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Hiperexposição

A elegância revolucionária de cuidar da própria vida

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Autor/Imagem:
Emanuelle Nascimento - Foto Francisco Filipino

Há quem imagine que revoluções começam nas ruas, nas praças ou nos parlamentos. Tenho uma teoria menos épica e, talvez por isso mesmo, mais útil: em tempos de hiperexposição, cuidar da própria vida tornou-se um ato quase revolucionário.

Parece simples.

Não é.

Vivemos cercados por uma estranha compulsão em acompanhar a existência alheia. Sabemos onde as pessoas viajaram, o que comeram, quanto correram, que livro começaram e nunca terminaram, qual restaurante descobriram e até o humor que escolheram para a playlist da semana. Nunca foi tão fácil conhecer a rotina de desconhecidos. Nunca foi tão difícil conhecer os vizinhos.

Há algo de profundamente curioso nisso.

Gastamos horas tentando entender por que alguém terminou um relacionamento que nunca nos pertenceu, enquanto adiamos aquela consulta médica que deveríamos ter marcado há meses.

Sabemos quem deixou de seguir quem.

Mas esquecemos de perguntar à nossa mãe como foi o dia.

Conhecemos os escândalos da semana.

Mas ignoramos o porteiro do prédio há três anos.

Talvez a grande ironia do século XXI seja essa: confundimos informação com vínculo.

Não confundamos.

Uma sociedade não se constrói apenas com conexões; constrói-se com relações.

Há pessoas que colecionam milhares de seguidores e não têm a quem telefonar quando o carro quebra numa terça-feira chuvosa.

Outras vivem discretamente, quase invisíveis às redes, mas são ricas em algo que algoritmo nenhum consegue contabilizar: presença.

Tenho a impressão de que cuidar da própria vida não significa fechar os olhos para o mundo.

Significa escolher onde colocar a energia.

É compreender que a existência já oferece desafios suficientes sem que seja necessário administrar também a agenda emocional dos outros.

Existe uma liberdade enorme em não precisar opinar sobre tudo.

Em admitir que não sabemos.

Em aceitar que certas histórias não nos dizem respeito.

Curiosamente, quem vive ocupado demais vivendo raramente encontra tempo para vigiar a felicidade alheia.

Talvez porque tenha descoberto uma verdade simples: a própria vida já é um trabalho de tempo integral.

E convenhamos, é um emprego que exige horas extras todos os dias.

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