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Vozes da Literatura

A escrita humana e desajustada de Mércia

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Autor/Imagem:
Maria Amália Alcoforado - Foto Arquivo Pessoal

Mulher, feminista, divorciada e artesã crocheteira, Mércia Souza desafia as molduras da normalidade social para tecer uma literatura feita de verdade, acolhimento e partilha. Defensora ferrenha do poder coletivo no mercado editorial e entusiasta da nova geração de escritores democratizada pela internet, Mércia vê na escrita solitária um espelho das angústias do mundo e uma forma de quebrar silêncios históricos sem julgamentos. Nesta entrevista exclusiva ao Café Literário, a autora revela como entrelaça as memórias ouvidas enquanto faz crochê com a responsabilidade social da arte, entregando ao leitor uma sensibilidade que se recusa a ser silenciada.

Como a sua bagagem como leitor de grandes clássicos molda diretamente a sua voz na escrita criativa, e de que forma ler criticamente ajuda a destravar o seu próprio processo de criação?

Como leitora eu me apaixonei por pessoas, pela inteligência, sensibilidade e isso tem um impacto enorme na minha escrita, pois vi o despertar da minha sensibilidade do olhar humano e passei a transformar tudo isso em crônicas. Ler criticamente me faz perceber a responsabilidade que nós artistas temos com a formação de opinião e no impacto na sociedade, o que me faz pensar muito no tipo de escrita que quero deixar para o mundo.

A literatura contemporânea frequentemente flerta com a filosofia. Quais grandes pensadores ou correntes filosóficas servem de bússola moral e existencial para os conflitos que você desenvolve em suas páginas?

Sou apaixonada pela filosofia e, claro, por Friedrich Nietzsche. Atualmente Djamila Ribeiro, Viviane Mosé, Mario Sergio Cortella e Leandro Karnal são referências na atualidade e para mim são muito importantes para minha personalidade e escritora. Tenho verdadeira paixão pela filosofia, desde muito jovem.

Diante da hegemonia das mídias digitais e do consumo rápido de informação, qual é o espaço e a relevância da crônica urbana hoje, especialmente se comparada ao tempo de mestres como Rubem Braga e Drummond?

A crônica urbana não perdeu seu espaço, ao contrário, ela serve como antidoto contra a superficialidade. Para mim, ela oferece pausas reflexivas, claro que nem sempre ela está presente no jornal impresso durante um café da manhã como na época de Rubem Braga e Drummond, ela migrou para a internet.

Sendo a literatura e o jornalismo historicamente entrelaçados no Brasil, como você equilibra o rigor da observação dos fatos com a liberdade da invenção ficcional na sua produção literária?

Estamos vivendo em um momento de desinformação e a literatura atua como um espaço um de resistência, eu busco a preservação da subjetividade, validar emoções humanas e o respeito pelo real, ou seja, busco uma forma que fique muito claro o que é ficcional.

Escrever ficção em tempos de pós-verdade impõe novos limites. Como a literatura pode atuar como um refúgio da verdade humana ou uma ferramenta de denúncia em um mundo saturado de narrativas distorcidas?

Com certeza, não é fácil mostrar a responsabilidade que temos com a construção social, e isso eu diria em todas as áreas, mas na literatura é necessário observar o impacto que a ficção traz nessa construção, sabemos que por décadas a ficção influenciou e ainda influencia comportamentos.

O domínio das técnicas específicas de cada gênero textual liberta ou aprisiona a criatividade? Como o conhecimento formal de estrutura e diferencia um autor amador de um escritor profissional?

Ah, sim. Há quem escreve com a técnica e quem escreve com a alma e eu te confesso que embora a técnica seja muito importante quem escreve com a alma me ganha. O escritor, poeta é um artista, ele enxerga uma beleza única e imperceptível e o domínio das técnicas limitam a criatividade. Um escritor profissional se preocupa excessivamente com a opinião do leitor e para diferenciá-los vemos muitas vezes um excesso de palavras bonitas que as vezes tira do leitor a oportunidade de se emocionar e se ver no lugar do autor.

Como você define o seu “lugar de fala” na literatura atual e de que maneira essa posição influencia a receptividade, as críticas e a conexão emocional com o seu público leitor?

Meu lugar de fala ainda é um peso, sou uma mulher feminista, divorciada e tenho uma importante posição nesse lugar. No entanto, lido todos os dias com a tentativa de ser retirada dele, embora eu seja respeitada no geral e na maior parte do tempo pela maioria que me conhece. Ainda estou fora do que a sociedade considera normal e, pior, não tenho a intenção de ocupar o espaço “normal”. Todavia, minha receptividade é muito boa, as críticas e conexão vêm da verdade, do como me enxergam, e poucas vezes tenho problemas com isso. É claro que grande parte são mulheres ou homens que seguem essas mudanças.

O escritor Daniel Machi afirma que os autores precisam abandonar o egoísmo de querer aparecer individualmente em prol de algo maior, que é a própria literatura, criando redes de apoio mútuo para se fortalecerem e ganharem visibilidade. Você concorda com essa visão sobre o papel do coletivo no mercado editorial?

Com toda certeza, em qualquer área, eu acredito que o egoísmo é o fracasso, mas óbvio que nesse momento a arte tem lidado com o egoísmo de forma mais acentuada e apenas os que dividem conhecimento, que formam grupos crescem, quem ensina, aprende e cresce, individualismo e egoísmo nunca é ponte.

Escrever costuma ser um ato solitário, mas as oficinas de escrita criativa e os grupos de coletividade têm crescido. Como a troca de experiências e o feedback desses espaços impactam o refinamento dos seus textos?

Verdade, escrever é um ato solitário, é nosso interior encontrando caminhos para se eternizar, mas o contato com outras escritoras(os) e com os feedbacks de leitores consigo melhorar minha percepção humana, me questionar como ser que vive em sociedade e isso transforma minha escrita solitária em visão do que somos como sociedade e grupos.

O escritor Eduardo Cesario-Martínez defende uma visão otimista de que a melhor geração de escritores é a atual, e que as futuras serão ainda melhores graças à democratização da escrita pela internet. Como você enxerga esse impacto da tecnologia na qualidade da nova produção literária?

Concordo também, autores como Machado de Assis e outros tiveram muita dificuldade para ser o que são para nós hoje, e se você tivesse me feito essa pergunta há cinco anos, eu teria dito que éramos uma geração perdida, mas atualmente tenho conhecido autores maravilhosos, amador ou profissional, tenho visto os questionamentos deles com a responsabilidade com a arte, com a sociedade e principalmente com o apoio e a necessidade de mudanças.

A escrita criativa é um espelho ou uma fuga? De que forma o seu trabalho literário funciona como uma ferramenta de diálogo interno com as suas próprias angústias e, ao mesmo tempo, de debate com os problemas do mundo?

É um espelho, sou muito humana, gosto da vida e do ser humano, tudo se torna escrita. Sou uma mulher e nasci em um tempo em que as mudanças no mundo feminino aconteceram em silêncio, acompanhei mulheres silenciadas e me ressenti com elas, até perceber que na verdade o silêncio era uma forma de luta. Meu trabalho literário é mostrar sem essa mudança e também minha compreensão sem culpar as pessoas que vieram antes de nós, é falar abertamente de dores e problemas sem condenar ninguém, é compreender, refletir, pensar e modificar.

Muitos autores constroem carreiras polímatas, dividindo-se entre outras profissões (como a ciência, o direito ou a educação) e as letras. Como a sua atuação fora das páginas alimenta a profundidade e a diversidade temática dos seus cenários e personagens?

Sou quase uma Cora Coralina e seus doces, mas sou artesã crocheteira e, enquanto trabalho, me lembro da história de uma cliente ou das histórias da minha avó e paro para registrar os altos e baixos e o fim bonito de cada história, assim como nos pontos do crochê.

O mercado editorial atual exige que o autor seja também o seu próprio divulgador nas redes sociais. Como criar uma presença digital autêntica e engajar leitores sem deixar que as métricas de internet corrompam a essência e a profundidade da sua literatura?

Pois é, sou da natureza, do bate-papo com café, do vinho com os amigos e confesso que tenho uma certa dificuldade como divulgadora das redes sociais e tenho uma certa preocupação com o me “corromper”, então, sempre que me vejo perdida, desapareço um pouco das redes e parto para o convívio com o café, o bate-papo, o analógico.

Pensando nos espaços democráticos de publicação, como o Café Literário ou portais de jornalismo cultural, qual a importância desses canais na oxigenação do mercado e na revelação de novos talentos que enfrentam barreiras nas grandes editoras?

Esses canais sempre tiveram uma importância muito grande no meio literário, eu amava as crônicas dos jornais, pareciam novelas, paravam na melhor parte. Hoje esses canais têm um papel fundamental de mostrar novos rostos, novas (os) autoras(es) e principalmente de criar um espaço único para aqueles que não sabem que caminho seguir, é uma porta aberta.

Para encerrarmos, se você pudesse escolher apenas uma única mensagem, angústia ou reflexão para imortalizar na mente de quem lê a sua obra hoje, qual seria?

Vou encerrar com uma frase que uma amiga escritora me descreveu em um texto para o jornal Notibras e foi certeira. “Eu escrevo para não afogar as ideias, para que o coração não vire lama sem pérola, a pérola nasce da dor que a ostra não explica.” É uma reflexão do quanto a escrita pode ser a cura, a libertação, compreensão e a forma como admiramos a beleza única da vida, com suas alegrias e tristezas, com seus vales e montanhas.

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Mércia Souza é escritora, cronista e colunista de jornais e revistas. Com três livros publicados e participação em diversas antologias, encontra na escrita o fôlego para registrar o cotidiano. Mãe e avó dedicada, é apaixonada pela natureza e divide seu tempo entre a contemplação do mar e o desafio das montanhas. Atualmente, reside em Cachoeiro de Itapemirim (ES), de onde extrai inspiração para suas próximas narrativas.

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