem com a Igreja, que se indispusera com o imperador, nem com os militares, que também estavam descontentes. O Imperador ainda era amado pelo povo, não era? Eles ainda eram ricos e fortes. Eram donos de um poder secular, ninguém mexeria com eles, estavam tranquilos para comer e beber à vontade, sem pensar no dia seguinte. Estavam mais preocupados em arranjar espaço para as sobremesas, tantas e tão boas.

Os sorvetes fizeram muito sucesso e não sobrou nenhum dos 12 mil que foram servidos. 500 pratos de doces variados brilhavam sobre as mesas, despertando gulas em estômagos cansados, mas não totalmente saciados. Pessoas faziam filas nos banheiros, descarregavam os excessos por ali e voltavam, bem mais leves, para enfrentar mais um prato, mais um bolinho, só mais um licorzinho, por favor.

Serafim deixou-se cair encostado numa árvore no jardim e, quando a lua já cedia lugar ao sol, adormeceu. Muita gente fez o mesmo e toda a educação europeia que os brasileiros nobres e ricos, assim como os portugueses e outros estrangeiros, tentavam arrotar, caía por terra, derrotada pela comida, mas principalmente, pela bebida.

No dia seguinte, as equipes de limpeza teriam que dar um jeito de sumir com os vestígios da festa, que não eram formados apenas por pratos e copos sujos, mas também por restos de nobreza como 13 lenços de seda, 9 de linho e 15 de cambraia, tudo coisa fina. 16 chapéus perderam suas cabeças e 17 ligas deixaram suas donas de meias nas mãos, nas suas ou nas de seus parceiros.

Foram todos embora com a cabeça pesada de ressaca, pensando só em dormir.

Serafim encontrou o pai completamente entregue ao cansaço, sentado num degrau da cozinha.

— Vamos embora, pai?

— Daqui a pouco.

— Fico pensando em quando farão outra festa como essa. Espero que nunca mais! Meu Deus, que inferno isso foi! — exclamou um garçom moreno.

— Inferno para quem trabalhou nesse calor todo. Para quem estava nos salões e nos jardins, foi o paraíso — interrompeu um cozinheiro baixote.

— Sempre vão fazer festas como esta, a gente nunca vai descansar! – reclamou Antônio, levantando-se.

— Porque sempre vai ter povo para pagar a conta, meu amigo. — completou o baixinho, num sorriso amarelado de tabaco.

Seu Antônio pegou o menino pelas mãos e foi para a fila de pagamento. Recebeu o que lhe fora prometido e mais algum pela ajuda do menino. Sentaram-se num barquinho frágil e foram para casa. Antes de caírem na cama, seu Antônio ainda preparou um caldinho, só para dar uma “sustanciazinha”. E foi dormir em paz, a sonhar com mil frangos.

Serafim não conseguiu dormir logo. Ficou pensando em como seria bom fazer parte daquela elite endinheirada. Como seria bom poder comer e beber aquelas coisas boas todos os dias. Como seria bom ser igual a todo mundo, peidando e arrotando como qualquer marinheiro, mas com lencinho de seda e perfume francês para disfarçar. Acabou dormindo também e sonhou com casas feitas de bolo e cobertas com glacê, ruas com pavimento de chocolate, árvores dando salgadinhos a quem esticasse a mão. Rios escuros de tanto vinho.

Na manhã seguinte, a vida voltou ao normal. Seis dias depois, em 15 de novembro de 1889, o marechal Deodoro da Fonseca proclamaria a República, mudando a história do país. Para Serafim, no entanto, mulato e pobre, pouca coisa mudou.

Fim

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