Família em Conserva
A crítica da Acadêmicos de Niterói que despertou reações
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Por que a arte incomoda?
Talvez porque ela não tenha sido feita para adormecer consciências, mas para acordá-las. A arte não é ornamento neutro pendurado na parede da história. Ela é lâmina simbólica, é espelho incômodo, é pergunta atravessada no meio da sala. Há quem diga que a arte incomoda porque desafia o status quo, questiona normas sociais, expõe tabus e força o espectador a sair de sua zona de conforto existencial. E é exatamente isso que ela faz quando cumpre sua função mais nobre: tensionar certezas.
A arte atua como um espelho crítico das contradições, violências e desigualdades da sociedade. Não cria o conflito, revela-o. Não inventa a hipocrisia, ilumina-a. Ao fazer isso, desestabiliza visões de mundo acomodadas. E ninguém gosta de se ver desnudado diante das próprias incoerências.
Foi o que aconteceu no desfile da escola de samba Acadêmicos de Niterói, especialmente com a ala intitulada “família em conserva”. A metáfora foi potente: famílias enlatadas, padronizadas, preservadas como se fossem produto de prateleira: perfeitas na embalagem, mas fechadas em si mesmas.
A crítica era clara: há quem se reivindique guardião da moral por defender um modelo específico de família — homem, mulher e filhos — mas, ao mesmo tempo, apoie tortura, relativize ditaduras, celebre armas e naturalize violências.
A provocação não foi gratuita. Foi cirúrgica. E como toda arte que toca em nervos expostos, gerou reação. Após o desfile, as redes sociais foram tomadas por imagens produzidas com inteligência artificial de famílias literalmente dentro de latas de conserva. Muitos acreditaram estar ironizando a escola. Mas, na prática, acabaram provando exatamente o ponto que a agremiação colocou em evidência: a dificuldade de lidar com a crítica quando ela atinge crenças identitárias.
E a história ganhou um novo capítulo. Após ter sido rebaixada nesta quarta-feira, 18, para o Grupo de Acesso do Carnaval do Rio de Janeiro, a Acadêmicos de Niterói declarou: “A ARTE NÃO É PARA OS COVARDES”. A frase sintetiza o espírito do que foi apresentado na avenida. Fazer arte que apenas confirma expectativas é confortável. Fazer arte que questiona estruturas é arriscado. E risco exige coragem.
A arte incomoda porque retira a máscara da normalidade. Porque questiona a coerência entre discurso e prática. Porque nos obriga a perguntar: que valores estamos realmente defendendo? Que moral é essa que se diz protetora da família, mas tolera a violência como método político?
Quando a arte é reduzida a entretenimento inofensivo, ela não causa ruído. Mas quando ousa pensar, quando ousa apontar contradições, quando transforma alegoria em denúncia, ela se torna incômoda. E o incômodo é sintoma de que a mensagem atravessou.
No fundo, a pergunta talvez não seja “por que a arte incomoda?”, mas “por que nos incomodamos tanto quando ela nos mostra quem somos?”.