Sociedade paliativa
A dor proibida e a profilaxia da positividade
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A arte de viver, sob um olhar metafísico e não apenas ontológico, está sendo furtivamente emudecida pela comodificação da positividade, que, quando em excesso, provoca um significativo adormecimento das narrativas individuais e culturais da dor, uma vez que anestesia o seu lugar de fala e reflexão.
As prosas da ‘saúde (física e mental)’, do ‘sucesso’ e do ‘ser cada vez mais produtivo e melhor do que os seus pares’ construídas pelo capitalismo neoliberal despolitizam “a dor ao medicalizá-la e privatizá-la” (HAN, 2024, p.30).
A natureza do indivíduo transmudada para capital humano o tornou empreendedor de si mesmo, e, por conseguinte, o seu sofrimento passou a ser interpretado como resultado do próprio fracasso. Dito de outro modo, a realização pessoal é atualmente percebida como um encargo de cada ser, independente do contexto global e socioeconômico no qual o sujeito está inserido.
A tristeza, melancolia e frustração germinadas pelas vivências e trocas sociais são combatidas pela profilaxia da positividade, tornando-as rasas e desprovidas de sentido.
Motivações como: “você é capaz”, “você é um vencedor” e “seja feliz”, quando não surtem efeitos no mundo prático, normalmente passam a se exteriorizar no “nível da farmacologização”, imunizando a liberdade da consciência individual de questionar tanto a origem e profundidade da dor, quanto sua função na relação com o próximo e, até mesmo, com a espiritualidade.
Em suma, a sociedade paliativa enxerga a dor como sinal de fraqueza, pois o crescente desejo de narcotizá-la, seja por meio do uso dos medicamentos ou até do uso excessivo das mídias sociais (idem, p. 29), impede não somente o aprofundamento do autoconhecimento, mas, igualmente, a capacidade de contestar criticamente as estruturas sociais.
(Han, Byung-Chul. Sociedade paliativa. A dor hoje. Trad: Lucas Machado. 5 ed. Petrópolis, Rio de Janeiro: Vozes, 2024.)
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Sandra J. M. Villaverde (@profsandra.villaverde) é professora universitária e advogada criminalista no Rio de Janeiro – RJ.