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As lágrimas de Cartago (Parte 1)

A conferência do destino e as brasas da paixão

Publicado

Autor/Imagem:
J. Emiliano Cruz - Foto Francisco Filipino

Observando a situação da batalha que se mostrava favorável às forças de Cartago, Asdrúbal decidiu pelo término do combate ao observar as linhas romanas recuarem em profundidade. Convicto, gritou ao seu imediato:

— Annon, ordene o fim do avanço das nossas linhas!

—Sim, general! Arauto, toque cessar ofensiva!

Um estridente som de trombeta soou no campo de batalha e, disciplinadamente, os soldados cartagineses começaram a retornar para o acampamento em ordeira formação.

-Reúna e conte os prisioneiros, depois leve o relatório completo sobre as perdas dos dois lados à tenda de comando.

— Imediatamente, senhor! aquiesceu, Annon.

—Mais uma batalha vencida, mas até quando continuaremos ganhando? Se os mercenários não chegarem em breve…preciso fechar logo a aliança com o rei dos númidas, refletiu o comandante militar de Cartago.

Absorto, Asdrúbal entrou na tenda de comando, sentou-se, serviu-se de água e começou a recordar como se dera o início de mais uma terrível guerra da sua pátria contra a poderosa e imperialista cidade de Rômulo e Remo.

A guerra se tornara inevitável quando, há cinco meses, os três integrantes mais idosos do Conselho dos Cento e Quatro retornaram de uma reunião de negociação solicitada pelo Senado de Roma e, Giscon, o presidente do Conselho, pesarosamente, revelou as exigências romanas:

—Ilustres conselheiros, eis a proposta de Roma para selar definitivamente a paz com a nossa pátria: entrega de todas as armas que temos na cidade, desmobilização do nosso exército, entrega dos nossos navios e transferência da nossa cidade para um local distante pelo menos cinquenta quilômetros do litoral.

Depois de alguns minutos de silêncio sepulcral, a reação dos senadores veio aos gritos:-Perfídia!

— Humilhação!

— Absurdo!

— Que venha à guerra!

— Dignidade ou morte!

Em meio à indignação geral, Bomilcar, membro da mesa do Conselho e pai de Asdrúbal, tomou a palavra:

— Conselheiros, essa proposta infame apenas confirma o que eu, Asdrúbal e outros membros desse Conselho viemos dizendo há muito tempo: não podemos confiar em Roma! O objetivo dos romanos sempre foi destruir a nossa pátria e nos transformar em escravos! Proponho a imediata mobilização de todos os cidadãos cartagineses, a nomeação de Asdrúbal, nosso melhor general, como comandante supremo do exército com poder discricionário. Proponho também a declaração formal de guerra à Roma.

Ante o silêncio constrangido da ala que defendia paciência, prudência e boa vontade na relação de Cartago com Roma – o “partido da paz” – a imensa maioria dos conselheiros manifestou-se em altos brados:

— Apoiado!

— Guerra aos malditos romanos!

— Fomos atraiçoados, fora Gideon!

— Todos os poderes a Bomilcar e Asdrúbal!

Calorosamente aclamado, Asdrúbal subiu ao púlpito e foi nomeado “Boetarca” – comandante militar supremo da cidade – pela cúpula do Conselho.

O Boetarca recrutou todos os cartagineses maiores de dezesseis anos para as fileiras do exército, determinou a mobilização de mulheres, anciões e crianças para as oficinas de fabricação de armas e requisitou as reservas de ouro do tesouro público para contratar mercenários estrangeiros e assim fortalecer as forças púnicas.

Não obstante as significativas vitórias que vinha obtendo sobre as legiões romanas que desembarcaram na África, ele sabia que tudo isso podia não ser suficiente para Cartago vencer a terceira guerra púnica e sobreviver ao obsessivo assédio romano.

Com essa preocupação a alugar-lhe a mente, o Boetarca retornou para Cartago, deixando provisoriamente o exército cartaginês acampado próximo ao litoral sob o comando de Annon, o general-adjunto.

— Parabéns, filho, o mensageiro já me deu a maravilhosa notícia de mais uma vitória, felicitou-o, Bomilcar, o agora presidente do Conselho dos cento e quatro.

— Pai, precisamos fechar uma aliança com a Numídia se quisermos vencer essa guerra, permita que eu procure o rei Massinissa para tratar da questão.

— Filho, os númidas nunca se conformaram com a supremacia de Cartago na África, são tão confiáveis quanto as serpentes romanas…

— Pode ser, mas precisamos deles, afinal, eles também são africanos. Se não fizermos isso, logo algum general romano pode ter essa ideia e aí estaremos em maus lençóis. E, ademais, nossos soldados estão ficando desgastados após tantas batalhas, ao passo que Roma envia cada vez mais soldados para a África.

— Não creio nisso, eles vão ficar neutros e depois vão conversar com quem vencer a guerra. E, além do mais, tenho a informação de que Massinissa já passou o bastão das decisões políticas para um dos seus filhos, Gideon. O velho rei já é quase centenário.

— Hum… Gideon, meu amigo de infância, o príncipe númida casado com Elissa!

— Você nunca esqueceu Elissa, não é mesmo? Tire-a do seu coração, filho, ela agora não é mais uma cartaginesa!

— Confesso que nunca a esqueci mesmo, pai! Ela rejeitou meu amor porque a família dela era do “partido da paz” e condenava a nossa hostilidade à Roma, mas ela sempre será uma cartaginesa de coração, mesmo estando casada com um númida.

— Bem, seja como for, contínuo contra essa aliança, acho-a desnecessária e arriscada, mas se você insiste, vou propor uma conferência entre você e Gideon. Agora vá descansar e relaxar, comandante, você merece!

Enquanto isso, no Senado Romano, um caloroso debate repercutia as últimas derrotas militares da poderosa urbes na África:

— Senador Catão, embalado pela sua ira irracional e obsessiva, foi você quem convenceu o Senado a abrir mão da nossa profícua aliança com Giscon, o presidente do Conselho dos cento e quatro e nosso fiel amigo, para declararmos essa guerra contraproducente. Admita que estava errado e vamos propor condições dignas e aceitáveis para selarmos a paz com Cartago, propôs o senador Cipião Córcora.

— Não tenho culpa se as nossas legiões na África estão sendo conduzidas por generais incompetentes, inábeis e relapsos! Continuo afirmando que Cartago é uma ameaça política e econômica à Roma, às nossas crenças, tradições e supremacia militar no mar Mediterrâneo. Digo e repito: delenda Cartago est!

— Talvez Catão tenha razão no que se refere à inabilidade dos nossos generais na África, interveio o senador Plínio.

— E o que vossa excelência propõe? Quem poderia corrigir a lastimável situação das nossas legiões na África? questionou, Cipião Córcora.

— Coincidentemente, um parente seu, ilustre senador, um general já provado e comprovado: Cipião Emiliano! Atualmente ele está servindo na Macedônia, mas podemos designá-lo para onde Roma mais precisa dele no momento.

— Bem, se for assim, podemos tentar! Eu confio plenamente na capacidade militar do meu parente.

— Concorda, senador Catão?

Um tanto contrariado pelo prestígio dado ao parente de um adversário político, mas sem outra saída, Catão falou:

—Se essa for a única solução para a destruição de Cartago, estou de acordo!

Acomodado nos aposentos da mansão do pai, Asdrúbal especulava acerca da atual posição de Elissa, sua grande paixão frustrada, em relação à questão da guerra contra Roma.

-Será que finalmente ela se deu conta de que os romanos nunca desejaram verdadeiramente a paz? E que só permitiriam que a nossa cidade continuasse a existir caso nos tornássemos uma cidadela submissa e inexpressiva? Elissa é uma descendente dos grandes Amílcar e Anibal Barca, eles jamais aceitariam tal indignidade para Cartago.

Imerso em suas divagações, o general adormeceu em um sono agitado.

A caminho do local da conferência juntamente com a sua guarda pessoal, Asdrúbal sentia o seu coração acelerar com a expectativa de rever Elissa.

Ao chegar no lugar combinado, uma pequena aldeia no fronteira dos territórios da Numídia e de Cartago, a comitiva cartaginesa apeou dos seus cavalos e dirigiu-se à tenda do príncipe númida. Adentrando o local, viu Elissa ao lado de Gideon.

O casal se levantou para saudar o general cartaginês.

— Salve, Asdrúbal, comandante militar de Cartago!

— Como estás, Asdrúbal?

— Gideon, príncipe da Numídia, Elissa, muito prazer em vê-los!

— Sente-se e sirva-se de água fresca, há moringas e lugares para toda a sua guarda. convidou o príncipe.

— Obrigado, Gideon, falou Asdrúbal, sem tirar os olhos de Elissa um só segundo, “como está bela, atraente e luminosa”, pensou.

Após uma breve troca de amabilidades, o assunto da conferência foi logo posto na mesa pelos dois potentados.

— Gideon, estamos em uma guerra sem trégua que vai definir os destinos dos nossos povos para todas as futuras gerações. Roma quer submeter completamente a África aos seus desígnios imperialistas. Cabe a nós, povos africanos, nos unirmos para derrotar os romanos e mandá-los de volta para a Itália.

— Sei disso, Asdrúbal, mas você não ignora que temos acertos territoriais para fazer caso essa união ocorra. Cartago ocupa indevidamente terras que pertencem por direito à Numídia desde tempos imemoriais. Já é hora de corrigirmos essa distorção.

— Entendo, meu pai e eu estamos dispostos a fazer esse acerto. Quais terras você propõe serem incorporadas à Numídia?

— Todos os territórios a oeste do rio Grande, metade das terras ao sul de Cartago e as duas maiores cidades do norte.

— Você pede muito, príncipe! Consideramos justo cedermos metade das terras a oeste do rio Grande, vinte por cento das terras ao sul e uma das cidades do norte.

Nesse momento, Elissa sussurrou algo no ouvido do marido.

— Podemos fechar o acordo nesses termos, caso você acrescente uma abertura para o mar, uma faixa de dois quilômetros no extremo sul dos nossos territórios.

— Considero isso justo, acordo fechado, príncipe!

— Magnífico! A fim de comemorarmos a união dos nossos povos contra Roma, sugiro que agora descansemos e, à noite, confraternizemos em um farto banquete conforme manda a tradição.

Sentindo um arrepio percorrer todo o seu corpo ao ser transpassado pelo olhar penetrante e enigmático de Elissa, Asdrúbal falou com voz rouca:

— Será uma honra e um prazer, príncipe!

Iniciado o banquete, Asdrúbal, Gideon e Elissa relembraram alegre e fraternalmente os tempos de infância em que os três brincavam juntos em Cartago.

As guardas pessoais dos dois líderes seguiam o exemplo dos comandantes e também celebravam juntos a histórica união dos dois povos africanos.

Com a passar do tempo, Gideon foi logo vencido pelo alto teor alcoólico das bebidas servidas segundo a tradição númida e apagou sem retorno à vista. A partir daí, Elissa passou a presidir o banquete, orientando os serviçais a servirem as iguarias do cardápio na ordem devida.

Então, aconteceu! Agora mais à vontade, os dois cartagineses não mais reprimiram o desejo recíproco. Discretamente, dirigiram-se a uma tenda particular e deram vazão a todos os sonhos incendiários alimentados por anos de separação.

Depois da intensa e longa comunhão de corpos, Asdrúbal, sem resistência da amada, colocou a bela nos ombros e carregou-a para o seu cavalo. Simplesmente não podia mais viver sem aquela criatura ao seu lado.

A seguir, o comandante militar de Cartago ordenou à sua guarda que o seguisse e deixou o acampamento.

No dia seguinte, ao acordar e constatar o que ocorrera durante o seu coma alcóolico, Gideon, possesso, jurou vingança contra os dois amantes.

…………………………………

A segunda parte (epílogo) deste conto será publicado neste sábado (21).

*J. Emiliano Cruz é autor da coletânea de contos “A FELICIDADE E OS RISÍVEIS AMORES DE TODOS NÓS”,  obra editada pelo CAFÉ DO ESCRITOR – Curitiba/PR – www.cafedoescritor.com.br

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