Entrevista/Elizandro Todeschini
“A escrita é um gesto de responsabilidade”
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Elizandro Todeschini é um escritor gaúcho que transita entre o direito e a literatura. Com quatro romances publicados, ele explora temas como a memória, o silêncio e a violência cotidiana.
Em entrevista exclusiva, Elizandro fala sobre sua trajetória, inspirações e o papel da literatura na sociedade.
Fale um pouco sobre você, seu nome, onde nasceu, onde mora, sobre sua trajetória como escritor.
Meu nome é Elizandro Todeschini. Nasci em David Canabarro, no interior do Rio Grande do Sul, em 11 de janeiro de 1980, e atualmente moro em Marau. Minha trajetória profissional se desenvolveu principalmente no campo do Direito, onde atuo como Defensor Público do Estado, mas a literatura sempre ocupou um lugar central na minha vida. Como escritor, publiquei quatro romances: De volta ao pátio, Nenhuma eternidade, Eles que não ganhavam doces e Ninguém ouve o sangue. Minha escrita dialoga com a memória, o silêncio, a violência cotidiana e as ambiguidades morais que atravessam a vida comum.
Como a escrita surgiu na sua vida?
A escrita surgiu cedo, inicialmente como leitura e curiosidade pela linguagem. Com o tempo, tornou-se uma necessidade: escrever passou a ser uma forma de compreender o que muitas vezes não encontra espaço nem na fala cotidiana nem nos processos formais da vida profissional.
De onde vem a inspiração para a construção dos seus textos?
Vem da observação atenta do cotidiano, das relações humanas e das contradições sociais. Muitas vezes nasce de situações simples, aparentemente banais, mas carregadas de tensão — um silêncio prolongado, uma escolha evitada, um gesto interrompido.
Como a sua formação ou sua história de vida interferem no seu processo de escrita?
Interferem profundamente. A atuação como Defensor Público coloca-me em contato direto com histórias humanas densas, conflitos reais e desigualdades estruturais. Isso influencia minha escrita, que evita respostas fáceis e prefere trabalhar com nuances, contradições e zonas cinzentas.
Quais são os seus livros favoritos?
Alguns livros me acompanham há muitos anos, como Cem Anos de Solidão, Dom Casmurro, O Velho e o Mar, O Sol é para Todos e Lavoura Arcaica. São obras que resistem ao tempo e continuam dizendo algo novo a cada leitura.
Quais são seus autores favoritos?
Gabriel García Márquez, Mia Couto, Valter Hugo Mãe, Machado de Assis, Ernest Hemingway e Harper Lee. São autores que mostram que estilo é, antes de tudo, uma forma de olhar o mundo.

O que é mais importante no seu processo de escrita: a inspiração ou a concentração?
A concentração. A inspiração pode até iniciar um texto, mas é o trabalho contínuo que o sustenta. Não espero pela inspiração chegar: a escrita faz parte da rotina, mesmo quando o texto não avança como gostaria.
Qual é o tema mais presente nos seus escritos? E por que você escolheu esse assunto?
A indiferença e o silêncio como formas de violência. Interessa-me observar como pequenas omissões produzem grandes consequências. É um tema que atravessa tanto a esfera íntima quanto a social.
Para você, qual é o objetivo da literatura?
Criar deslocamento. A literatura não serve para confortar nem para ensinar lições morais, mas para provocar reflexão e inquietação.
Você está trabalhando em algum projeto neste momento?
Sim. Estou sempre escrevendo, revisando ou amadurecendo novos projetos. A escrita, para mim, é um processo contínuo, mesmo quando não há um livro imediatamente em publicação.
Como você gostaria que seus leitores enxergassem sua obra?
Como uma obra honesta, que respeita o leitor e confia na sua sensibilidade. Que não oferece respostas prontas, mas convida à reflexão.
Como é ser escritor hoje em dia?
É desafiador. Vivemos um tempo de excesso de informação e pouca escuta. Ser escritor hoje é insistir na lentidão e na complexidade.
Qual a sua avaliação sobre o Café Literário?
O Café Literário é um espaço fundamental de diálogo e reflexão. Iniciativas assim mantêm viva a conversa qualificada sobre literatura, algo cada vez mais necessário.
Tem alguma coisa que eu não perguntei e você gostaria de falar?
Talvez apenas reforçar que escrever é um gesto de responsabilidade. As palavras permanecem, mesmo quando o autor se cala — e isso exige cuidado, rigor e honestidade.