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Nair

A crocheteira que parou de cantar

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Autor/Imagem:
Mércia Souza - Foto Francisco Filipino

O pai de Nair subia a lavoura de café socando a enxada no chão com raiva. Ao se aproximar da esposa e dos filhos, veio gritando:

— Sabia que ela está registrada como homem?

Nair ficou muito feliz. Ela, que sempre amou cantar e passava os dias trabalhando no cafezal soltando a voz, estava sem cantar há cinco dias. Minutos depois, após disfarçar a alegria pelo erro no registro de nascimento, lá estava ela, cantando como um canarinho.

No entanto, a alegria durou pouco. Em menos de três dias, o pai de Nair subiu a lavoura contente:

— Consegui resolver! Faremos um novo registro, como se ela nunca tivesse sido registrada, e ela se casará em seis meses.

Nair, que tinha como profissão o trabalho de lavradora e crocheteira, passou a dividir seus dias entre a apanha do café e o crochê à noite. Às vezes, ela e a mãe se juntavam para terminar as peças e conseguir um ganho extra, pois o único dinheirinho que Nair conseguia para si vinha de catar os grãos de café que ficavam perdidos no chão ou de vender suas toalhinhas.

Teve uma ideia incrível enquanto fazia a toalha para sua própria mesa — aquela que serviria o café do marido em breve. Havia ali uma dor profunda: Nair nunca quis se casar, mas não tinha escolha, pois o pai decidia a vida de todas as mulheres da família.

Chamou o pai e disse:

— Meu pai, peço um favor. Esta é a toalha da minha mesa, para agradar ao meu futuro marido. Como tenho outros afazeres, não poderei pegar nela todos os dias nem trabalhar direto, mas quero que seja a mais bonita que já produzi. Por isso, gostaria de me casar apenas quando a terminar. O senhor me permite?

O pai aceitou de bom grado o acordo; afinal, Nair estava pensando no bem-estar de um homem.

Seis meses se passaram e a toalha continuava minúscula. O pai chamou Nair e perguntou:

— A toalha não vai sair?

— Vai sim, papai! Olha que linda.

Cheia de flores coloridas no centro, ela realmente era um espetáculo, mas tinha no máximo trinta centímetros — e precisava chegar a um metro e cinquenta.

— Tudo bem, trabalhe mais nela.

Nair até que trabalhava firme: conduzia as carreiras, mudava os pontos e a toalha crescia… até o pai dormir. Assim que ele pegava no sono, ela desmanchava boa parte do que havia produzido.

O casamento, marcado para dali a seis meses, já passava dos três anos. Mas, para o pai de Nair, trato era trato. Ela trabalhava esperançosa: quem sabe o noivo se cansasse da espera e se casasse com outra?

Sábado era dia de festa na igreja. Nair passou a tarde arrumando docinhos, salgados e barracas. À noite, cantou.

Ao chegar em casa, contudo, um grupo de mulheres que estava lá para cozinhar a recebeu em festa, exibindo a belíssima toalha de crochê terminada; colorida, grande, perfeita para agradar ao marido. Elas a haviam terminado em segredo para ajudá-la.

Nair só voltou a cantar quarenta e cinco anos depois, no dia em que seu marido morreu.

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Mércia Souza é escritora, colunista de jornais e revistas, e artesã crocheteira. Autora de três livros publicados — transitando entre o romance e as crônicas —, expressa sua visão de mundo tanto através das palavras quanto das linhas. Feminista, mãe e avó, reside atualmente em Cachoeiro de Itapemirim (ES), onde divide seu tempo entre a literatura, o artesanato e o amor pelas montanhas e pelo mar.

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